Dois dias até o deserto, saindo de Marrakesh. 4×4 alugado com motorista. Esquemão. Carro confortável, Youssef, o motorista, um gentleman. A cada 5 músicas, colocava a sua preferida: Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha – Ismaël Lô (um primo distante?) na caixa, música ótima – bom, pelo menos nas 15 primeiras vezes… Paisagem desertificada já no primeiro metro de estrada. Imediatamente entramos no Alto Atlas, deslumbrante, friozinho, pôr-do-sol. Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha. Delícia. Pernoite no caminho deslumbrante, oásis, vales verdinhos, palmeirais. Finalmente, o deserto. Ao longe, as dunas. Sol batendo deitado na areia, contra um céu azulzinho, uma cor indescritível. Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha.
De repente, uma criança na beira da estrada se joga na pista com um animalzinho na mão. Que isso??? Um tigrinho? Um leãozinho? Um gatinho orelhudo? Sim, um gatinho orelhudo, o lemouche, gato selvagem do deserto. E o que ele quer? Vender! O que, o gatinho? Não, a olhada no gatinho? Hã? Você olha o gatinho e paga o menino. Ah…Dibi dibi rek aha…
Camelo, final da tarde, lua cheia nascendo nas dunas. Duas horas de camelada deserto adentro, chegamos nas prometidas “tendas berberes”, onde passaríamos a noite comendo, bebendo e ouvindo música do deserto… Hum… cara de roubada… bom, na chuva pra se queimar! A luz de velas não deixa que nos atenhamos aos detalhes, mas peraí, quantas cordas tem no violão do berbere cantor? Hã? Duas? E esse tapetes árabes, não estão meio parecendo colchão de espuma de vítimas de enchente? Bom, deixa eu usar a lanterninha do iphone pra ver a tenda-dormitório… ali, né? Ah… CCCCHHHHRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!! Nossa! Que isso??? Puxa você assustou os gatinhos! Dispersou o ninho que estava bem em cima do colchão de vítimas de desabamento que você ia dormir! Ah, puxa, que pena. Alguém topa voltar de camelo agora, super legal, duas da manhã, lua cheia no deserto…?
a cilada… descubra o gatinho restante…




Depois do Deserto, Essaouira. Linda medina sobre um mar selvagem, paisagem deslumbrante, sardinha recém-pescada grelhada no porto, um clima mediterrâneo no meio do atlântico, euro-árabe, um lugar especialérrimo. Riad de charme (Les Terráces de Essaouira, delicioso), café da manhã no terraço sobre a medina e o mar, uma coisa de louco. Quase se esquece que está no Marrocos, um país árabe (e pobre), onde todo mundo quer negociar tudo o tempo todo. Tudo tem um preço e tudo é negociável. Mesmo que você não queira, mesmo que você não tenha sequer olhado pro que a pessoa quer vender. Todo o tempo você tem a impressão de estar sendo enganado. E no final conclui que está, de fato.
Situação-emblema: Picada de inseto estranho, reação alérgica fortíssima. Procuro farmácia, não tem. Pergunto na rua, finalmente encontro alguém que cobra pra me indicar o local. Vira num beco, outro, outro, entra numa galeria, meio mercado, meio feira, ali junto com o açougue, atrás do boi pendurado, um balcão. Algumas caixas de remédio, escritas em árabe. Preciso de remédio pra alergia. O sujeito aponta uma caixa, cujo nome está meio apagado, mas mesmo que não estivesse de nada adiantaria. É árabe. E pra que é esse remédio? Pra você. Mas pra que serve? Pro que você tem. E o que eu tenho? Você que deve saber. Ok, obrigada, au revoir. Um momento! Quanto você quer pagar por ele? Amigo, deixa pra lá, já melhorei só de olhar pro remédio. Estou ótima.
Deixo pra comprar o remédio em Marrakesh.
Ah, Marrakesh. O melhor e o pior lugar do mundo. A praça mais incrível do planeta, um final de tarde memorável com o sol refletindo os picos nevados do Atlas e as luzes dos vendedores de comida se acendendo numa muvuca inacreditável onde se esbarram pessoas, carrinhos de mão, encantadores de serpente, vendedores de suco de laranja, tatuadoras de henna, charretes, turistas do mundo todo, crianças se ofereçendo de guia, gatos pra todo lado e muita, mas muita mobilete.
Nunca vi tanta mobilete.
Jantar do outro lado da medina. Taxi. Mini-taxi, porque só os pegeouzinhos cabem nas vielas apertadíssimas da medina de Marrakesh. O motorista sai feito um louco, quase (quase é uma palavra que, nesse caso, não exprime o lapso mínimo de tempo pra se escapar de acidentes fatais ou quase-por-pouco-muito-pouco-meeeesmo fatais) atropelando um sem-número de crianças, velhos, gatos, galinhas, burricos, mobiletes, motos, bicicletas, enfim, tudo, todos, sem direção, sem mão, sem espaço. E o motorista lá, alucinado, como no videogame do seu sobrinho. Toca o celular. Onde está o celular? Ah, embaixo do tapete (?) que cobre o painel (???), mas precisa revirar tudo, né? Ah, e o óculos pra ler o numerinho do celular? Na bolsa embaixo do banco… Ah… Senhor, não é melhor parar o carro? Ele reage em árabe, misturado com duas ou três palavrinhas de francês, como se isso de fato bastasse, e entedemos que ele precisa atender o celular e marcar algo num papelzinho que ele não acha enquanto quase mata a nós e aos desavisados das ruelas de Marrakech. Ok, senhor, tudo bem, mas olhe pra frente, por favor. Ele agora briga com o interlocutor, desliga o telefone muito bravo, guarda os óculos, busca os outros (pra ver de longe?), lembra de brigar mais um pouquinho, procura novamente o celular embaixo do tapete do painel (???????), troca de novo os óculos pra ler os numerinhos, briga mais um pouquinho, quase mata mais 17. Não falamos mais nada, porque assim, pelo menos, ele se mantém voltado pra frente.
Semana que vem conto mais. Uma negociação bérbere no meio do deserto, um hamman imperdível em Marrakesh, um jantar inesquecível em Essaouira e a descoberta de que o tapete mais especial, mais lindo, mais dos deuses do Marrocos (e portanto o mais caro…) se desfez na mala, dentro do avião, antes de chegar em casa…
Durante a espera, clique aqui e imagine-se cruzando o deserto do Saara, ouvindo Dibi Dibi Rek, com Ismaël Lô:





Apesar de já ter escutado as histórias ontem ao vivo, me matei de rir de novo.
Ia te pedir para me mostrar a musica – adorei chegar ao fim e ela estar lá!!!!
dibi dibi rek
ahaaaaaaa
o comecinho é meio moricone, né?
beijos
Muito bom Lô!!!
que engraçado….kkkk
Deve ter sido divertidissímo.
A musica muito boa tambem
Beijo
Oi Lô
talvez entenda o que vc sentiu… Minha primeira viagem “para fora” foi para a África (nunca tinha ido nem para a Ponte da Amizade!). Fui para Burkina Faso com uma amiga, para assistir um festival de cinema (Fespaco).
Lá pelas tantas resolvemos ir para o deserto com o namorado (wadabee) dessa amiga (Daniela, filha de Anna Mariani).
Viagem num 4 X 4 até Gorom-Gorom, onde chegamos a um “hotel” que nos foi indicado… só aí soubemos que ele era feito todo de barro, até a cama… Não tinha luz, banheiro, nada, só um buraco no chão (banheiro) e um balde com água (chuveiro).
Depois…camelo até o local em que as tribos nômades se encontram uma vez por ano para troca de mercadorias que iam desde pilhas e óculos ray ban até peles, baldes, carne.
Foi minha melhor viagem. Nunca me senti tão livre.
É isso.
Ah! descobri seu site por causa de um amigo que me mostrou uma crônica sua (Aos 12 anos). Ele sabe que eu adoro o que Nina Horta escreve, apesar de eu ser uma péssima cozinheira.
Até,
Guiomar
Adorei, Guiomar!
Também fiquei num hotel de barro, muito louco, mas com banheiro decente. Mas pegamos vário banheiros de buraco no chão no caminho. Com balde e um sujeito de lado de fora que mantém o banheiro/buraco limpíssimo. Por uma graninha, naturalmente.
Semana que vem tem mais!
bj
l
o
Tu és a minha Indiana Jones de saias !
Adorei tudo !