Sonia, Sonia! Soniaaaaa! Que foi, mãe? Tô no banho! Vem ver o que sua madrinha aprontou! Corre! Puxa, minha madrinha! Uau! O que é isso tão dourado? O porta-malas do carro estava aberto e lá dentro uma massa dourada refletia a luz do sol e ofuscava os olhos de quem saía pra rua. Pega você, disse o tio Silvio, meu padrinho, que aparecia de tempos em tempos com uma surpresinha mandada pela minha madrinha… O negócio era enorme, redondo e dourado. Mas é pesado? Será que eu aguento? Ah, não se preocupa, é oco por dentro… Oco por dentro? O que é isso, meu Deus. Comecei a puxar aquela monstruosidade de dentro do carro, não era muito pesado, mas era enorme, redondo e sem alças, difícil de tirar do porta-malas. Minha mãe estava agitadíssima. Acabou se atirando na frente e, não se contendo, puxou pra fora aquela bola de fogo com tamanha ansiedade que tio Silvio foi obrigado a se jogar na frente. É frágil, Cecília, cuidado, não pode cair no chão que quebra. Quebra? Oco por dentro… frágil… dourado… redondo… peraí. Não é exatamente redondo… é oval… nooooossa, parece um ovo de páscoa gigante! Ei… isso É um ovo de páscoa! Gigante! Minha mãe: o que é isso Silvio, a Nina enlouqueceu? Ah, Cecília, você conhece a Nina. Disse que tinha certeza que a menina não tinha ganhado nenhum ovo de páscoa e que tava na hora dela ser recompensada por muitos anos sem ganhar ovo de páscoa da madrinha! Mas Silvio, estamos em julho! Pois é , coisas da Nina…
Minha madrinha Nina é assim. Desaparece por meses, às vezes anos, esquece de aniversário, não tá nem aí pro Natal, que dirá a páscoa! Mas, subitamente, ela se lembra de mim. E lembra que me adora, que me acha assim especial. Lembra que adora ser minha madrinha e que madrinha tem que ter um papel especial na vida da afilhada. Daí ela me manda um dos incríveis presentes que eu ganhei dela ao longo da vida. NUNCA na data certa (pelo menos essa data “certa” das pessoas comuns…), mas sempre um presente diferente, inesquecível, que só eu tinha, que só eu ganhava, e realmente ela conseguia o que tinha planejado: fazer com que eu me sentisse especial, única, privilegiada. Bom, pelo menos em termos de madrinha, não tinha pra ninguém, realmente. Os presentes, então…
Aos oito anos recebi dela um feijão de prata da Tiffany. Pra que serviria o feijão eu não sei, mas veio acompanhado de uma carta tão espirituosa, tão bem escrita, tão amorosa e divertida que eu passei pelo menos 1 mês carregando o feijão pra todo lado e mostrando pros amiguinhos como quem compartilha um tesouro.
Aos onze eu ia pra um acampamento tristíssima porque meus irmãos iam fazer uma viagem com meus pais para a qual eu era muito pequena. Segundos antes de eu partir lá vem meu bravo tio Silvio trazendo nas mãos o que uma menina precisa pra se diferenciar num acampamento para o qual ela não quer ir: uma lanterna profissional enorme e um par de patins americanos. No acampamento, só eu tinha uma lanterna profissional e, principalmente, só eu tinha um par de patins americanos. Brancos, de couro, cano alto, aqueles que a gente ia cruzando o cordão, amarrando até quase o joelho, e com gloriosas rodas vermelhas de poliuretano. Ninguém tinha patins como aqueles no acampamento, acho que nem no Brasil, talvez nem no mundo!
Um dia muito depois do Natal chegou um visualizador de slides, uma espécie de televisãozinha onde você colocava um slide e ele aparecia iluminado, grandão, na tela. Junto, um carretel com 30 slides contando a história mais triste que eu já vi na vida, “A menina dos fósforos”, que até hoje enche meus olhos de lágrimas cada vez que algo me faz lembrar a dor e a tristeza daquela menina solitária na véspera de Natal. Aliás, minha madrinha me escreveu um dia que leu em algum lugar que a história de infância que a gente mais lembra acaba sendo o script da nossa vida… Não foi, não tem sido, no meu caso, mas toda vez que eu quero filmar ou escrever algo que emocione, eu me lembro daqueles slides…
Às quartas-feiras, na casa dela, tinha uma profusão de pastéis de queijo que eu sim podia rechear na mesa com o arroz e feijão do meu prato.
Na véspera de eu viajar sozinha pela primeira vez, pra Nova York, ela me mandou um caderninho, tipo um moleskine, todo escrito a mão, com dicas pessoais, esmiuçadas, detalhadíssimas, da cidade que ela conhece tão bem. Tenho até hoje esse caderninho e li e lerei todas as vezes que eu voltei ou voltar a NY na minha vida.
Pra completar as lembranças, um dia eu iria finalmente à Itália, viagem dos meus sonhos, estudar em Florença. Em casa chegou uma caixa de livros sobre Florença e, pra escala em Roma, um livro de fotos que me seria imprescindível: Os pintos de Roma. Pinto. Pênis. De todos os tipos, cores e tamanhos, que decoram as estátuas e fontes de Roma. Pra eu ir me acostumando com o clima.
Hoje em dia, e desde que sou realmente adulta, nos correspondemos por cartas ou email, com a mesma constância dos presentes da minha infãncia. Sem nenhuma freqüência ou motivo definido, de vez em quando lembramos uma da outra e nos damos conta de quanto nos gostamos e de quanto nos identificamos. E temos em comum o gosto por ler e escrever, o que nos torna cúmplices e confidentes bissextas, conforme vaza o nosso coração, com lembranças de um amor que sempre foi exatamente como é a minha madrinha, distante e intenso.
Nina cozinha e escreve deliciosamente. Hoje percebo que além da minha atividade principal que é dirigir filmes, o que mais gosto de fazer na vida é escrever e cozinhar. Nina vive disso, com uma coluna saborosíssima na Folha de São Paulo onde ela emociona uma multidão de leitores todas as quintas-feiras, e com um buffet que alimenta e alegra as festas de pessoas que sabem comer e viver com qualidade. Eu vivo de fazer filmes, mas na minha rotina as atividades da Nina tem crescido assustadoramente nos últimos anos. Nunca tinha me dado conta, mas seguro que é a vida dela se espalhando na minha. À distância e intensamente.
Crônica da Sexta – Aos 12 anos
Publicado 20/11/2009 r 5. crônica da sexta 9 ComentáriosTags:crônica, Nina Horta
9 Respostas para “Crônica da Sexta – Aos 12 anos”
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- 2 Trackback em 11/04/2010 às 9:39 PM



Nossa Lô,que texto lindo,emocionante…Cheguei a sentir o cheiro dos pastéis,do ovo de pascoa!!!
Senti vontade que esse texto fosse um livro,de tão prazerosa que foi a leitura.
bj,Márcia
Oi Lô,
Sei como diriges filmes preciso te dizer que escreves também maravilhosamente bj Marilia
Deliciosa a cronica…
Muito bom. Tu escreve muito bem, fofa! Bjs
Lindo!
Lô,Lô!!!!Q lembrança deliciosa…Me fez voltar no tempo!!!! Suas palavras voam como uma borboleta, escolhendo onde tem o melhor perfume, levando junto quem quê ir!!
delicioso como os pasteis que hei de comer….bjs