Tudo no Marrocos é bem barato. Menos o meu tapete. Participei de uma negociação ferrenha, desumana, da qual saí exausta, como se tivesse negociado minha própria alma para salvar a vida da minha mãe, por exemplo. Ou quem sabe mesmo a vida do Brad Pitt, figura que não me saiu da memória desde que cruzei as ruelas da vilazinha onde filmaram Babel, no meio do deserto. Enfim, voltando, mamãe e Brad passam bem, mas eu realmente quase desfaleci na frente do cidadão berbere que tentava me vender o tapete mais lindo que meus olhos já viram. Numa cidadela escondida pela poeira do deserto, no meio do mais completo nada, numa casa sem placas, com segurança na entrada, onde te servem até almoço – já contando com a fortuna que a pessoa, despreparada e deslumbrada, deixará nas mãos negras do árabe mais sedutor que eu já conheci. Testemunhas relatam que eu fui brava, firme, sóbria. Eu mesma me senti uma escolhida de Alá para cuidar pra sempre daquela peça de rara beleza que o mundo árabe me oferecia. No auge da negociação o sujeito manda todo mundo sair, fecha a porta, tranca, e me encara. Let’s talk seriously. Uau. Caneta e papel na mão. Como deve ser. Como deve ter sido nos velhos tempos, em todos os tempos, seja no deserto, nas Arábias, em Constantinopla, nas ruas de Nova York, na feirinha da Liberdade, ou onde quer que seja que os bravos vem negociando nos últimos milênios. Desistir é para os fracos. Não para mim e o imenso negro árabe que se avolumava na minha frente a cada lance do lápis desapontado sobre o papel de pão. E eu negociei. E argumentei. E barganhei. E suei. E me descabelei. E quase chorei. Mas comprei. Por 40% do preço inicial. Sorrimos um para o outro, eu e aquele inacreditável Morgan Freeman do deserto. Eu, cúmplice, inspirada, arrematei: Me ensine a enrolar esse pano na minha cabeça que eu lhe respeitarei pelo resto dos meus dias. Ça serait un grand plaisir, madame. Agora somos irmãos.
Dias depois, em Marrakesh, entro na mais cara loja de tapetes que encontro. Na mesmíssima mis-en-scene (fecha a porta, tranca, “let’s talk seriously”, pega o lápis e o papel de pão e negocia) um tapete quase exatamente igual ao que eu comprei já começou a ser negociado pela metade do preço. A metade dos 40%, o preço a que eu cheguei depois de viver uma vida de lágrimas, suor e sangue dentro daquela “casas fortaleza” árabe com aquela Whoopi Goldberg subsaariana. Devia estar com um olhar tão triste ao me despedir do vendedor que ele nem tentou levar aquela negociação em frente.
Ao chegar em casa e abrir o tapete, percebo um emboladinho numa das pontas. Tipo um nó de lã embaraçada. Tento arrumar. O nó se desfaz. A lã também. E assim vai se desfazendo cada um dos pontos daquele tapete, pontos dados pelos ancestrais daquele Luiz Melodia de turbante, que me enganou no meio do deserto, mesmo sobre a alma de minha mãe e de Brad Pitt. E ainda dividimos o mesmo pano enrolado sobre nossa cabeças. Ali, sobre o tapete em decomposição, finalmente sentei e quase chorei. Quase, porque chorar é para os fracos.
Eu, me deixando seduzir por pouco, muito pouco:




Semana que vem: Marrocos, parte 3 – a última.
Leia também “Marrocos, parte 1 – gatos, camelos, mobiletes, dib dib rek aha…” aqui.


rsrsrsrss Isso me faz lembrar de quando trabalhei como balconista na loja Peaceland, que fica a bem pr… Ver maisóxima da muralha de Jerusalém. Havia desde sabão feito com azeite até diamantes. Passando por vasos, tapetes, quadros, vestidos usados e antigos de beduínas e tudo mais q vc possa imaginar. Mas, por se tratar de Terra Santa, não poderia faltar o souvinir que mais se vende em Israel aos que fazem turismo religioso, um kit com terra e pedregulhos de Jeuslém e um vidrinho com água do rio Jordão. Eu mesmo vendia uma média de 400 kits por dia, para pessoas do mundo inteiro. Foi nesta loja que conheci aborígenas e as mais diversas tribos africanas com suas cicatrizes tribais no rosto. Conheci pessoas de países que eu nem sabia que existia. E todas levavam este kit com muita fé que ele tinha poder de cura. Desta forma, pelo menos umas 200 vezes por dia eu pedia perdão a Deus antes de confirmar a pergunta do comprador se aquilo realmente curava, pois vinha tudo da China onde era mais barato embalar terra, pedrinhas…
Eu já até sugeri uma pauta para a imprensa sobre este assunto. A água do rio Jordão da Terra Santa é MADE IN CHINA!
Oi, i’m so sorry, não deu pra segurar o riso. Já vi uma história parecidíssima com essa!
Sem tapete, mas com histórias pra contar. Não é uma maravilha isso?
Léia.