Aquela figura alta, longilínea, abrindo a porta do carro – que carro era aquele, por que meninas têm essa dificuldade? Seria tão certo lembrar que o nome do carro era aero willis ou maverick – vai minha filha, entra logo, ainda temos que buscar Alice… Alice era minha amiga mais linda, não muito íntima, mas era a única que tinha restado como eu na cidade, em pleno feriado onde todas as amigas – as íntimas – estavam veraneando pelas casas de praia ou fazenda que nós nunca tivemos, mas tanta gente tinha que quase que nós não precisávamos ter. Quase. Meu pai havia escolhido Pirapora do Bom Jesus seu destino e de duas meninas não muito amigas mas fortemente ligadas pelo mesmo sentimento de abandono num domingo quente, dia feriado, numa época em que a cidade ficava realmente vazia num domingo de feriado, e assim vazia parecia ainda mais quente, mais abandonada, e nós nos sentíamos parte daquele abandono, porque não estávamos na praia nem na fazenda, não éramos proprietárias nem convidadas, a nós restou a cidade quente e vazia, num domingo feriado. Quem é Alice, perguntou meu pai, no sábado de planos, depois de uma sexta-feira de aflição. A Alice do clube, sabe, irmã do Tarcísio, ela também não viajou. Ele sabia, gostava da Alice, aquela menina do clube, irmã do Tarcísio, tão linda, ele dizia. Vamos a Pirapora, proclamou meu pai. De carro. O carro dele. Só nós, mais a Alice. Alice encarou com normalidade o fato de que não iríamos para a praia nem para a fazenda. Nosso destino era Pirapora, e Alice também parecia confiar no homem alto e longilíneo. Do caminho quase não lembro. Lembro da parte de dentro do carro. Eu e Alice no banco de trás, de couro claro, dependuradas no banco da frente. Onde é Pirapora? Quanto tempo falta? Vai ter lanche? O que tem em Pirapora? Quantas vezes podemos ir ao teleférico? Visto assim de trás e de baixo, meu pai era ainda mais alto e longilíneo. Cheirava à loção pós-barba, vestia indefectíveis camisas brancas, sorria com os olhos refletidos no retrovisor. Alice falava puxa como seu pai é legal. Eu pensava puxa como a Alice é legal. Em Pirapora tinha igreja e teleférico. Não era praia nem fazenda.
Arquivo de outubro \30\UTC 2009
“Aos 10 anos” – Crônica da Sexta
Publicado 30/10/2009 r 5. crônica da sexta Deixar um ComentárioTags:crônica
A necessidade de falar de outras coisas (e de como abrir a mente evita o emburrecimento).
Publicado 29/10/2009 r 7. aleatórios Deixar um Comentário Me interesso muito por pessoas que usam parte do seu tempo pra se dedicar a outras coisas na vida além da sua atividade principal. A pessoa que arranja tempo pra fazer aula de culinária, violão, filosofia. Que escreve um livro, faz um filme, pinta um quadro, mesmo sendo dentista, engenheiro ou psicanalista. E leva a sério. Aliás, sempre que tem um filme feito por alguém que não é prioritariamente cineasta, eu corro pra ver. Como o filme feito pelo Caetano Veloso. Ou pela dupla de arquitetos Isay Weinfeld/Marcio Kogan. Me interessa muito ver como pessoas que vivem majoritariamente expostos a diferentes estímulos que não o cinema, se expressam através de um filme. Acho que fazer coisas que não tem nada a ver com o que a gente faz, enriquece nosso processo criativo e abre nossas mentes com novos e diferentes estímulos e acaba por nos tornar até mais inteligentes, já que permitimos que nosso cérebro descubra outros caminhos, faça sinapses inéditas e amplie nossa capacidade de pensar, criar e viver melhor.
Enfim, tudo isso pra dizer que tenho tido vontade de falar de outros assuntos aqui nesse blog que não somente cinema, publicidade e afins. A partir de amanhã, reservarei as sextas-feiras pra postar escritos que nada tenham a ver com esses temas, na maioria crônicas que tenho escrito ao longo da vida para os mais variados fins. Somente às sextas, prometo. Pra dar uma relaxadinha no final de semana.


Você está no set de filmagem com, digamos, 3 atores principais, 10 coadjuvantes e uns 30 figurantes. Pode ser uma cena tipo um festinha, uma comemoração de alguma coisa. Os atores principais têm fala, os coadjuvantes estão por perto e reagem e a figuração está lá pra fazer número, porque afinal de contas não dá pra dizer que é uma festa se temos apenas 13 gatos pingados. Bom, a câmera está rodando, os atores principais dando o texto, os coadjuvantes reagindo e a câmera passa sem querer por um figurante lá atrás olhando pra colega do lado com cara de amor. Cara de amor? Você repara nele, porque cara de amor é cara de amor, você fica intrigado. No próximo take você faz a câmera se demorar mais um pouco na cara dele, embora você saiba que não é pra dar close em figurante senão tem que subir o cachê dele pra cachê de coadjuvante. Mas o cara te chamou a atenção e no terceiro take você diz baixinho pro câmera: fica mais tempo naquele cara de camisa rosa lá de trás. Daí rola a cena. Quarenta pessoas no quadro, de repente o câmera lembra e acha o figurante lá atrás. Justo nesse momento sua colega ao lado se vira pela primeira vez pra ele, dá um sorriso tímido e o nosso figurante reage com o sorriso mais aberto e mais autêntico, aquele que só se forma nos nossos rostos quando trocamos o primeiríssimo sorriso com a pessoa que vamos amar dali pra frente. E a câmera estava rodando. Aquele sorriso, que não tinha nada a ver com a história que você estava contando, termina por fechar o filme, por justificá-lo, todo o resto que você tinha planejado filmar acaba virando uma preparação pra essa que passa a ser a cena que justifica e legitima o seu filme, com uma “atuação” magnífica que dá a ele uma verdade que tanto se almeja e raramente se consegue, principalmente em publicidade. Você intuiu que dali sairia algo e deu a sorte da câmera estar rodando, justo naquele momento.
A vantagem de se preparar muito pra filmar, desenhar os planos, estudar seus atores, seus cenários, discutir com sua equipe e escutar seus conselhos, enfim, fazer sua lição de casa antes de se aventurar no set de filmagem, é que seus receptáculos ficam abertos, livres e sensíveis ao improviso, ao inesperado, às sutilezas e nuances que um diretor tenso e despreparado não consegue perceber. Quando você não se prepara e tem que ficar “descobrindo”o filme no set, pensando em como filmar e o quê vai colar com o quê, você corre o risco de perder o que você ainda não sabe, mas que virá a ser o melhor do seu filme. A cena pela qual ele será lembrado – e com a qual você não tinha nem sequer sonhado antes daquele momento único, mágico, que só acontece num set de filmagem e, se temos alguma sorte, com a câmera rodando…
Filme da Semana na TV – outubro 2009 – Passion – Rio 2016
Publicado 22/10/2009 r 3. filme da semana Deixar um ComentárioTags:Olimpíadas, Rio 2016
post anterior sobre o filme aqui
Jonas e a Baleia – Joninhas, o filme de todo mundo.
Publicado 20/10/2009 r 2. cinema e TV , 4. jonas e a baleia 6 ComentáriosEnquanto o Elcio Verçosa revisa o terceiro tratamento que entreguei a ele no começo de setembro (ou faz um quarto…) eu vou adiantando a vida prática. Fizemos análise técnica e orçamento. Agora entra na fase Ancine e depois captação, editais, etc. Enquanto isso o roteiro, mesmo que ainda esteja longe da versão a ser filmada, vai sendo lido pelas pessoas envolvidas e o projeto vai se espalhando, ganhando força e forma. O pessoal da produtora já começa a tratar o filme por “Joninhas”, tipo uma pessoa da família. Os diálogos são assim: “Vamos mandar o Joninhas pra Ancine”. “Pede pro Caio ir preparando os contratos do Joninhas”. “A Flavia adorou o Joninhas”. É engraçado. Eu adoro isso. Fico emocionada, mesmo. Todo mundo leu o argumento e botou fé no projeto. Agora todo mundo tá lendo o roteiro e ficando louco pra fazer o filme. Cada vez tem mais gente envolvida. Cada um que se envolve põe uma energia íncrivel e o filme dá um passinho pra frente. As pessoas tratam o projeto como pessoal de cada um e, a cada novidade, ou a cada nova pessoa que lê e gosta do roteiro, a notícia é compartilhada e comemorada por todos. Elcio, Aza, Paulinho, Erika, Coy, Ariene, Roberio, Janaina, Tadeu, Picheco, Arapongas, Marcelo K, Marcelo M, João, Aninha, Juliana, Pat, Flavinha, Caco, Otavio, Bibi, Paula, Michele, Dudu, Christiano, Thiago, desde o começo, cada um que lê começa logo a enxergar o filme, a andar pelas ruas da Vila Madalena com olhos de produtor de locação e a comentar que o carnaval de São Paulo é mesmo estranho, mas que pode realmente ser um pano de fundo bem interessante pra uma história de amor. Eu fico muito, mas muito animada com esse movimento. Ter esse monte de gente em volta torcendo, dedicando tempo e energia a um projeto que mal chegou ao papel, é um gás precioso e fundamental pra fazer o motor andar. E tá andando. A passos largos. O processo é lento mas, mesmo assim, sinto um delicioso ventinho no rosto.
posts anteriores sobre Jonas e a Baleia aqui

Raça Síntese de Joãosinho Trinta na Mostra de Cinema de São Paulo
Publicado 19/10/2009 r 2. cinema e TV 3 ComentáriosTags:documentário, Joãosinho Trinta, Mostra SP
Saíram os horários das exibições do documentário sobre Joãosinho Trinta (já falei dele aqui) na Mostra. Na segunda, 26/10, às 20:20, no cine Bombril, teremos a presença do próprio Joãosinho. Na exibição do Festival de Cinema do Rio tivemos uma sessão incrível, com direito a discurso emocionado no começo e ovação no final. O Odeon inteiro, lotado, aplaudiu um Joãosinho super emocionado, por muitos minutos, ao final da exibição do filme. Tenho certeza que em São Paulo será tão bacana quanto…
os horários:
CINE BOMBRIL 1 – 26/10/2009 – 20:20 – (Segunda)
ESPAÇO UNIBANCO POMPÉIA 10 – 02/11/2009 – 14:30 (Segunda)
UNIBANCO ARTEPLEX 3 – 03/11/2009 – 17:20 – (terça)

Filme da Semana – Oi – Rodrigo Santoro
Publicado 14/10/2009 r 3. filme da semana 1 ComentárioTags:Claudi Borrelli, Clovis Mello, NBS, Oi, Rodrigo Santoro
Esse filme já está veiculando há um tempo, mas é um filme que eu adoro ver, passa sem parar na TV e cada vez que passa eu morro de rir. Parte da Campanha da Oi “Na Oi você pode sim”, esse e os outros dois filmes, o da arquiteta e o do empresário, são realmente engraçadíssimos. Mas esse, especialmente, com o Rodrigo Santoro, é perfeito, porque afinal nós conhecemos o Santoro, achamos ele o máximo e realmente acreditamos que ele pode tudo. Mas não, ele não pode coisas básicas na sua operadora. O melhor de tudo é o “tá bom, obrigado” que ele fala no final, desistindo, se conformando com a triste sina de, apesar de ser tão incrível (é o bonequinho mais vendido no Japão!!!), não conseguir o mínimo na sua operadora. O tom com que ele diz isso, a encolhidinha do corpo, a paradinha na trilha, o “não” seco que ouvimos pelo telefone, tudo em contraposição com a louvação que se fez dele antes (em cenas irreais e muito bem arquitetadas, pensadas e realizadas, quando a fantasia e o tom de brincadeira são usados pra enfatizar a contraposição), tudo isso é fruto do talento do Clovis Mello, talvez um dos diretores mais prolíficos em atividade que, além de fazer um filme atrás do outro, brilha nos que fazem uso dessa mescla matadora de atuação e piada. Na mão dele bons atores fazem excelentes filmes de piada e filmes de piada ganham excelente atuação. Parece simples, mas é dificílimo. Diretores passam anos tentando desenvolver essas características, passam horas no set tentando dar ao filme pelo menos uma dessas duas características – boa atuação ou boa piada – e o Clóvis tira de letra, faz com o pé na costas.
Vou postar o do Santoro e o da arquiteta, que são do Clovis Mello, e também o “mega empresário”, que é do Claudio Borelli, que também fez um filme incrível, mas sobre ele eu falo num próximo post…
direção Clovis Mello, fotografia Fernando Oliveira, trilha Hilton Haw, produção Cine, criação NBS
direção Clovis Mello, fotografia Fernando Oliveira, trilha Hilton Haw, produção Cine, criação NBS
direção Claudio Borrelli, produção Killers, criação NBS
Brasil, um país de presente!
Publicado 13/10/2009 r 1. publicidade 2 ComentáriosTags:Brasil, Zeppelin
Há um ano, quando estava entrando pro time de diretores da Zeppelin, o Breno, diretor executivo, repetia sem parar: somos loucos, beeeem loucos, estamos investindo, contratando, ampliando! O país vai afundar, o mundo vai afundar, nosso mercado, que já estava achatado, agora vai pro brejo de uma vez! A crise é séria, de proporções inimagináveis! Vamos passar por um ano de cão! Eu pensei, com os meus botões: Por que então ele está querendo novos diretores na casa? Concluí: ele acha isso mesmo, mas acredita no próprio taco e no próprio negócio, é do tipo que cresce na adversidade, que gosta de desafios. No fundo, ele acha mesmo que o país vai afundar, mas que a Zeppelin vai no mínimo sobreviver – e ele vai continuar fazendo o que gosta na vida: cinema e previsões radicais…
Corta. Um ano depois. Andei viajando uns dias e chego na produtora. Breno, um urso de tão grande, se levanta e vem com os braços abertos em minha direção. Pensei: saudades? Mas foi só uma semana… Ele: Você não sabe (como se eu tivesse passado a semana perdida no Saara, sequestrada por Berberes), o Rio vai ser sede olímpica, vamos ter a melhor década da história do país, talvez o melhor século! Hã? E começou com um discurso animado, forte, sem ponto de edição: Copa, Olimpíadas, pré-sal, bolsa de valores, economia estável, ISO de estabilidade por 10 anos, presidente pop star internacional, o melhor e mais bonito país do mundo, agora arrumadinho e transmitido em tempo real pro mundo inteiro. Vamos nos acabar de filmar! Pro Brasil, pra América Latina, pro mundo! Vai ser uma loucura, você está preparada? Eu? Bem, sim, quer dizer, mas você não tava super pessimista, com medo até de ter que redimensionar a produtora, nesse ano? Lô, a produtora cresceu 30% esse ano, e ainda estamos em outubro… Hã? E a crise? Pois, com crise mesmo. Noooossa, e agora, sem crise e com essa perspectiva toda pela frente? Então, me dá aqui um abraço porque sentiremos saudades do tempo em que tínhamos tempo de nos abraçar de vez em quando…

Amá-lo... fazer o quê?
Filme da Semana – Passion – RIO 2016
Publicado 03/10/2009 r 3. filme da semana 4 ComentáriosTags:Fernando Meirelles, filme da semana, Nando Olival, O2, Olimpíadas, publicidade, Rio 2016
Estava aqui no Rio quando foi anunciado que a cidade seria sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Não há como não falar dos filmes feitos pela O2 pra canditatura do Rio que, seguramente, ajudaram e muito a cidade a ter sido escolhida. Se eu tinha alguma dúvida de que essa cidade tão linda e tão mal tratada deveria ou não ganhar essa disputa, vendo os filmes as minhas dúvidas se dissiparam completamente. As imagens são tão arrebatadoras que a gente acaba concluindo que o Rio nasceu pra ser sede olímpica. Além da qualidade indiscutível dos filmes, a campanha também tira uma lasquinha do reconhecimento internacional do Fernando Meirelles, dizendo aos quatro ventos que foram dirigidos por ele. Como muitos projetos da O2, os filmes são dirigidos por vários diretores da produtora, encabeçados por Fernando Meirelles, que assina a direção artística do projeto. Mas esse, especialmente, “Passion”, que me parece o principal da campanha, foi dirigido pelo Nando Olival, um dos mais longevos, criativos e talentosos diretores da O2. O Nando é um dos meus ídolos na direção de filmes desde sempre. O tempo passa e ele consegue ser constantemente bom, leve, moderno e contemporãneo, independente do tipo de filme que lhe caia nas mãos. Trafega bem na piada, nos filmes emocionais, na direção de atores, nos filmes de fotografia e arte. Eu acho até meio injusto que o mérito vá quase todo pro Fernando no caso desse filme mas, por outro lado, isso demostra que a O2, além de ser uma das maiores produtoras do país, se não a maior, é também uma das mais inteligentes. Agregar o talento e o carisma do Fernando aos outros filmes e diretores da O2, faz com que tudo que saia de lá tenha uma pré-disposição automática de aceitação por parte de agências e clientes, que querem seus produtos e filmes ligados de alguma maneira a ele, tamanho o talento e o carisma que ele tem. Os diretores mais novos, sobretudo (que nem de longe é o caso do Nando Olival), são super beneficiados por isso – o aval do Fernando abre portas pra todo mundo. Mas o mais bacana é que a gente percebe que não é só a assinatura dele que está lá. Dá pra ver a mão e a cara do Fernando em tudo o que sai da O2, fazendo com que a imagem da produtora seja impecável, inclusive entre a concorrência. Mérito do Fernando e também do time de diretores de primeiríssma linha que a 02 tem, como por exemplo, meu ídolo, Nando Olival.
direção Nando Olival, co-direção César Charlone, Renato Rossi e Rodrigo Meirelles, direção artística Fernando Meirelles, fotografia Alexandre Ermel, César Charlone e Fábio Burtin, montagem Daniel Rezende e Raimo Benedetti, trilha Antônio Pinto, produção O2, criação Five Currents
Filme da Semana na TV – set 2009 – La Fortuna – VW
Publicado 02/10/2009 r 3. filme da semana Deixar um ComentárioTags:TV
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