Arquivo de novembro \30\UTC 2009

FIlme da Semana no Rádio – Perspectivas – Itaú Personalité

Minha coluna do rádio – BandNews FM – segundas – 21:20.

Escute a de 30/11/09 – Perspectivas – Itaú Personalité:


Veja post anterior sobre o filme aqui.

Crônica da Sexta – Afilhados

Na semana passada escrevi aqui sobre minha madrinha e sobre como um ovo de páscoa dourado e gigante dado por ela fora de época, marcou a minha vida. Nessa semana inevitavelmente meu pensamento vagou sobre meus afilhados. Tenho três. Um me chegou pelo caminho normal. O segundo por um caminho meio torto. O terceiro (terceira) por um caminho completamente torto. Daniel é meu querido e amado sobrinho. Meu irmão escolheu a mim como madrinha e a mulher dele escolheu o irmão como padrinho. Caminho normal. O segundo, Iuri, é filho da minha amiga da vida inteira, Beatriz. Mas ela escolheu outra amiga pra ser a madrinha. Fiquei meio bem chateada, mas aguentei firme, calada, estóica. Não sei exatamente que caminhos o destino encontrou pra consertar um erro ainda não sacramentado, mas um dia tudo mudou e Bibi me liga dizendo que eu tinha que providenciar um batizado urgente pro meu novo afilhado, que tinha 5 anos e já era um pequeno herege aos olhos de Deus. Quem, eu? Mas desde quando eu sou a madrinha? Desde hoje. Aliás, do próximo sábado em diante, quando batizaremos o Iuri na cachoeira do seu sítio, à nossa maneira (tradução: vamos improvisar!). Bem, quem sou eu pra contrariar a ordem divina. Vamos batizar o heregezinho… Batizamos Iuri na cerimônia mais hilária que eu já presenciei, com ele apavorado com aquele mundo de água lhe caindo na cabeça, e eu e o Guto, o padrinho (vias normais: irmão da Bibi), criando na hora um texto muito complexo que tentava juntar água, pedrinhas, lama, amor e destino num único e longo discurso, enquanto o ex-pequeno herege trincava de frio. Iuri vem guardando as pedrinhas símbólicas do “batizado” por quase 14 anos, mas nunca mais na vida quis voltar àquela cachoeira.
Alice nasceu também da Bibi e do Caco, 7 anos depois. Como já era de se esperar, não fui escolhida madrinha. Bibi resolveu invovar e escolheu duas amigas pra batizar Alice. Duas madrinhas, ao invés de uma madrinha e um padrinho. Daí pensei, bom, se tem duas, pode ter três! Mas você já é madrinha do Iuri. Mas foi torto! Agora você pode compensar! Mas as madrinhas não vão gostar! E não gostaram mesmo… Mas eu venho insistindo. Não perco uma única oportunidade de dizer que sou madrinha dos dois filhos de Beatriz. De tanto que repeti isso, todos foram aceitando aos poucos. Alice, claro, foi a primeira. É demais mesmo ter três madrinhas. As outras madrinhas odeiam, mas já se conformaram. Bibi, Caco e Iuri gostam, porque já gostavam mesmo, somos e seremos amigos por toda essa vida, então que que custa, né?

Tenho sido uma madrinha não muito atenta às datas, mas tento compensar com uma ou outra intervenção bombástica em momentos especiais, conforme aprendi com minha própria madrinha.
Esses dias Alice anda triste, triste, porque morreu sua cachorrinha, companheira de toda a sua vida. Acho que vou mandar um ovo de páscoa dourado e gigante pra ela.


Tentando capturar um menino apavorado pra “batizar” e convencer que pedrinhas são o símbolo máximo do compromisso entre padrinhos e afilhados. (clique para ampliar)

Filme da Semana – Novo Fox – Velhinhos

Adoro filme de carro sem performance. Os lançamentos de carro que mostram gente bacana em paisagens lindíssimas, e só, são pra mim o anti-clímax da propaganda. Filmes caríssimos, produções hollywoodianas, filmagens internacionais, a busca incansável por uma paisagem diferente, inédita. E o que se consegue? Mais do mesmo. Por isso sempre gosto quando um filme de carro não mostra performance, porque aí não há como se prescindir de uma ideia. Claro que muitas vezes um filme tem, além da performance, uma boa idéia. Mas quantas vezes o filme só tem performance, é lindo e tal, mas não tem idéia nenhuma? Já quando não tem performance (talvez por questões orçamentárias…), cria-se a cama pra uma boa ideia. E esse filme novo de Fox (são três, mas esse, “Velhinhos”, é de longe o melhor), tem uma ideia ótima e o carro está lá bem quietinho, paradinho na sala da casa dos velhinhos. O filme é simples, quase espartano, mostra-se do carro o mínimo necessário pra ajudar a contar a história do filme. Plano frontal do carro, o câmbio, o painel, cenas que fazem parte da piada do filme e ajudam a contar a história. Essa é sem dúvida a melhor maneira de se mostrar um produto – quando a cena é pertinente ao roteiro, faz parte da história. E tem uma ótima atuação dos velhinhos, especialmente da velhinha (o que é aquele olhar dela em “resposta” à pergunta do velhinho!) a serviço do humor. Simples, direto, espartano. E, falou em humor, simples, direto, espartano, falou em Caíto Ortiz. Quem conhece o Caíto já entende exatamente porque seus filmes são como são: todo mundo gosta, todo mundo ri com ele, todo mundo se sente à vontade.
Caíto apareceu com os deliciosos filmes da Talent pra Semp Toshiba. Daí pra frente o mercado começou a a ver nele um diretor que trabalha com humor solto, espontãneo, que faz filmes simples, com a piada baseada no roteiro, nos atores, sem grandes pirotecnias, sem precisar de uma grande produção pra contar uma boa historia e, principalemente, pra contar uma boa piada. Suponho que pras agências tenha sido um achado: um cara que é de trato facílimo, avesso a qualquer estrelismo, que dá pro filme o que o filme precisa e mais o talento dele à serviço da história. Sem firulas, sem exageros, sem desperdício. Uma piada bem contada, mesmo num filme de carro, nem sempre precisa de um orçamento gigante. Mas precisa de um diretor que faça o filme crescer. E um bom diretor, muitas vezes, vale mais que um bom orçamento.
Vou postar o Novo Fox dos velhinhos mas, pra lembrar quem é o grande Caíto, vou postar também o filme de Semp Toshiba que eu mais adoro entre os vários que ele fez, “Espanto”.

direção Caíto Ortiz e Andre Godoi, fotografia Marcelo Trotta, arte Marcelo Escañuela, produção Prodigo Films, criação AlmapBBDO

direção Caíto Ortiz, produção Prodigo FIlms, criação Talent

Crônica da Sexta – Aos 12 anos

Sonia, Sonia! Soniaaaaa! Que foi, mãe? Tô no banho! Vem ver o que sua madrinha aprontou! Corre! Puxa, minha madrinha! Uau! O que é isso tão dourado? O porta-malas do carro estava aberto e lá dentro uma massa dourada refletia a luz do sol e ofuscava os olhos de quem saía pra rua. Pega você, disse o tio Silvio, meu padrinho, que aparecia de tempos em tempos com uma surpresinha mandada pela minha madrinha… O negócio era enorme, redondo e dourado. Mas é pesado? Será que eu aguento? Ah, não se preocupa, é oco por dentro… Oco por dentro? O que é isso, meu Deus. Comecei a puxar aquela monstruosidade de dentro do carro, não era muito pesado, mas era enorme, redondo e sem alças, difícil de tirar do porta-malas. Minha mãe estava agitadíssima. Acabou se atirando na frente e, não se contendo, puxou pra fora aquela bola de fogo com tamanha ansiedade que tio Silvio foi obrigado a se jogar na frente. É frágil, Cecília, cuidado, não pode cair no chão que quebra. Quebra? Oco por dentro… frágil… dourado… redondo… peraí. Não é exatamente redondo… é oval… nooooossa, parece um ovo de páscoa gigante! Ei… isso É um ovo de páscoa! Gigante! Minha mãe: o que é isso Silvio, a Nina enlouqueceu? Ah, Cecília, você conhece a Nina. Disse que tinha certeza que a menina não tinha ganhado nenhum ovo de páscoa e que tava na hora dela ser recompensada por muitos anos sem ganhar ovo de páscoa da madrinha! Mas Silvio, estamos em julho! Pois é , coisas da Nina…
Minha madrinha Nina é assim. Desaparece por meses, às vezes anos, esquece de aniversário, não tá nem aí pro Natal, que dirá a páscoa! Mas, subitamente, ela se lembra de mim. E lembra que me adora, que me acha assim especial. Lembra que adora ser minha madrinha e que madrinha tem que ter um papel especial na vida da afilhada. Daí ela me manda um dos incríveis presentes que eu ganhei dela ao longo da vida. NUNCA na data certa (pelo menos essa data “certa” das pessoas comuns…), mas sempre um presente diferente, inesquecível, que só eu tinha, que só eu ganhava, e realmente ela conseguia o que tinha planejado: fazer com que eu me sentisse especial, única, privilegiada. Bom, pelo menos em termos de madrinha, não tinha pra ninguém, realmente. Os presentes, então…
Aos oito anos recebi dela um feijão de prata da Tiffany. Pra que serviria o feijão eu não sei, mas veio acompanhado de uma carta tão espirituosa, tão bem escrita, tão amorosa e divertida que eu passei pelo menos 1 mês carregando o feijão pra todo lado e mostrando pros amiguinhos como quem compartilha um tesouro.
Aos onze eu ia pra um acampamento tristíssima porque meus irmãos iam fazer uma viagem com meus pais para a qual eu era muito pequena. Segundos antes de eu partir lá vem meu bravo tio Silvio trazendo nas mãos o que uma menina precisa pra se diferenciar num acampamento para o qual ela não quer ir: uma lanterna profissional enorme e um par de patins americanos. No acampamento, só eu tinha uma lanterna profissional e, principalmente, só eu tinha um par de patins americanos. Brancos, de couro, cano alto, aqueles que a gente ia cruzando o cordão, amarrando até quase o joelho, e com gloriosas rodas vermelhas de poliuretano. Ninguém tinha patins como aqueles no acampamento, acho que nem no Brasil, talvez nem no mundo!
Um dia muito depois do Natal chegou um visualizador de slides, uma espécie de televisãozinha onde você colocava um slide e ele aparecia iluminado, grandão, na tela. Junto, um carretel com 30 slides contando a história mais triste que eu já vi na vida, “A menina dos fósforos”, que até hoje enche meus olhos de lágrimas cada vez que algo me faz lembrar a dor e a tristeza daquela menina solitária na véspera de Natal. Aliás, minha madrinha me escreveu um dia que leu em algum lugar que a história de infância que a gente mais lembra acaba sendo o script da nossa vida… Não foi, não tem sido, no meu caso, mas toda vez que eu quero filmar ou escrever algo que emocione, eu me lembro daqueles slides…
Às quartas-feiras, na casa dela, tinha uma profusão de pastéis de queijo que eu sim podia rechear na mesa com o arroz e feijão do meu prato.
Na véspera de eu viajar sozinha pela primeira vez, pra Nova York, ela me mandou um caderninho, tipo um moleskine, todo escrito a mão, com dicas pessoais, esmiuçadas, detalhadíssimas, da cidade que ela conhece tão bem. Tenho até hoje esse caderninho e li e lerei todas as vezes que eu voltei ou voltar a NY na minha vida.
Pra completar as lembranças, um dia eu iria finalmente à Itália, viagem dos meus sonhos, estudar em Florença. Em casa chegou uma caixa de livros sobre Florença e, pra escala em Roma, um livro de fotos que me seria imprescindível: Os pintos de Roma. Pinto. Pênis. De todos os tipos, cores e tamanhos, que decoram as estátuas e fontes de Roma. Pra eu ir me acostumando com o clima.
Hoje em dia, e desde que sou realmente adulta, nos correspondemos por cartas ou email, com a mesma constância dos presentes da minha infãncia. Sem nenhuma freqüência ou motivo definido, de vez em quando lembramos uma da outra e nos damos conta de quanto nos gostamos e de quanto nos identificamos. E temos em comum o gosto por ler e escrever, o que nos torna cúmplices e confidentes bissextas, conforme vaza o nosso coração, com lembranças de um amor que sempre foi exatamente como é a minha madrinha, distante e intenso.
Nina cozinha e escreve deliciosamente. Hoje percebo que além da minha atividade principal que é dirigir filmes, o que mais gosto de fazer na vida é escrever e cozinhar. Nina vive disso, com uma coluna saborosíssima na Folha de São Paulo onde ela emociona uma multidão de leitores todas as quintas-feiras, e com um buffet que alimenta e alegra as festas de pessoas que sabem comer e viver com qualidade. Eu vivo de fazer filmes, mas na minha rotina as atividades da Nina tem crescido assustadoramente nos últimos anos. Nunca tinha me dado conta, mas seguro que é a vida dela se espalhando na minha. À distância e intensamente.

Filme da Semana – Perspectivas – Itaú Personalité

Estava para escrever sobre o filme de Itaú Personalité que tá no ar, “Perspectivas”, quando vi que saiu um outro, quase tão bom quanto o primeiro. Como gosto mais do primeiro, vou me concentrar nele… Os dois fazem uso de uma técnica chamada “tilt shift”, que altera escala e perspectiva da cena e cria essa sensação de que estamos vendo o mundo em miniatura, como uma grande maquete animada. O legal é que, obviamente, não é uma maquete, então vemos o mundo orgânico e humano como ele é mesmo, mas como se estivéssemos brincando de forte apache com nossos bonequinhos no tapete da sala. O curioso do filme é que, se esta é uma técnica que “afasta” o que estamos vendo, poderia tornar o filme frio. Mas acontece exatamente o contrário, a sensação de observar miniaturas de mundo e de gente dá um toque lúdico ao filme, em algum lugar dentro de nós toca uma sineta de sensação quente, acolhedora, próxima. Muitíssimo apropriado pra uma campanha que fala em chegar mais perto do cliente. E chega mesmo, graças ao perfeccionismo e à arte de Jarbas Agnelli, brilhante diretor que adora revesar técnicas diferentes de animação e computação gráfica nos filmes que faz. Muitas vezes um diretor com essas características e esse talento gráfico opta por desenvolver um estilo, uma técnica que faça dele grande especialista em determinado tipo de filme. Náo é o que acontece com o Jarbas. Um dos melhores diretores de arte que o país já teve, artista gráfico de altíssima qualidade, e diretor agora já bem experimentado, ele usa no filme a técnica que o filme pede. Parece simples mas é rarissimo. Já vi inúmeros casos de um diretor tentar impor ao filme a técnica que ele mais conhece, e não a técnica que seja mais apropriada ao filme. Vou postar aqui 3 filmes de Personalité feitos pelo Jarbas, que são um ótimo exemplo de como um diretor/artista alterna técnicas de animação e computação totalmente diferentes em cada caso e de como elas são incrivelmente apropriadas para cada filme. Seja com stop-motion, ilustração ou tilt-shift, os três filmes são sensacionais.


direção Jarbas Agnelli, produção AD Studio, trilha Voices, criação DPZ

Cuba! – Crônica da Sexta

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Quando comecei a dizer por aí que iria à Cuba, as pessoas reagiam de duas maneiras: ou me perguntavam o que eu iria fazer em Cuba ou me perguntavam para qual dos dois lugares eu iria, Varadero ou Cayo Largo. Aos primeiros eu respondia que iria passear, conhecer, viajar, essas coisas. É incrível como ir à Cuba pode parecer excêntrico para alguns. À turma de Varadero eu respodia que queria mesmo era conhecer Havana, Santiago de Cuba, Trinidad, cidades mais ligadas à cultura cubana do que Varadero e Cayo Largo que, na verdade, poderiam estar em qualquer lugar do Caribe, o fato de estarem em Cuba não faz a menor diferença. É um pecado ir à Ilha de Cuba sem passar por Cuba propriamente dito. Dá até para agregar ao roteiro mais cubano um pouco de praia e aí sim juntam-se todos os motivos do mundo para correr para lá. Vou até facilitar um pouco e listar alguns: Salsa. Cidades históricas. Fidel Castro. Mojitos. Buena Vista Social Club. Che Guevara. Caribe. Daiquiri. Elián. Mais? A hospitalidade. As pessoas. A música. A dança. A alegria. A beleza. Ainda mais? O tempo que parece parado em 1959. Os carros americanos antigos. A arquitetura intacta. Só um pouquinho mais: A curiosidade histórica. O testemunho. Uma ilha comunista perdida no meio do Caribe. O único país comunista do ocidente. Se você não se convenceu, o.k., parta imediatamente para Cancún. Mas se você se interessou, corra, porque essa mistura de ilha caribenha com socialismo soviético, que faz de Cuba um lugar tão especial nesse mundo, está com seus dias contados. Duas ameaças vêm crescendo: o turismo internacional e a implacável finitude humana, que um dia chegará também a Fidel Castro, ainda que muitos por ali desconfiem disso.

A ainda recente abertura de Cuba para o turismo vem conseguindo tirar o país da miséria absoluta em que havia se transformado a vida dos cubanos com a queda da União Soviética, em 1991. A boa notícia para nós é que agora existe uma estrutura para o turismo cada vez melhor, com hotéis espetaculares dos anos 40 e 50 completamente restaurados, carros em bom estado e de todos os tipos para alugar, taxis, restaurantes, uma ou outra lojinha, coisas que, até então, nem pensar. A má notícia é que, como em tantos lugares do mundo, o turismo massificado descaracteriza os lugares mais pitorescos, as cadeias internacionais erguem hotéis imensos sem nenhuma preocupação com a interferência na harmonia da arquitetura local, e a voracidade em relação aos dólares estraga um pouco o contato humano – coisas que, no caso de Cuba, podem fazer muita diferença. Por isso é preciso correr. Cuba não vai acabar, mas com certeza vai mudar muito. E algo de seu charme deve se perder.

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Música e dança

Algum cubano vai lhe tirar para dançar em alguma ocasião. Disso não se tem dúvida. A dúvida é se você vai fazer charminho, ficar com vergonha ou dizer que não sabe dançar. Não faça isso. A dança e a música em Cuba são a base da comunicação. Todo mundo dança, todo mundo canta, quase todo mundo toca algum instrumento. Não é uma ofensa recusar-se a dançar, mas é um desperdício. Aquele povo é animado, se você está dançando bem ou mal é o que menos importa. Importante é que é através da música que a gente se joga de verdade na cultura cubana. Ouve-se música o tempo todo, de ótima qualidade, em qualquer buraco, nos lugares próprios para show, nas casas de música, nas ruas, nos restaurantes, em qualquer lugar. E onde tem música tem gente dançando, até nos espaços mais exíguos, mesmo quando não há espaço algum, os cubanos sempre acham um jeito de dançar. E com a moda do Buena Vista Social Club ficou ainda melhor, porque resgatou-se em Cuba o “son”, ritmo tradicional cubano que deu origem, por exemplo, à salsa e à rumba. É muito gostoso de dançar, de olhar, de escutar a música. E no final das contas uma coisa sempre leva a outra e quando se vê já temos novos amigos, já experimentamos o mojitos, o daiquiri, já estamos integrados, já somos praticamente cubanos. E felizes.

A revolução

Que atire a primeira pedra quem nunca se emocionou com aquela foto histórica de Che Guevara mirando o infinito revolucionário. Quem nunca teve uma boina com estrelinha. Quem nunca se deixou seduzir, ao menos um pouquinho, seja pelo carisma de Fidel, seja pelos ideais de Che Guevara. Ou no mínimo pela beleza daqueles homens quase adolescentes tão idealistas que, como todos nós, um dia sonharam com uma sociedade mais justa. A diferença é que nós seguimos pela vida real. Eles fizeram a revolução.

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A revolução está por todo lado. São cartazes pelas ruas com palavras de ordem ou citações, outdoors nas estradas com fotos enormes de heróis da revolução, Fidel falando na TV sem parar, jornais totalmente tendenciosos, um verdadeiro bombardeio diário que tenta manter nos cubanos o espírito revolucionário. O que não tem sido fácil para eles, governo ou povo. Mas para nós, turistas, é muito curioso. Não há como não se envolver com aquilo, quando a gente se dá conta já conhece detalhes da revolução, já se apaixonou por um tal de Camilo Cienfuegos (herói revolucionário muito popular em Cuba e injustiçado pela história no resto do mundo), já está se programando para subir a Sierra Maestra a pé, só para saber como se sentiram os companheiros Che, Fidel, Camilo, Arturo… Isso sem falar no massacre interrogativo a que submetemos qualquer cubano que chega perto de nós. Como se vive com 4 dólares por mês? Você concorda com o sistema? Esse táxi é seu? Você não tem vontade de sair? Como é a escola, a feira, o Natal, o comércio, o cinema, sua vida, seu bairro, seu lazer, a cor da sua casa, o nome da sua filha. O cubano, embora um pouco tonto com tanta pergunta, responde com alegria, gentileza e, muitas vezes, orgulho. Quando a gente acha que está começando a entender, um Elián sorridente beija Fidel Castro enquanto outro Elián desesperado morre afogado numa dessas balsinhas primitivas tentando chegar à Flórida. Não adianta. É um outro mundo, difícil de entender se não pertencemos a ele, se nunca vivemos algo sequer parecido. Mais difícil ainda de julgar. Mas, na verdade, não precisa. Para eles é bom que o planeta tenha mais curiosidade sobre Cuba. Para nós, mesmo sem entender, tentar já é um prazer.

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Os Cubanos

Tia Blanquita ligava para nosso hotel dia sim dia não para saber se estávamos bem, se precisávamos de alguma coisa, se estávamos gostando de Havana e se realmente não queríamos tomar um café em sua casa. Não, não iríamos porque sabemos das dificuldades das famílias cubanas, não queríamos dar trabalho e muito menos despesa. Tia Blanquita quase chorou. Fomos. Demos trabalho e despesa. Comemos, bebemos, rimos, dançamos, tiramos fotos, passamos horas com aquela família, teve lágrima na despedida, foi uma farra. Você me pergunta: afinal, quem é essa tia Blanquita? Vou dizer: A irmã da mãe do marido de uma amiga de uma aluna de uma das pessoas que viajava conosco e que levou lembranças do Brasil para a distante tia Blanquita e sua família, que nos recebeu a todos como príncipes. Assim são os cubanos.

( A parte chata da simpatia cubana é lidar com o pessoal que quer te vender charuto falsificado ou prestar serviços sexuais. Outros querem mesmo é casar com você, para poder sair legalmente do país. Da primeira turma é fácil de se livrar com uma negativa firme e educada. Do pessoal mais casadoiro dá para passar da primeira etapa deixando claro que você não está a fim, ele vai relaxar e você pode partir para a segunda etapa: você já tem um amigo cubano, agora saia para se divertir! )

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Havana

Tem muita gente que acha Havana parecida com Salvador, na Bahia, ou pelo menos com o Pelourinho. Pode ser, especialmente Havana Velha que, como o Pelourinho, tem uma pequena parte restaurada e o resto caindo aos pedaços. A grande diferença é que a parte não restaurada de Havana está exatamente como estava antes da revolução, em 1959. Nenhuma mão de tinta passou por ali nos últimos 42 anos, nenhuma casa foi demolida para dar lugar à uma mais nova, nada saiu do lugar. E esse é o grande charme de Havana. Em qualquer lugar que se ande, descobre-se construções maravilhosas, dos anos 50, do começo do século, do século passado. O fato de estar caindo aos pedaços dá um ar de cidade fantasma parada no tempo que, em contraponto ao tanto de vida que tem em Havana, faz da cidade algo único no mundo. Passear pelas ruas, deixar-se perder pela cidade e entregar-se de corpo e alma aos prazeres e às belezas que a cidade esconde é a única maneira de gostar de Havana. Se você não se deixar envolver, vai achar que Havana é uma cidade pobre e detonada, apenas. Mas se você se deixar levar, vai descobrir uma cidade nem tão pobre, nem tão detonada e muito, mas muito especial.

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Outras Paradas

Do outro lado da Ilha, rodeada pela Sierra Maestra e debruçada sobre o Mar do Caribe, está Santiago de Cuba, berço da revolução e da música. Sentiu? É obrigatório. É uma cidade pequena, autêntica, acolhedora, onde se faz amigos em mais ou menos 1 minuto e meio. No dia seguinte você encontra seus amigos pela rua, sem querer. Já são quase parentes. Tem muita música, muito passeio para fazer e uma geografia bastante generosa. Além da linda Sierra Maestra, onde pode-se optar por um turismo ecológico ou histórico. Ou os dois ao mesmo tempo, como por exemplo subindo à pé as trilhas abertas pelos combatentes revolucionários.

Trinidad é uma cidade colonial muitíssimo bem preservada, declarada pela UNESCO patrimônio histórico da humanidade, um lugar lindo. Diferente de outras cidades históricas no mundo, Trinidad não tem lojinhas, não tem cartazinhos de publicidade, quase nào há descaracterizações de seu projeto original, o que por si só já é uma raridade e uma razão forte para se visitar a cidade. Como bônus, você pode ficar hospedada numa praia à 12 km da cidade, com total infra-estrutura para esportes aquáticos, mergulho, vela, etc. É a península de Alcón, marzinho azul, areia bem branquinha, uma autêntica praia caribenha, próxima de um autêntico centro histórico. O que mais se pode querer?

De carro, partindo de Havana para o leste, dá para se divertir bastante. Têm as praias do Leste, muito boas para passar o dia, a vinte minutos de Havana. Um pouco mais adiante está Varadero, se você realmente fizer questão… Para o oeste, perto de Pinãr del Río, está Viñales, na Serra dos Órgãos. Uma região agrícola linda de morrer onde se cultiva o tabaco, cheia de pequenas vilas muito charmosas e com um clima serrano agradabilíssimo. Se quiser saber mais sobre charutos, existem por ali fábricas e plantações de tabaco abertas à visitação.

Filme da Semana no Rádio – Le Cliché – MaxHaus

Minha coluna do rádio – BandNews FM -segundas – 20:20.

Escute a de 09/11/09 – MAxHaus – Le Cliché:


Veja post anterior sobre o filme aqui.

FIlme da Semana – Carmem Miranda – Brastemp

Mais um filme nonsense dirigido pelo Rodrigo Pesavento. Eu acho que os diálogos nas agências, que terminam por encaminhar um filme nonsense pro Pesa, acontecem assim: – Meu, tive uma idéia beeeem louca! – Louca, louca? Tipo beeeem louca, mesmo? – Muito louca mesmo. – Então peraí, vou pedir pra ligar pro Pesa…
Tudo que é nonsense cai na mão dele. Bebê que nasce falando “carameeeeeelo”, iguana gigante que invade a cidade, vikings bebendo cerveja num iglú, se é bem louco é com o Pesavento.
Esse de Brastemp é mais um. Carmem Miranda inventa a geladeira invertida? Chama o Pesa!
Vou dizer porquê: O Rodrigo é um moleque de quase 40 anos que junta no mesmo cara um skatista de pensamento livre e espontâneo e um diretor experiente e responsável. O diretor experiente realiza e dá estrutura aos sonhos e pirações do moleque skatista alucinado. Um sonho…
O filme é todo um Rodrigo Pesavento: louco, nonsense, divertido, acelerado, cheio de cor, cheio de vida.

Posto também o Twix, símbolo máximo de como uma idéia louca pode se transformar num filmaço na mão do Rodrigo. Há quatro anos o filme faz sucesso no Brasil e no mundo. Essa versão, por exemplo, é polonesa…

direção Rodrigo Pesavento, fotografia Alex sernambi, produção Zeppelin Filmes, criação DM9DDB

direção Rodrigo Pesavento, fotografia Alex Sernambi, produção Zeppelin Filmes, criação AlmapBBDO

Nelson Motta e o doc do Joãosinho Trinta… Pras massas!

Super orgulhosa do “A Raça Síntese de Joãosinho Trinta” que, depois de ter feito as platéias do Festival do Rio e da Mostra de São Paulo ovacionarem um Joãosinho emocionadíssimo, foi tema da coluna de Nelson Motta no Jornal da Globo. O bacana é que o Nelson fala com tanto carinho e respeito do Joãosinho que dá realmente muita vontade de ver o filme e, principalmente, muita vontade de aplaudir o maior ícone que o carnaval do Brasil já teve. É bom porque um jornal da Globo, mesmo tarde da noite, atinge uma massa de gente que um documentário, por melhor que seja, dificilmente alcançaria. Me emociono muito cada vez que vejo o doc e fico muito orgulhosa de ter participado de um filme que ajuda um pouquinho a lembrar o Brasil da importância do Joãosinho pra cultura e pro imaginário do nosso país. Ano que vem o Paulo Machline vai rodar o longa ficção, “Trinta”, com Matheus Nachtergaele no papel de Joãosinho. Uau. Sentiu?

veja o video do Jornal da Globo aqui

veja post anterior sobre o doc aqui

Trinta_baixa

“Aos 15 anos” – Crônica da Sexta

Pai, estou de cama, febre, me sinto mal. Não fui à escola, não quero almoçar, nem sei se vou conseguir levantar. Filha, descansa, à tardinha te levo pães de queijo. Revistinhas. Me doía a alma. Luis Paulo, ele chamava. Devia ter uns 30 anos, era lindo como um homem deve ser a uma menina. Me mostrava músicas que me pareciam plenas de significado, intenções ocultas, códigos indecifráveis. Pai, não sei o que é, me dói o corpo, me dói a cabeça. Não, não estou chorando, é que está doendo, estou chorando só um pouquinho, não precisa vir agora. O bar estava lotado, seus olhos não me viam, buscavam alguém que talvez entrasse pela porta. Saí então, quem sabe se eu entrasse de novo. Dormi na casa de uma amiga, pai, estranhei a cama, estou muito cansada, mas não consigo dormir. Havíamos passado a tarde escutando as músicas, na sala, a casa era pequena, dividida com um amigo. Você é uma menina bonita, precisa se descobrir melhor. Pai, às vezes dá umas pontadas, uma dor aguda, assim meio de lado, sabe? Como assim me descobrir. Eu estava pronta. Pai, você lê comigo o texto de história, não vou conseguir sozinha, não posso faltar mais à escola. Se de dia ele não teve coragem, à noite se renderia. Seria este o significado disfarçado nas músicas que escutamos à tarde. Revistinhas novas, pai, pode ser daquelas mais grossas sabe, almanaque. A mulher que entrou devia ter uns 25 anos. Pão de queijo assim, quando está quentinho, parece que ajuda a ficar boa. Tocava no bar a música que ouvimos a tarde toda. Já estou um pouquinho melhor, pai. Plena de significados. Hoje durmo cedo. Intenções. Amanhã vou à escola.

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Lô Politi

Blog pra falar (originalmente) de cinema, tv e publicidade. Mas agora tem também crônicas, viagens e aleatórios...

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