Vou aproveitar que hoje é sexta e eu tenho que colocar uma crônica aqui no blog, pra me exibir e desfilar de mãos dadas com minha madrinha Nina Horta, cronista da Folha das quintas-feiras, dona da melhor, mais saborosa e mais comovente coluna de jornal de todos os tempos. A crônica dela de ontem fala das castanhas portuguesas que colhi da árvore que plantei há anos, esperançosa de um quintal como o do meu desenho de criança, aquele que tem a montanha, o sol, a casinha e a árvore. A árvore do meu desenho de criança, descobri mais tarde, era uma castanheira.
Sempre fui louca pela castanheira, pela forma da castanheira. Sonhei a vida toda com esse quintal com uma única árvore em destaque, imperiosa e imponente, com uma sombra generosa que protegeria toalhas abertas de piquenique, raízes transformadas em bancos pra conversas lentas, redes amarradas em galhos grossos, enfim, uma árvore. A minha árvore.
Decidi que esse quintal seria o gramado do meu sítio (que já vem com montanha e sol), bem em frente à casa, para que eu pudesse olhar minha árvore todas as manhãs quando abrisse a porta.
Plantei várias, sucessivas e péssimas mudas. Entristeci todas as muitíssimas vezes que elas morreram até que uma delas, única, forte, linda, persistente, começou a se avolumar sobre o meu jardim, resultando na imensa castanheira que ano a ano vem superando qualquer expectativa que um dia eu tive em termos de árvore pra caber no meu desenhinho de criança. E as castanhas começaram a vir. No começo eram pequenas, murchas, feinhas mesmo. Mas tudo bem, eu queria era a árvore, né? Mas outro dia, depois de uma ausência de muitas semanas, cheguei ao sítio à noite. Ao abrir a porta de manhã, não pude acreditar no que vi. O chão em volta da árvore estava coberto de um imenso tapete de castanhas portuguesas. Grandes, parrudas, impressionantes.
Com o cesto da primeira colheita em minhas mãos me dei conta de algo que nunca tinha me ocorrido antes. Não gosto de castanhas. Gosto imensamente da castanheira, mas não gosto de castanhas. Em nenhuma forma, nem mesmo marron glacé.
E agora? Quem saberá apreciar verdadeiramente aquelas lindas castanhas, aquelas senhoras castanhas portuguesas, grandes e brilhantes? Quem nesse mundo terá a sensibilidade de olhar pra elas e sentir a importância de ter nas mãos frutos tão especiais, tão esperados, colhidos de uma árvore cultivada por anos e anos por conta da sua semelhança com um desenhinho de criança?
Tia Nina, que bom que não deixei que trocassem a minha madrinha. Sou eu mesma madrinha trocada de um menino que eu amo muito e adoro que ele tenha permitido (ou aceitado) a troca. Mas detestaria ler suas crônicas todas as quintas no jornal e pensar que aquelas palavras tão bem acomodadinhas no papel são escritas por alguém que poderia ser minha madrinha mas eu deixei que não fosse mais. Penso agora que cultivei tanto tempo essa castanheira, sem gostar propriamente de castanhas, provavelmente pra poder um dia entregá-las a você. E ler, nas suas palavras, histórias que dizem a mim quem eu sou.
(E não sei o que em mim me leva quase às lagrimas todas as vezes que eu leio em suas crônicas alguma menção à sua mãe ou ao se irmão. Dona Dulce tinha cabelos azuis e óculos amarelos e eu nunca, nunca esquecerei da figura elegantérrima e cultíssima que me salvou da ignorância e ainda me fez acreditar que eu mesma tinha alguma inteligência. Arthur um dia afastou os cabelos da minha cara adolescente, abriu bem meu rosto escondido, tímido, envergonhado, e me fez acreditar que ali tinha alguma beleza. Veja, a depender dos seus, seria um poço de segurança e bem estar. Linda e inteligente. Quem dera. De qualquer jeito, pra sempre em minha vida, quando estiver meio assim, meio insegura, terei sempre o recurso de evocar em minha mente qualquer um dos seus Guimarães)
Leia crônicas anteriores sobre minha madrinha aqui e meu afilhados aqui.
E a da minha madrinha, de ontem (clique sobre o texto pra ampliar):
ou no link pra quem tem UOL aqui.





