Ontem fiquei presa no trânsito infernal do final da tarde, a cidade alagada, o caos instalado, todo mundo nervoso, irritado, chateado.
Estamos chegando realmente ao limite do insuportável, do insano, do humanamente inviável. As ruas estão emporcalhadas. Os bueiros estão entupidos de sujeira, de lixo. As enchentes do verão já começam na primavera e terminam no outono. O trânsito está mortal, não existe mais horário de pico, todos os horários são de pico e os que eram de pico agora são de morte. Morte por cansaço, por exaustão, por limite. Das janelas dos carros ou do ônibus parados no trânsito a gente vê essa cidade se acabando, se esgotando, se tornando inviável. Quem nunca pensou, parado no trânsito, que um dia a cidade inteira iria parar, que um congestionamento trancaria o outro, que todos ao carros parariam onde estivessem, porque não teriam por onde escapar. Não daria para ir em frente, nem dar marcha à ré, nem virar à esquerda, nem à direita. Estaríamos presos.
E o que é ainda pior, estaríamos presos em uma rua ou avenida como, por exemplo, a Santo Amaro, a Teodoro Sampaio, a Francisco Morato… a gente é obrigado a viver numa cidade tão feia, tão mal cuidada…
Somos uma cidade que já não acredita mais em melhoria. Para nós, paulistanos, progresso significa piora de qualidade de vida. O tempo pra gente é inexoravelmente cruel. A cada ano a cidade piora. Pioram o trânsito, os transportes, a moradia. A pobreza. A miséria. A gente sempre sabe que no ano que vem será pior, como uma diabólica e trágica sina da qual a gente não tem escapatória. E o pior é que a cidade se encarrega de nos demonstrar a cada instante que essa sentença é verdadeira. Quando a gente está preso no trânsito e sabe que amanhã vai ser pior. Quando uma favela surge de repente num lugar inesperado e a gente sabe que amanhã o provisório será definitivo e outra moradia provisória surgirá em outro lugar inesperado. Quando a gente vê uma pessoa viver de forma tão precária que a gente acha que dali não passa, que piorar não pode. Mas pode, sempre pode.
Sempre me espanta andar pelo mundo e ver que algumas cidades podem crescer e melhorar com o crescimento. Ou, pelo menos, não necessariamente piorar. Eu, acostumada com São Paulo, não consigo achar que isso seja possível. Assim me dou conta do estrago que todos esses anos de péssima administração, de corrupção avassaladora, de descaso, de ineficiência, fizeram em nossa auto-estima. Chegou num ponto em que a gente nem imagina mais como é viver bem, como é possível alguém gostar de morar em sua cidade, como pode o crescimento não destruir nossa paz.
Bom, desculpem o desabafo justo na véspera de Natal, quando deveríamos estar embuídos de um sentimento mais fofo do que esse que apresento aqui. Mas, por incrível que pareça, eu, apesar de tudo que disse agora, adoro final de ano, adoro o clima que se instala na cidade, adoro o frisson de véspera de festas, presentes, férias. Gosto até de festa de firma, amigo secreto, a loucurama dos eventos, as declarações de amor esquecidas durante o ano que nos apressamos em fazer antes que o ano acabe, como se não soubéssemos que ele recomeça daqui a pouco. Sou do tipo que acredita na mágica da virada de ano, que acha que dormimos exaustos e estressados no dia 31 de dezembro e acordamos decansados e renovados no dia 1 de janeiro. Por isso tudo é que me revolto mais ainda com o estado que as coisas chegaram em São Paulo, que salta aos nossos olhos em dezembro, que está cada ano pior. Porque esse pensamento quase que estraga a festa, quase que tira a graça das coisas. Quase. Mas ainda resistimos. Estamos pelas tampas, mas resistimos. Dia primeiro passa tudo.

