Arquivo de janeiro \22\UTC 2010

Crônica da Sexta – Marrocos, parte 2 – o tapete, o berbere e a otária

Quanto vale esse tapete?

Tudo no Marrocos é bem barato. Menos o meu tapete. Participei de uma negociação ferrenha, desumana, da qual saí exausta, como se tivesse negociado minha própria alma para salvar a vida da minha mãe, por exemplo. Ou quem sabe mesmo a vida do Brad Pitt, figura que não me saiu da memória desde que cruzei as ruelas da vilazinha onde filmaram Babel, no meio do deserto. Enfim, voltando, mamãe e Brad passam bem, mas eu realmente quase desfaleci na frente do cidadão berbere que tentava me vender o tapete mais lindo que meus olhos já viram. Numa cidadela escondida pela poeira do deserto, no meio do mais completo nada, numa casa sem placas, com segurança na entrada, onde te servem até almoço – já contando com a fortuna que a pessoa, despreparada e deslumbrada, deixará nas mãos negras do árabe mais sedutor que eu já conheci. Testemunhas relatam que eu fui brava, firme, sóbria. Eu mesma me senti uma escolhida de Alá para cuidar pra sempre daquela peça de rara beleza que o mundo árabe me oferecia. No auge da negociação o sujeito manda todo mundo sair, fecha a porta, tranca, e me encara. Let’s talk seriously. Uau. Caneta e papel na mão. Como deve ser. Como deve ter sido nos velhos tempos, em todos os tempos, seja no deserto, nas Arábias, em Constantinopla, nas ruas de Nova York, na feirinha da Liberdade, ou onde quer que seja que os bravos vem negociando nos últimos milênios. Desistir é para os fracos. Não para mim e o imenso negro árabe que se avolumava na minha frente a cada lance do lápis desapontado sobre o papel de pão. E eu negociei. E argumentei. E barganhei. E suei. E me descabelei. E quase chorei. Mas comprei. Por 40% do preço inicial. Sorrimos um para o outro, eu e aquele inacreditável Morgan Freeman do deserto. Eu, cúmplice, inspirada, arrematei: Me ensine a enrolar esse pano na minha cabeça que eu lhe respeitarei pelo resto dos meus dias. Ça serait un grand plaisir, madame. Agora somos irmãos.

Dias depois, em Marrakesh, entro na mais cara loja de tapetes que encontro. Na mesmíssima mis-en-scene (fecha a porta, tranca, “let’s talk seriously”, pega o lápis e o papel de pão e negocia) um tapete quase exatamente igual ao que eu comprei já começou a ser negociado pela metade do preço. A metade dos 40%, o preço a que eu cheguei depois de viver uma vida de lágrimas, suor e sangue dentro daquela “casas fortaleza” árabe com aquela Whoopi Goldberg subsaariana. Devia estar com um olhar tão triste ao me despedir do vendedor que ele nem tentou levar aquela negociação em frente.
Ao chegar em casa e abrir o tapete, percebo um emboladinho numa das pontas. Tipo um nó de lã embaraçada. Tento arrumar. O nó se desfaz. A lã também. E assim vai se desfazendo cada um dos pontos daquele tapete, pontos dados pelos ancestrais daquele Luiz Melodia de turbante, que me enganou no meio do deserto, mesmo sobre a alma de minha mãe e de Brad Pitt. E ainda dividimos o mesmo pano enrolado sobre nossa cabeças. Ali, sobre o tapete em decomposição, finalmente sentei e quase chorei. Quase, porque chorar é para os fracos.

Eu, me deixando seduzir por pouco, muito pouco:

Semana que vem: Marrocos, parte 3 – a última.

Leia também “Marrocos, parte 1 – gatos, camelos, mobiletes, dib dib rek aha…” aqui.

Filme da Semana – Balões – Neosaldina

Entre a bizarrice reinante no mundo dos comerciais de remédio, principalmente os de dor de cabeça, os filmes de Neosaldina voam solo na criação e, consequentemente, na realização. Adoro o filme anterior, todo feito em fast-motion e câmera subjetiva, que mostra um dia estressante na vida de uma mulher e termina na deliciosa gargalhada de um bebê. O filme, dirigido brilhantemente pelo Marcello Lima, meu colega na Zeppelin, tem uma linguagem bastante diferenciada e, nesse caso, a realização acaba sendo o diferencial inclusive da criação e do roteiro, que se utiliza muito propriamente da técnica pra passar o conceito de stress.
Agora, no filme novo, a realização não é exatamente inovadora, mas a idéia é bem boa e está tão bem realizada que, de novo, parece um oásis nesse mundo muito louco da propaganda de remédios. A dupla Nando Cohen e Mateus de Paula Santos, da Vetor Zero/Lobo, vem acertando a mão nos filmes que misturam live action e computação gráfica. Muito bom pra produtora, que é especializada em computação e pós-produção, fazer um filme assim – humano, emocional, poético.
Atenção para a trilha, que é muito boa, apesar de cair numa certa tendência dos últimos tempos de trilha pop com letra em inglês ( já falei disso aqui, comentando o filme “Fábrica” de Ford Focus ), o que faz com que o filme possa ser confundido com vários outros que estão ou estiveram recentemente no ar. Mas, olhando pra esse filme isoladamente, a trilha é perfeita. Emocional, poética, delicada. E mesmo quem não entende a letra se sente transportado praquele universo aonde o filme quer nos levar: o mundo sem problemas, sem stress, sem dor de cabeça.

Vou postar esse, Balões, e também o anterior, pra quem não se lembra.

direção Nando Cohen e Mateus de Paula Santos, fotografia Lito Mendes da Rocha, trilha Hilton Raw, Produção Vetor Zero/Lobo, criação Santa Clara Nitro

direção Marcello Lima, fotografia Alemão Franscisco, trilha Sax So Funny, produção Zeppelin, criação Santa Clara Nitro

Filme da Semana no Rádio – Destino – Axe

Minha coluna do rádio – BandNews FM – segundas – 21:20.

Escute a de 18/01/10 – Destino – Axe:


Crônica da Sexta – Marrocos, parte 1 – gatos, camelos, mobiletes, dib dib rek aha…

Dois dias até o deserto, saindo de Marrakesh. 4×4 alugado com motorista. Esquemão. Carro confortável, Youssef, o motorista, um gentleman. A cada 5 músicas, colocava a sua preferida: Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha – Ismaël Lô (um primo distante?) na caixa, música ótima – bom, pelo menos nas 15 primeiras vezes… Paisagem desertificada já no primeiro metro de estrada. Imediatamente entramos no Alto Atlas, deslumbrante, friozinho, pôr-do-sol. Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha. Delícia. Pernoite no caminho deslumbrante, oásis, vales verdinhos, palmeirais. Finalmente, o deserto. Ao longe, as dunas. Sol batendo deitado na areia, contra um céu azulzinho, uma cor indescritível. Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha.

Com Youssef a caminho do deserto

De repente, uma criança na beira da estrada se joga na pista com um animalzinho na mão. Que isso??? Um tigrinho? Um leãozinho? Um gatinho orelhudo? Sim, um gatinho orelhudo, o lemouche, gato selvagem do deserto. E o que ele quer? Vender! O que, o gatinho? Não, a olhada no gatinho? Hã? Você olha o gatinho e paga o menino. Ah…Dibi dibi rek aha…

Camelo, final da tarde, lua cheia nascendo nas dunas. Duas horas de camelada deserto adentro, chegamos nas prometidas “tendas berberes”, onde passaríamos a noite comendo, bebendo e ouvindo música do deserto… Hum… cara de roubada… bom, na chuva pra se queimar! A luz de velas não deixa que nos atenhamos aos detalhes, mas peraí, quantas cordas tem no violão do berbere cantor? Hã? Duas? E esse tapetes árabes, não estão meio parecendo colchão de espuma de vítimas de enchente? Bom, deixa eu usar a lanterninha do iphone pra ver a tenda-dormitório… ali, né? Ah… CCCCHHHHRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!! Nossa! Que isso??? Puxa você assustou os gatinhos! Dispersou o ninho que estava bem em cima do colchão de vítimas de desabamento que você ia dormir! Ah, puxa, que pena. Alguém topa voltar de camelo agora, super legal, duas da manhã, lua cheia no deserto…?

a cilada… descubra o gatinho restante…

Depois do Deserto, Essaouira. Linda medina sobre um mar selvagem, paisagem deslumbrante, sardinha recém-pescada grelhada no porto, um clima mediterrâneo no meio do atlântico, euro-árabe, um lugar especialérrimo. Riad de charme (Les Terráces de Essaouira, delicioso), café da manhã no terraço sobre a medina e o mar, uma coisa de louco. Quase se esquece que está no Marrocos, um país árabe (e pobre), onde todo mundo quer negociar tudo o tempo todo. Tudo tem um preço e tudo é negociável. Mesmo que você não queira, mesmo que você não tenha sequer olhado pro que a pessoa quer vender. Todo o tempo você tem a impressão de estar sendo enganado. E no final conclui que está, de fato.

Essaouira

Situação-emblema: Picada de inseto estranho, reação alérgica fortíssima. Procuro farmácia, não tem. Pergunto na rua, finalmente encontro alguém que cobra pra me indicar o local. Vira num beco, outro, outro, entra numa galeria, meio mercado, meio feira, ali junto com o açougue, atrás do boi pendurado, um balcão. Algumas caixas de remédio, escritas em árabe. Preciso de remédio pra alergia. O sujeito aponta uma caixa, cujo nome está meio apagado, mas mesmo que não estivesse de nada adiantaria. É árabe. E pra que é esse remédio? Pra você. Mas pra que serve? Pro que você tem. E o que eu tenho? Você que deve saber. Ok, obrigada, au revoir. Um momento! Quanto você quer pagar por ele? Amigo, deixa pra lá, já melhorei só de olhar pro remédio. Estou ótima.

Deixo pra comprar o remédio em Marrakesh.

Ah, Marrakesh. O melhor e o pior lugar do mundo. A praça mais incrível do planeta, um final de tarde memorável com o sol refletindo os picos nevados do Atlas e as luzes dos vendedores de comida se acendendo numa muvuca inacreditável onde se esbarram pessoas, carrinhos de mão, encantadores de serpente, vendedores de suco de laranja, tatuadoras de henna, charretes, turistas do mundo todo, crianças se ofereçendo de guia, gatos pra todo lado e muita, mas muita mobilete.
Nunca vi tanta mobilete.

Marrakesh

Jantar do outro lado da medina. Taxi. Mini-taxi, porque só os pegeouzinhos cabem nas vielas apertadíssimas da medina de Marrakesh. O motorista sai feito um louco, quase (quase é uma palavra que, nesse caso, não exprime o lapso mínimo de tempo pra se escapar de acidentes fatais ou quase-por-pouco-muito-pouco-meeeesmo fatais) atropelando um sem-número de crianças, velhos, gatos, galinhas, burricos, mobiletes, motos, bicicletas, enfim, tudo, todos, sem direção, sem mão, sem espaço. E o motorista lá, alucinado, como no videogame do seu sobrinho. Toca o celular. Onde está o celular? Ah, embaixo do tapete (?) que cobre o painel (???), mas precisa revirar tudo, né? Ah, e o óculos pra ler o numerinho do celular? Na bolsa embaixo do banco… Ah… Senhor, não é melhor parar o carro? Ele reage em árabe, misturado com duas ou três palavrinhas de francês, como se isso de fato bastasse, e entedemos que ele precisa atender o celular e marcar algo num papelzinho que ele não acha enquanto quase mata a nós e aos desavisados das ruelas de Marrakech. Ok, senhor, tudo bem, mas olhe pra frente, por favor. Ele agora briga com o interlocutor, desliga o telefone muito bravo, guarda os óculos, busca os outros (pra ver de longe?), lembra de brigar mais um pouquinho, procura novamente o celular embaixo do tapete do painel (???????), troca de novo os óculos pra ler os numerinhos, briga mais um pouquinho, quase mata mais 17. Não falamos mais nada, porque assim, pelo menos, ele se mantém voltado pra frente.

Semana que vem conto mais. Uma negociação bérbere no meio do deserto, um hamman imperdível em Marrakesh, um jantar inesquecível em Essaouira e a descoberta de que o tapete mais especial, mais lindo, mais dos deuses do Marrocos (e portanto o mais caro…) se desfez na mala, dentro do avião, antes de chegar em casa…

Durante a espera, clique aqui e imagine-se cruzando o deserto do Saara, ouvindo Dibi Dibi Rek, com Ismaël Lô:



Lô Politi

Blog pra falar (originalmente) de cinema, tv e publicidade. Mas agora tem também crônicas, viagens e aleatórios...

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