Ele era meu sonho. Bonito, muito parecido com o John Travolta da época, aquele de Saturday Night Fever. Ia beijá-lo naquele dia, tinha certeza. Era Carnaval, festa no clube, a única noite do ano em que nos era permitido ficar numa festa até de manhã, com café da manhã incluído na programação. Aos 13 anos, isso significa muito. Eu fiquei a noite toda meio por perto, meio de olho, meio esperando. Primeiro ele dançou brevemente com minha melhor amiga, despertando em mim o primeiro rasgo do que mais tarde eu saberia se tratar de ciúme amoroso, o pior dos sentimentos. Mas depois ele dispersou e dançou com uma, dançou com outra, até que finalmente veio em minha direção. Puxou meu braço, me conduziu ao meio da pista, dançamos, dançamos. De repente, a marchinha de carnaval animada que nos fazia pular unidos apenas pelos olhos deu lugar a um breve silêncio. A orquestra em suspenção esperou que a cantora virasse a cabeça dramaticamente na nossa direção e entoasse, à capela, os verso que dali pra frente seriam mágica aos meus ouvidos: Bandeira Branca , amor… Não posso mais… Pela saudade que me invade eu peço paz… Laralaralaralarááá…. Ele aproximou seu corpo do meu, seus olhos dos meus, sua boca da minha. E nos beijamos. Uma, duas, muitas vezes. A noite inteira.
Muitas marchinhas de carnaval depois, o dia raiou e a magia estremeceu. Todos na beira da piscina, se empurrando alegremente pra água, transformando em coletivo aquela que foi minha primeira noite a dois. Ele se deixou levar, soltando minha mão pro que seria o resto das nossas vidas. Disso eu ainda não sabia. Mas temia. E, de fato, deu-se. Passei semanas, meses, embalando meus sonhos com os versos de Bandeira Branca, esperando ele voltar de umas férias na praia que nunca terminariam.
Trinta anos depois, eu disse TRINTA anos depois, recebo um telefonema daquela minha melhor amiga da infância, que dançou com ele rapidamente antes de mim e que, em seguida, foi testemunha dos meus intermináveis suspiros que duraram o tempo que deve durar a primeira decepção amorosa. Tinha recebido um email de alguém que ela não via havia muito tempo, não se lembrava direito, mas sobre quem tinha uma única certeza: Nunca foi seu namorado. O email dizia: Minha primeira namorada, nunca esqueci aquele Carnaval…
Ok, foi mais importante pra mim do que pra ele. Mas puxa, não saber direito qual das duas amigas ele pegou? Francamente. Deve ter se separado e, numa reação típica e previsível, buscou o caderno de ex-namoradas e começou pela primeira da lista. No caso eu, essa eu que tanto faz se era ela ou eu. Bem, o John Travolta era mesmo meio cafona…

