À Deriva, filme escrito e dirigido por Heitor Dhalia
Fui ver À Deriva achando que iria gostar. Vários motivos, mas o principal é que adoro filmes que se passam em períodos de férias na praia, ainda mais nos anos 70/80, quando famílias inteiras se mudavam para o litoral, do natal ao carnaval. Alimento fortíssimo pro imaginário de quem foi criança nessa época, as lembranças desse mundo salgado e ensolarado são material precioso pra explorar emoções, descobertas e transformações.
Depois de dois filmes mais “duros” (Nina e O Cheiro do Ralo), tudo que dizia respeito ao novo filme de Heitor apontava pra um filme delicado, emotivo, sensível. O cartaz, o elenco, as imagens de Búzios, a estréia em Cannes, o carinho com que os envolvidos no filme se referiam a ele.
Mas uma pulga me importunava a orelha: dos filmes brasileiros emocionais que tenho visto ultimamente, pouquíssimos abrem espaço na ação pra que a emoção se desenvolva. Roteiros são geralmente muito mais calcados na ação do que deveriam, o que pode ser um problema se o filme não quer ser um filme de ação. Mas escrever sobre os sentimentos que permeiam as ações, num roteiro, é bem difícil, correndo o risco dele ficar enorme e literário, o que é outro dos defeitos recorrentes nos roteiros. Daí que se o diretor não souber valorizar os entreatos, as entrelinhas, criar espaços, clima, convivência boba entre os personagens que determinem que tipo de relação eles têm e que pessoas eles são, o filme corre o risco de ficar superficial, fraco, débil.
Nesse aspecto, um diretor acostumado à publicidade pode derrapar feio. Não se exercita os espaços na publicidade. Briga-se heroicamente contra o tempo, tentando que a ação seja milimetricamente dividida nos planos que se apertam em exíguos 30s, fora o packshot. Por isso são tão raros os bons filmes emocionais na publicidade. É quase impossível emocionar em 30 segundos. Quantos comerciais emocionais já vi que funcionam na versão do diretor, aquela de 2 minutos que está no repertório dele, no site da produtora. Mas na TV vai a versão de 30, um filme de ação, mesmo que se queira fazer chorar.
Pois À Deriva é um filme emocional dirigido por um diretor criado na publicidade. Estão lá os tempos, os espaços, os silêncios necessários pra que se entenda e se sinta a qualidade emocional do filme, o drama de cada personagem, a relação deles com os outros, com o mundo, com eles mesmos.
Naturalmente não é isso que faz um filme ser bom, até porque esse seria apenas um dos apectos a se considerar. Mas fiquei bem feliz de reconhecer essa característica em À deriva, que tanto faz falta no cinema brasileiro contemporâneo e que sobra no cinema de nuestros hermanos argentinos.