Minha coluna na TV – Multishow – Quinta – 16:45 ; Segunda – 07:30 ; Quarta – 01:30 ; Sexta – 15:15 ; Sábado – 08:00 ; Domingo – 03:30
Veja post anterior sobre o filme aqui.
Minha coluna na TV – Multishow – Quinta – 16:45 ; Segunda – 07:30 ; Quarta – 01:30 ; Sexta – 15:15 ; Sábado – 08:00 ; Domingo – 03:30
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O Reclame fez uma pesquisa entre criativos de qual seria o melhor filme do ano. Deu Cachorro-Peixe. Várias menções a Carousel, da Philips, e T-Mobile Dance, mas a maioria escolheu o filme da Almap pra Space Fox. Quando a pergunta veio pra mim, sinceramente, não tinha dúvida nenhuma. Pra mim Cachorro-Peixe é de longe o melhor filme do ano, se não no mundo, com certeza no Brasil. O ano foi péssimo pro cinema publicitário. Em tempos de crise, o mercado se retrai e os clientes acabam optando por filmes mais funcionais, com medo de arriscar em filmes mais criativos. Uma pena, porque acaba achatando a criatividade e nivelando tudo por baixo. Pudemos ver um reflexo claro disso no festival de Cannes, onde o único leão de ouro foi justamente pra Cachorro-Peixe que, além de criativo, bonito e bem realizado, é também funcional, mostrando carro, espaço interno, beleza, features, tudo que deixa um cliente tranquilo num ano de crise. Pena que ainda não são todos os clientes que entendem que, principalmente em tempos de crise, um bom filme é ainda mais necessário. E ainda mais funcional.
Cachorro-Peixe é um filmaço. Tomara que o ano que vem seja generoso com a gente em filmes bons como esse.
direção Armando Bo, fotografia Cristian Cottet, produção Rebolucion, trilha Hilton Haw, criação AlmapBBDO
Minha coluna do rádio – BandNews FM – segundas – 21:20.
Escute a de 21/12/09 – Sinos – Itaú:
Veja post anterior sobre o filme aqui.
Ontem fiquei presa no trânsito infernal do final da tarde, a cidade alagada, o caos instalado, todo mundo nervoso, irritado, chateado.
Estamos chegando realmente ao limite do insuportável, do insano, do humanamente inviável. As ruas estão emporcalhadas. Os bueiros estão entupidos de sujeira, de lixo. As enchentes do verão já começam na primavera e terminam no outono. O trânsito está mortal, não existe mais horário de pico, todos os horários são de pico e os que eram de pico agora são de morte. Morte por cansaço, por exaustão, por limite. Das janelas dos carros ou do ônibus parados no trânsito a gente vê essa cidade se acabando, se esgotando, se tornando inviável. Quem nunca pensou, parado no trânsito, que um dia a cidade inteira iria parar, que um congestionamento trancaria o outro, que todos ao carros parariam onde estivessem, porque não teriam por onde escapar. Não daria para ir em frente, nem dar marcha à ré, nem virar à esquerda, nem à direita. Estaríamos presos.
E o que é ainda pior, estaríamos presos em uma rua ou avenida como, por exemplo, a Santo Amaro, a Teodoro Sampaio, a Francisco Morato… a gente é obrigado a viver numa cidade tão feia, tão mal cuidada…
Somos uma cidade que já não acredita mais em melhoria. Para nós, paulistanos, progresso significa piora de qualidade de vida. O tempo pra gente é inexoravelmente cruel. A cada ano a cidade piora. Pioram o trânsito, os transportes, a moradia. A pobreza. A miséria. A gente sempre sabe que no ano que vem será pior, como uma diabólica e trágica sina da qual a gente não tem escapatória. E o pior é que a cidade se encarrega de nos demonstrar a cada instante que essa sentença é verdadeira. Quando a gente está preso no trânsito e sabe que amanhã vai ser pior. Quando uma favela surge de repente num lugar inesperado e a gente sabe que amanhã o provisório será definitivo e outra moradia provisória surgirá em outro lugar inesperado. Quando a gente vê uma pessoa viver de forma tão precária que a gente acha que dali não passa, que piorar não pode. Mas pode, sempre pode.
Sempre me espanta andar pelo mundo e ver que algumas cidades podem crescer e melhorar com o crescimento. Ou, pelo menos, não necessariamente piorar. Eu, acostumada com São Paulo, não consigo achar que isso seja possível. Assim me dou conta do estrago que todos esses anos de péssima administração, de corrupção avassaladora, de descaso, de ineficiência, fizeram em nossa auto-estima. Chegou num ponto em que a gente nem imagina mais como é viver bem, como é possível alguém gostar de morar em sua cidade, como pode o crescimento não destruir nossa paz.
Bom, desculpem o desabafo justo na véspera de Natal, quando deveríamos estar embuídos de um sentimento mais fofo do que esse que apresento aqui. Mas, por incrível que pareça, eu, apesar de tudo que disse agora, adoro final de ano, adoro o clima que se instala na cidade, adoro o frisson de véspera de festas, presentes, férias. Gosto até de festa de firma, amigo secreto, a loucurama dos eventos, as declarações de amor esquecidas durante o ano que nos apressamos em fazer antes que o ano acabe, como se não soubéssemos que ele recomeça daqui a pouco. Sou do tipo que acredita na mágica da virada de ano, que acha que dormimos exaustos e estressados no dia 31 de dezembro e acordamos decansados e renovados no dia 1 de janeiro. Por isso tudo é que me revolto mais ainda com o estado que as coisas chegaram em São Paulo, que salta aos nossos olhos em dezembro, que está cada ano pior. Porque esse pensamento quase que estraga a festa, quase que tira a graça das coisas. Quase. Mas ainda resistimos. Estamos pelas tampas, mas resistimos. Dia primeiro passa tudo.
O piloto do 3%, projeto finalista do FIC-TV, desenvolvido pelo Coletivo Manada e produzido pela Maria Bonita, está pronto. Já falei sobre esse projeto em posts anteriores: aqui e aqui.
Ontem foi apresentado pra toda a equipe e colaboradores. Difícil descrever o fascínio e o orgulho estampado no rosto de cada um. Algumas coisas me dão bastante orgulho na história da Maria Bonita. Mas o projeto Cromossomos, cujos integrantes evoluíram, se emanciparam e formaram o Manada, que agora diz a que veio com o 3%, resume o espírito com que a produtora foi criada e desenvolvida. Apostar em novos talentos é o que todo mundo sabe que deve fazer, torcendo pra que logo o investimento possa dar retorno, além de renovar a imagem de uma produtora. Mas dificilmente se “arrisca” algo além de um salário de estagiário, esperando que um dia o potencial novo talento se revele um gênio e salte de dentro dele algo incrível e inovador. Isso até poderia acontecer, claro, se ao menos desse tempo… já que o que se dá realmente de oportunidade pra ele é, por exemplo, passar o dia fazendo back-up… Dar ferramentas e criar ambiente fértil em torno desses talentos iminentes é muito mais raro do que gostaríamos. Não deveria ser. Algumas produtoras, bem poucas, acreditam e investem realmente nisso. E, garanto, o retorno pode ser muito gratificante. Mas o investimento tem que ser inteligente e não exatamente econômico, pra que o talento que ainda não é óbvio realmente brote. Precisa ter olho pra identificar as potencialidades, tempo pra que essas sementes e se organizem e cresçam, estrutura pra que os galhos não se quebrem no caminho muitas vezes tortuoso, ferramentas pra que os frutos brotem saudáveis e bonitos e, principalmente, espaço pra que tudo isso floresça. Espaço interno, principalmente, dentro da gente, pra reconhecer e potencializar o talento dos outros. Desfrutar de um ambiente fértil e livre é benéfico e necessário pra todo mundo, pra que o talento dos outros aflore e isso renove também o nosso. Talvez assim a gente sinta que tem algo de bom pra contribuir com esse mundo.
(o outro projeto do Manada, o Nave Sub-D, finalista do AnimaTV e desenvolvido paralela e simultaneamente ao 3%, também está com seu piloto quase pronto. Falo dele no num próximo post…)

Manada Completo
Difícil que apareça um filme de Natal com uma idéia nova, ou uma realização surpreendente. Estou há dias procurando um filme de Natal pra comentar, que aponte algum diferencial. Estava já me contentando com o filme do Boticário, dirigido pelo Heitor Dhalia, que não tem nada de novo, mas tem uma realização impecável, um filme fofo, lindo e emocional, como deve ser um bom filme de Natal. Mas eis que surge um filme que, embora não seja exatamente inovador, ajuda a espantar a repetição e o tédio natalino ao evitar as luzinhas de Natal, o sorriso emocional da criança, o presentinho que brilha… isso sem falar no indefectível Papai Noel. Mas o grande mérito mesmo é usar um símbolo tão natalino como o sino em um contexto universal e atemporal, que nos remete ao espírito natalino sem necessariamente mostrar as tão batidas e combalidas cenas de Natal. A gente termina de ver o filme embuídos da mensagem de paz e alegria, sem ter visto uma única luzinha, um único floco de neve, um único sorriso falso, um único Papai Noel. E pra garantir a qualidade narrativa e a riquesa visual, o filme ainda carrega a assinatura do Fernando Meirelles. E, podem dizer o que quiserem, mas encaremos a verdade: o bicho é bom. Onde ele põe a mão, sai um filme bom. Ponto final.
direção Fernando Meirelles e Paulinho Caruso, fotografia Adriano Goldman, montagem, Raimo Benedetti, trilha Voicez, produção O2 Filmes, criação DPZ
1 – Corrupção
A gente sabe que um dinheirinho consegue liberar uma multa ou furar uma fila. Dar um jeitinho. Coisa pequena. Se o dinheirinho começa a ficar grande, vira milhões, envolve um político ou um juiz, aí a gente começa a chamar de corrupção. Qual será o limite entre jeitinho e corrupção? A gente conviveu tanto tempo com esse mar de lama que já nem sabe mais o que é certo e o que é errado, o que pode e o que não pode. A gente acaba achando que o jeitinho é normal. Não é.
2 – Desrespeito
Às vezes a gente quer pagar uma conta atrasada e pega uma fila enorme. Fica horas em pé e ainda é mal tratado pelos funcionários. Isso porque a gente quer pagar, imagina quando quer pedir alguma coisa… Outras vezes a gente quer trocar um produto que veio quebrado… A gente pagou, fez tudo certinho, a loja que estava errada e ainda trata a gente mal. Sem saber direito com quem reclamar, a gente acaba deixando pra lá, como se isso fosse assim mesmo. Não é.
3 – Descaso
Se aparece um buraco no meio da rua, a gente desvia. Cresce o mato na praça que a gente frequenta, a gente volta pra casa. O lixo toma a calçada que a gente passa todos os dias, a gente se arrisca pela rua. Passa um tempo e o que era provisório passa a ser definitivo, o que era exceção passa a ser regra. E a gente nem percebe. Quando a gente se dá conta já está vivendo no meio da bagunça e da sujeira, como se isso fosse normal. Não é.
4 – Indignidade
Um dia aparece uma casinha assim, no meio do nada, embaixo da ponte, na calçada. De repente aquilo vira uma favela enorme e a gente nem percebeu como ela foi crescendo. O mesmo aconteceu no prédio que virou cortiço, na praça que virou dormitório, na marquise que virou abrigo. Na hora a gente sente pena, sente medo, sente raiva. Depois chega em casa, se tranca e esquece o assunto. A gente acaba achando normal que as pessoas possam viver de forma tão precária. Não é.
5 – Sujeira
Às vezes a gente vê um monte de lixo acumulado em algum lugar e joga o nosso lixo em cima do que já está lá. Pode até ser no meio da rua, num córrego, num terreno baldio. A gente sabe que ali não era pra ser lixo, mas como já tem um monte, a gente acha que tudo bem jogar mais um pouquinho. Afinal, é melhor do que jogar onde ainda tá limpo, pelo menos a gente não tá sujando ainda mais a cidade. É como se lixo chamasse lixo. Como todo mundo faz isso, parece normal. Mas não é.
6 – Abandono
Claro que a gente sabe que a criança não nasce ruim, que se ela fica ruim é porque tá tudo errado, desde o começo. É o pai que tá desempregado, é a educação que é péssima, a saúde precária, os traficantes em cima, a polícia que não dá conta, enfim, tudo parece que conspira pra levar a criança pra delinquência. Mas quando a gente vê uma criança cometendo um crime, dá tanta raiva que a gente não quer nem saber como as coisas chegaram até aí, a gente só quer que ela pague por isso. Parece que a criança já nasceu assim e pronto, como se isso fosse natural. Não é.
7 – Humilhação
O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. Isso faz pouco mais de 100 anos. Pode parecer muito, mas historicamente não é nada. Ainda ontem os negros eram escravos. Todo mundo se emociona com os filmes, as novelas, os livros que contam essa história. Mas pouca gente se dá conta de que, hoje em dia, ainda tem muita gente que discrimina o preto, o pobre, o feio, o esquisito, o diferente… Muitas vezes a gente vê isso acontecer e não fala nada. E às vezes nem imagina que isso possa ser crime. Mas é.
8 – Violência
O vizinho bate no filho, o amigo bate na mulher. Às vezes até um parente nosso se envolve numa briga boba que termina mal… É difícil lidar com isso, a gente tem medo de denunciar, acaba não falando nada, não fazendo nada. Às vezes a gente até sente alívio porque dessa vez não foi tão grave, comparada com as outras… A gente acha menos grave porque é tão absurdo e violento o que se vê por aí que acaba achando quase normal uma pessoa bater em outra. Não é.
9 – Constrangimento
Sabe aquele cara que acha que pode mexer com a mulherada no ônibus? Ou o universitário que dá trote, a torcida organizada que faz barbaridades, o policial que abusa da autoridade, o filhinho de papai que queima o mendigo… Às vezes só quando alguém morre numa situação dessas é que a gente se dá conta do absurdo que é as pessoas agirem assim, como se fossem melhores que os outros… Parecem até donos do mundo. Mas não são.
10 – Intolerância
Tem gente que gosta de viver de uma maneira que a gente acha errada. Tem gente que acredita piamente em coisas que a gente acha um absurdo. Toda hora a gente tem que conviver com o que a gente não concorda. Difícil é a gente se dar conta de que o outro lado também sente a mesma coisa, também não concorda com a gente, também tem que fazer esforço pra entender e conviver com a gente. Também não deve ser fácil. O que não dá pra entender é a pessoa que parte pra ignorância, como se o seu modo de vida fosse o único certo. Não é.
Tênue a linha que divide a inspiração da referência ou da cópia. A publicidade vive de referências. Além do quê, o publicitário é auto-referente, se alimenta principalmente de publicidade – sites, revistas, anuários, festivais, prêmios, a maior fonte de inspiração dos publicitários, infelizmente, é a própria publicidade. Incluo na categoria, além dos criativos, os diretores, fotógrafos, designers, enfim, todo mundo que pensa criativamente dentro da publicidade. Daí que a possibilidade de se “criar” algo em cima de uma referência que ele viu é enorme, mesmo que eventualmente ele mesmo não se dê conta. Nosso cérebro guarda e processa informações que um dia voltam ao mundo de algum jeito. Às vezes em forma de uma lembrança, realmente. Outras, levemente modificadas, como um pensamento inédito, uma idéia. Mas muitas vezes não são. Difícil julgar a idoneidade de alguém que apresenta uma idéia muito parecida com outra, se foi coincidência, se foi uma fatalidade ou se foi mau-caratismo mesmo…
O fato é que a semelhança de uma peça com outra pode se dar por 3 vias: Inspiração, referência ou cópia.
A inspiração é altamente saudável. Vemos algo que nos fascina, não necessariamente da nossa área de atuação, e nos deixamos influenciar por aquela experiência. Pode ser um filme, um quadro, uma música, um dia bonito, um sorriso.
Aquilo acaba fazendo parte da nossa formação, da nossa constituição, diz algo de quem somos, da razão pela qual estamos nesse mundo. E, como faz parte da gente, faz parte do que em nós cria o que criamos. Inspiração.
A refererência é parte da dor e delícia de viver num mundo globalizado. Temos acesso a tudo. Tudo! Sempre existe algo que se assemelha ao que queremos mostrar ou dizer. E a publicidade se apropriou desse expediente de forma irreversível. Como todo o processo envolve muito dinheiro, não se pode errar. A combinação entre as partes (principalmente com os clientes) do que vai ser feito tem que ser muito precisa, pra que não se arrisque o investimento. Como ilustrar e exemplificar o que vai ser feito de forma precisa se ainda não fizemos o trabalho? Ora, usando o trabalho dos outros. Assim simples. Vamos ao cliente com um monte de referências, usando o trabalho dos outros pra tentar fazer com que ele entenda o que nós queremos fazer. Pronto, está sacramentada a contaminação. Todos ali se alimentam daquilo. Por mais que se tente, não conseguimos mais nos descontaminar. Nem no trabalho que estamos fazendo naquele momento, nem nos posteriores. Vemos tanto aquela referência, falamos tanto sobre ela, discutimos tanto, que pra sempre ela fica impregnada na nossa mente. E, se está impregnada, acaba vazando no nosso trabalho. Mesmo sem que a gente queira, mesmo quando não nos damos conta.
A cópia se dá em várias situações, inclusive nessa citada acima, a apresentação de referências. Às vezes o cliente pede que façamos exatamente como a referência, pois ele já viu e já gostou daquilo, não quer arriscar que se mude o que ele já aprovou. Mesmo sendo uma peça que já existe, e que não é dele. Cria-se uma saia justa difícil de se resolver. E muitas vezes resolve-se pela cópia, mesmo, ainda que tente se dar o nome de referência. Não é. É cópia. E, pior, às vezes nem é o cliente que pede, é o realizador ou o criador mesmo que não consegue usar a referência pelo seu lado bom, a inspiração, e só consegue usá-la pelo seu lado ruim, a cópia.
Precisamos ampliar nossas referências, pra que elas sirvam como inspirações. Sair do universo em que atuamos e buscar alimento em universos mais amplos. Quanto mais aberta nossa mente ao novo, ao diferente, ao diverso, mais ela se amplia e mais espaço haverá para que as informações se processem e, ao se trasformarem dentro da nossa mente, consigam voltar ao mundo em forma de algo que seja de fato nosso, com a nossa marca, com a nossa mão, com a nossa alma.
Minha coluna na TV – Multishow – Quinta – 16:45 ; Segunda – 07:30 ; Quarta – 01:30 ; Sexta – 15:15 ; Sábado – 08:00 ; Domingo – 03:30
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Li essa semana um delicioso post no blog do Ricardo Freire, onde ele ressucitou um texto antigo sobre o Rio para gringos. Lembrei que uma vez também escrevi para gringos sobre uma cidade brasileira, pra uma revista mexicana de turismo diferenciado. Era sobre Salvador no verão, especialmente no carnaval. A revista convocou não-jornalistas estrangeiros para falar do lugar em seu país que mais gosta de ir em férias. Escolhi Salvador. Procurei o texto e achei ele bem atual. Voilá:
SALVADOR DA BAHIA
Quem conhece o Brasil, sabe que estar na Bahia é diferente. O Brasil tem milhares de lugares lindos, mas a Bahia parece mais. O Brasil é todo muito musical, mas a Bahia é ainda mais. O carnaval é uma explosão de alegria em todos os cantos do Brasil. Na Bahia, é mais. O brasileiro em geral é muito acolhedor, muito simpático, muito receptivo. Mas o baiano é especial. Estar na Bahia é diferente. O tempo é mais calmo, o vento é mais fresco, os olhares são mais penetrantes, os sabores são mais intensos, os sorrisos são mais fortes. O baiano se esparrama, se espalha, se sobra. A Bahia é generosa. O baiano retribui. Nenhum estado do Brasil e talvez nenhum lugar do mundo produz tantos artistas empenhados em reverenciar sua terra. Na música, na literatura, na pintura, na fotografia, no cinema. O baiano se retrata, se cultua, se cultiva. O baiano se adora. E contagia o resto do mundo. Nós, não-baianos, temos orgulho do orgulho que o baiano tem de si.
Os prazeres do verão
A temperatura em Salvador, mesmo no mais rigoroso inverno, nunca desce abaixo do ameno. Mas quando o verão começa a se aproximar a temperatura externa aos corpos começa a atingir níveis perigosos. Então acontece a mágica – a temperatura interna explode, a cidade inteira começa a entrar numa espécie de transe coletivo que só vai arrefecer lá para março, quando o calor começa a querer voltar para perto daquele ameno que na verdade ainda é quente, muito quente. Pode-se dizer que Salvador é quente o ano todo. Em todos os sentidos. Mas é no verão que qualquer amarra que ainda poderia existir some num piscar de olhos. É impossível não se entregar à festa, à alegria e à sensualidade de Salvador no verão. Não se assuste se aquele seu amigo mais calmo, mais tranquilo, mais tímido, de repente entre num estado de excitação nunca antes experimentado. Acontece em Salvador. Quando nos damos conta já fomos atingidos, já estamos contaminados, já somos alegres, felizes e, sobretudo, dispostos. É uma alegria descobrir que sim, nossa energia é suficiente para acompanhar tamanha festa.
Saber onde ir também não é problema. A rede de informações que se forma em Salvador no verão é muito eficiente. Não apenas governo e prefeitura se esforçam ao máximo para que todo mundo encontre seu programa, sua turma, sua tribo, mas também o boca a boca corre solto: quando a festa está terminando aqui, já está começando ali – e todo mundo sabe, todo mundo vai, todo mundo cabe. Esta é uma das características mais simpáticas de Salvador, a capacidade que a cidade tem de nos absorver. É muito comum ver alguém sair do hotel de manhã para dar uma voltinha rápida antes do almoço e só voltar na manhã do dia seguinte. Em Salvador uma coisa puxa a outra, uma festa se encaixa na outra, um programa é continuação de outro. E o melhor de tudo é deixar-se levar. Afinal, estamos em férias. É muito bom entregar-se a Salvador e sentir que a cidade sempre responde, sempre acolhe.
Os prazeres da música
Sempre tem um tambor batendo em Salvador, inclusive quando a gente quer dormir. Mas isso não é problema, porque uma das primeiras e principais decisões que se dever tomar em Salvador é justamente a de dormir quando der. Faz barulho em Salvador no verão. É uma enorme profusão de ritmos, de vozes, de cantos. No carnaval todos os sons se misturam, quase não dá para ver de onde vem cada um. Mas se você prestar atenção vai descobrir que os sons são diferentes. Tem o axé-music, que é o que toca na maioria dos trio elétricos do carnaval. Tem os tambores dos blocos afro, que batem tão forte que parece que ressoam dentro de nós. Impossível permanecer parado. Tem o samba de roda, que é bem baiano, dançado principalmente nos terreiros de candomblé em homenagem aos orixás. É lindo de ver, gostoso de participar, agradável de se escutar. Tem um sem-número de shows de cantores populares brasileiros pelos quatro cantos da cidade. Tem de tudo. Na Bahia tem música para todo lado, o tempo todo.
Os prazeres do olhar
A vista mais linda é quando você desce a Avenida do Contorno em direção à Cidade Baixa e de repente… uau… aquela visão da Bahia de Todos os Santos, da Cidade Baixa, o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo, as marinas, a ilha de Itaparica, tudo assim tão arrumadinho no seu campo de visão que parece que alguém passou antes para colocar tudo no lugar. Dá vontade de descer do carro e ficar ali admirando a generosidade com que aquele pedaço do mundo foi concebido e com que delicadeza os homens se aproveitaram do bom humor do criador. É de onde melhor se percebe que Salvador é uma cidade de dois andares, a Cidade Alta e a Cidade Baixa.
Na Cidade Alta está o centro histórico, o Pelourinho, bairro colonial recuperado que foi declarado pela UNESCO patrimônio histórico e artístico da humanidade e é muito charmoso, muito agradável, além de concentrar toda a sorte de bares, restaurantes, lojas de artesanato, apresentações de dança, capoeira, música, etc. O Pelourinho ficou tão perfeito com a recuperação que às vezes parece de mentira. Dessa nova ordem foram expulsos todos os ex-moradores do local, que concentrava pobres, prostitutas e bêbados em seus casarões históricos transformados em cortiços. Dizem que algo de seu charme se perdeu. Pode ser. Mas outros de seus charmes tomaram conta desse que hoje é o maior cartão postal da Bahia. É realmente um presente para os olhos ter acesso ao Pelourinho recuperado. Mas se sua curiosidade pedir, dê uma passeada pela parte não restaurada do Pelourinho. É preciso um pouco de cuidado e atenção, mas é onde está a outra Bahia, aquela que desde sempre é responsável por alimentar o imaginário popular e a mente de escritores, músicos, pintores e tantos artistas que fazem com que a Bahia tenha a fama que tem pelo mundo. A mistura de magia, sensualidade e calor tropical sustenta e dá fundamento a essa fama.
Na Cidade Baixa e na orca tem o Farol da Barra, a ponta de Mont Serrat, os Fortes, as igrejas do Bonfim e de São Francisco, o Rio Vermelho, o Solar do Unhão, o Mercado Modelo, as praias de mar aberto, o Elevador Lacerda. Tudo é muito bonito e vale, no mínimo, uma passada. Mas melhor mesmo é escolher o lugar que você mais gostou, dispensar o táxi e começar dali sua jornada pessoal, entrando no ritmo da cidade que acaba sempre levando você aos lugares que sempre quis ir, embora talvez ainda não tivesse se dado conta.
Os prazeres do mar
Se o assunto é mar, você já deve ter ouvido falar do mar da Bahia. Cantado em inúmeras músicas, personagem de muitos livros, o mar da Bahia tem uma mística que corre o mundo. É fácil tirar a prova. Vá ao bairro do Rio Vermelho e pare em frente ao largo de Santana. Sente em frente à praia de onde saem os pescadores que se concentram ali. Sinta a maresia, observe o movimento dos barcos e das ondas quebrando nas pedras. Sinta, cheire, escute, veja. Entenda a Bahia a partir de seu mar.
(Se este programa lhe parecer demasiado melancólico para quem está em pleno carnaval, atravesse a rua, busque uma mesinha no largo e observe o mar enquanto desfruta dos prazeres do acarajé e da cerveja gelada que é programa obrigatório, animadíssimo e ainda por cima tem vista para justamente este pedaço do mar).
Outro programa delicioso é bom como puro prazer ou como cura-ressaca depois de pular o carnaval. A praia do Porto da Barra propicia um excelente banho noturno, com águas calmas, mornas e limpas. A praia é iluminada e segura, e o banho de mar é realmente um agrado para o corpo e um carinho para a alma. É a melhor pedida entre a farra e a cama.
Os prazeres mundanos e profanos – o Carnaval
No Brasil o carnaval vai de sábado à terça feira, dura oficialmente 4 dias. Em Salvador começa na quinta feira, portanto oficialmente de lá tem duração de 6 dias. Oficialmente. Mas em Salvador nada é assim tão oficial. Uns acham que o carnaval começa já em dezembro, junto com o verão. Outros, mais conservadores, acham que o carnaval começa no sábado anterior à quinta feira do começo oficial. Mas a briga boa mesmo é determinar quando termina o carnaval. Sabe-se que na quarta feira de cinzas já deveria ter terminado tudo. A igreja pede que os foliões se recolham, se acalmem e comecem a se dedicar à quaresma. Nada mais de carnaval. Chega de folia. Mas quarta feira que horas? Cada ano estica-se um pouquinho mais o final do carnaval. Os foliões parecem criança em dia de Natal que às vezes não quer dormir para ver se a alegria dura mais, dura para sempre. Em Salvador a noite de terça feira não termina nunca. A quarta feira amanhece, as pessoas fingem que não percebem e continuam pulando. Anos atrás a farra terminava lá pelas 8 horas da manhã, depois começou a ir até às 10, depois meio dia. Hoje em dia ninguém vai para casa antes das 2 da tarde. O bispo reclama, os padres ficam bravos, todo ano a mesma coisa. Mas o pessoal continua achando que se ainda não dormiu é porque ainda não é amanhã. E se ainda não é quarta feira de cinzas, então ainda não acabou o carnaval. E se não acabou, não é pecado.