Arquivo de agosto \25\UTC 2009

Sala de Roteiro para Jonas e a Baleia

Jonas e a Baleia ganhou uma sala de roteiro na Maria Bonita. Acabamos de passar por uma fase de discussões intensas sobre cada cena, o encadeamento e a real necessidade de cada uma delas. Resolvemos então pendurar na parede todo o roteiro dividido por cenas, além fazer um board com quadradinhos contendo o resumo de cada uma e um outro com a ação dividida por dia da semana, dentro do tempo físico em que se desenvolve a nossa história (o filme se passa em 11 dias). Com isso ganhamos um espaço que permite o silêncio necessário pra quem escreve e a privacidade necessária pra quem discute. Nesses dias tenho sido a única ocupante da sala, já que a bola nesse momento está comigo. Recebi do Élcio (Verçosa Filho) o segundo tratamento do roteiro, fiz um revisão cuidadosa e discuti com ele cada cena. Agora está na minha mão a difícil missão de reescrever o texto e cortar uns 20% da ação e, no mínimo, umas 30 páginas. O segundo tratamento veio com 153 páginas, na revisão eu já tirei 11 e nesse terceiro tratamento pretendo diminuir mais 20, pelo menos. Difícil missão… Tentarei ser menos literária que o Élcio, que escreve imensamente bem e usa esse talento pra descrever, misturado à ação, as sensações, sentimentos e emoções de personagens que falam pouco mas sentem muito. Sinto que esse trabalho, nessa fase, serviu mais a nós, roteiristas, e a mim, diretora, do que ao roteiro propriamente – pra que entendamos exatamente o universo dos personagens e do filme que estamos desenvolvendo. Agora que demos essa volta, tão proveitosa pras nossas funções, vou tentar restringir ao roteiro o que é do roteiro.

quadradinhos no board

quadradinhos no board


o roteiro todo do outro lado

o roteiro todo do outro lado


sozinha

sozinha


com o Élcio

com o Élcio

Filme da Semana – Ford Focus – Fábrica

Ué? Filme da semana? Mas o filme é velho! Já tem quase um ano! Pois é. Mas o fato é que não tem nenhum filme que se destaque essa semana. Mas tem um fenômeno que se destaca, que venho observando há tempos. E esse filme de Ford Focus ilustra perfeitamente o conceito. Já repararam a quantidade de comerciais na TV com trilha baseada no pop americano? Às vezes é uma música bem conhecida, como nesse caso (Happy Toghether, The Turtles), às vezes é uma música composta sobre essa referência, pra sair mais em conta. Mas tudo que é filme hoje em dia vem com uma musiquinha pop cantada em inglês. Houve um tempo que a moda era música brasileira (Rider!), outro tempo em que era tudo só instrumental, outro em que ninguém queria muita interferência de música e pedia-se ao trilheiro uma “caminha” musical, palavra que ofende os maestros quase tanto quanto “trilheiro”… Mas eis que a alegria do pop americano começou a dominar as trilhas. O que realmente agregou alegria e certa velocidade aos filmes, mas corre o risco de deixar tudo muito parecido, como é da natureza da moda: ótimo quando é novidade, funcional quando é tendência e aborrecido quando é lugar-comum. E já que essa semana tá fraquinha de novidades, vamos lembrar desse comercial onde a trilha, pop, cantada em inglês e com essa levadinha leve, é extremamente pertinente e apropriada ao filme. Uma história bem contada onde a trilha auxilia e dá colorido à narrativa. Aliás, o filme deriva da trilha e a trilha é parte do filme. Um achado.

direção Claudio Borrelli, fotografia Ted Abel, maestro Zezinho Mutarelli, som Saxsofunny, produção Killers, criação JWT

Queria ter ido à Bienal de Veneza? Seus problemas acabaram!

O Marcello Dantas foi. Veja esse video delicioso, feito a partir de fotos. Aproveite e veja outros videos postados por ele no youtube, todos muito bacanas. E não perca nada do que ele faz, ou pensa, ou dirige, ou é curador. Foi ele que concebeu o Museu da Lingua Portuguesa, os 50 anos de TV na Oca, muitas exposições de arte, grandes exposições históricas e documentários premiadíssimos. No site dele tem tudo. Vai lá! www.magnetoscopio.com.br

Filme da Semana – Sadia – Famílias

Mais um filme emocional com crianças dirigido pelo Alex Gabassi. É curioso como o mercado etiqueta um diretor quando ele acerta a mão em determinado tipo de filme. Antes crianças deveriam ser sempre dirigidas por Julio Xavier. Depois por Ricardo Carvalho, o Gordo. Agora é com o Alex Gabassi. Com evidente talento pra direção de atores e filmes emocionais (entre eles a premiadíssima campanha de Banco Real com clientes de verdade), desde a campanha de Fiat 50 anos, o Alex vem fazendo sucessivos filmes com crianças, muito naturais, muito acertados. Esse é mais um. Vem na sequência dos simpaticíssimos filmes de Unibanco onde as crianças estão incrivelmente naturais. Mas, para além da atuação das crianças, são filmes muito bons, muito bem dirigidos. Posto aqui os 3 – Sadia, que acabou de sair, e os 2 de Unibanco, “Busca” e “Escondido”.
Tenho uma implicância com quem comenta que o ator tal é muito bom, portanto o filme ficou ótimo. Atores bons ou potencialmente bons dependem de um bom diretor que saiba explorá-los, que sejam sensíveis às suas possibilidades. Principalmente em se tratando de crianças. E o Alex está deixando sua marca nos filmes emocionais, humanos, sensíveis. Com criança ou não. Pra demostrar, posto por último um exemplo de direção dele muito sensível e precisa que não é nem com ator adulto nem com ator criança. É com ator cachorro!

direção Alex Gabassi, fotografia Lito , produção O2, criação DPZ


direção Alex Gabassi, fotografia Lito, produção O2, criação F/Nasca S&S

direção Alex Gabassi, fotografia Marcelo Trotta, arte Marcelo Scañuela, produção O2, criação Y&R

Diretores brasileiros, tremei?

O assunto da semana entre as produtoras de publicidade é a chegada no Brasil de produtoras estrangeiras ou diretores estrangeiros representados por produtoras brasileiras ou internacionais, pra filmar no Brasil pra agências brasileiras. Ui. Eu acho que não há porque se preocupar. O Brasil já tem uma reserva natural nesse mercado, também conhecida pelos nomes de prazo, verba ou cliente inseguro. Ou alguém acha que diretores internacionais como, digamos, os Vickings, o Michael Gondry o irmão do Michel Gondry, o Armando Bo, vão se submeter aos prazos e verbas que estão sendo praticados ultimamente? E vão estar disponíveis pra fazer 50 reuniões e 90 versões pra deixar o cliente seguro? Claro que não. O que vai acontecer é que algumas raríssimas exceções em que o filme tiver tempo e verba e o nome do diretor compensar a distância dele durante o processo fora das filmagens (que, todos sabemos, é loooongo), aí sim, um ou outro filme será dirigido por diretor estrangeiro. O que não apenas não representa ameaça alguma, como também ajuda a reciclar o mercado e nivelar por cima. Além do que obriga agência e cliente a se comportarem com maior organização e até a escutarem alguns “nãos” que as produtoras brasileiras não tem coragem de falar com medo de perder o cliente do dia a dia, de todos os dias. Cachorro-peixe por exemplo, da Almap, dirigido pelo inacreditavelmente bom Armando Bo, ganhou todos os prêmios merecidos pela criação e direção impecáveis que teve. Teria ficado igualmente bom se fosse dirigido por um dos melhores diretores do Brasil que, aliás, fazem quase todos os filmes da Almap? Talvez. Mas também é muito bom ver um filme do Armando Bo no intervalo do Fantástico. Isso quer dizer que a Almap vai deixar de fazer filmes com o Manga, o Borrelli, o Meirelles, o Pedro Becker? Não vai. Aliás, já não deixou. Depois de cachorro-peixe muitos e ótimos filmes da Almap foram feitos por diretores brasileiros. Ao mesmo tempo a agência é uma das principais incentivadoras das produtoras que estão vindo com representação ou filial no Brasil. Bom, teremos mais cachorros-peixes. Graças a Deus.

Filme da Semana – Honda City – Palavras

Campanha de lançamento de carro com 2 filmes totalmente diferentes, de produtoras e diretores diferentes. O que é raro – normalmente o cliente tenta empacotar os filmes de uma campanha, mesmo que eles tenham características tão diferentes que a escolha de um mesmo diretor corra o risco de ser no mínimo 50% equivocada. Não nesse caso. O filme focado no usuário foi dirigido por um excelente diretor de atores, o Clovis Melo, da Cine. E o outro, do que quero falar, focado na performance do carro e no conceito de “urbano” da campanha, foi feito pelo Mateus de Paula Santos e pelo Nando Cohen, da Vetor Zero/Lobo, mestres da computação gráfica. O Mateus é talvez o mais reconhecido motion designer do Brasil. Premiadíssimo, foi new director do showcase da Saatchi & Saatchi em Cannes, com o deslumbrante trabalho pra Diesel e é um diretor que deixa marca na computação gráfica, não apenas no “traço”, marca do designer, mas também na linguagem e narrativa, marcas do diretor. E fez com o Nando um filme que, além de muito bonito, tem o mérito de ser diferente numa categoria onde já vimos de tudo – há milênios carros são filmados em performance de todas as formas, em todas as partes do mundo. Acaba sendo uma categoria onde todo mundo copia todo mundo e raramente se vê algo diferente.
Pois o filme é diferente, moderno, bonito. Enche os olhos.

direção Matheus de Paula Santos e Nando Cohen, fotografia Lito, produção Vetor Zero/Lobo, criação Fischer+Fala!

À Deriva

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À Deriva, filme escrito e dirigido por Heitor Dhalia

Fui ver À Deriva achando que iria gostar. Vários motivos, mas o principal é que adoro filmes que se passam em períodos de férias na praia, ainda mais nos anos 70/80, quando famílias inteiras se mudavam para o litoral, do natal ao carnaval. Alimento fortíssimo pro imaginário de quem foi criança nessa época, as lembranças desse mundo salgado e ensolarado são material precioso pra explorar emoções, descobertas e transformações.
Depois de dois filmes mais “duros” (Nina e O Cheiro do Ralo), tudo que dizia respeito ao novo filme de Heitor apontava pra um filme delicado, emotivo, sensível. O cartaz, o elenco, as imagens de Búzios, a estréia em Cannes, o carinho com que os envolvidos no filme se referiam a ele.
Mas uma pulga me importunava a orelha: dos filmes brasileiros emocionais que tenho visto ultimamente, pouquíssimos abrem espaço na ação pra que a emoção se desenvolva. Roteiros são geralmente muito mais calcados na ação do que deveriam, o que pode ser um problema se o filme não quer ser um filme de ação. Mas escrever sobre os sentimentos que permeiam as ações, num roteiro, é bem difícil, correndo o risco dele ficar enorme e literário, o que é outro dos defeitos recorrentes nos roteiros. Daí que se o diretor não souber valorizar os entreatos, as entrelinhas, criar espaços, clima, convivência boba entre os personagens que determinem que tipo de relação eles têm e que pessoas eles são, o filme corre o risco de ficar superficial, fraco, débil.
Nesse aspecto, um diretor acostumado à publicidade pode derrapar feio. Não se exercita os espaços na publicidade. Briga-se heroicamente contra o tempo, tentando que a ação seja milimetricamente dividida nos planos que se apertam em exíguos 30s, fora o packshot. Por isso são tão raros os bons filmes emocionais na publicidade. É quase impossível emocionar em 30 segundos. Quantos comerciais emocionais já vi que funcionam na versão do diretor, aquela de 2 minutos que está no repertório dele, no site da produtora. Mas na TV vai a versão de 30, um filme de ação, mesmo que se queira fazer chorar.
Pois À Deriva é um filme emocional dirigido por um diretor criado na publicidade. Estão lá os tempos, os espaços, os silêncios necessários pra que se entenda e se sinta a qualidade emocional do filme, o drama de cada personagem, a relação deles com os outros, com o mundo, com eles mesmos.
Naturalmente não é isso que faz um filme ser bom, até porque esse seria apenas um dos apectos a se considerar. Mas fiquei bem feliz de reconhecer essa característica em À deriva, que tanto faz falta no cinema brasileiro contemporâneo e que sobra no cinema de nuestros hermanos argentinos.


Lô Politi

Blog pra falar (originalmente) de cinema, tv e publicidade. Mas agora tem também crônicas, viagens e aleatórios...

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