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Caco Faz 60

Trimmmmmmmmm. Lô? Humpf… Lô? Acorda! O Caco foi sequestrado pelas FARC! Hã? Tô indo praí. Trimmmmmmmmmmmmm. Lô? Hãããnnnmm. Acorda!!! Caco está jurado de morte! Se eu morrer, você cuida do meu filho? Quê? Trimmmmmmmmm. Lô? Bibi, não posso falar ag… Lô! Vem já pra cá, precisamos tirar o Caco do país agora! Você pega o Iuri em casa?

Minha vida com Beatriz tem sido assim nos últimos 20 e poucos anos, desde que ela se casou com o Caco. Minha melhor amiga de todos os tempos era ela mesma candidata a jornalista naquela época e dividia com todas as estudantes de jornalismo do Brasil uma paixão desenfreada pelo gatíssimo repórter da TV que, além de lindo, era destemido, corajoso, discreto, inteligente e muito, muito correto. Nunca conheci ninguém com um comportamento tão reto como o Caco. Nunca. A figura dele na TV transparece essa, sobre todas as suas inúmeras qualidades. Mas também transparece outras tantas. Bibi foi irreversivelmente fisgada pelas mais sedutoras delas e marcou de entrevistá-lo (ahã…) pra um trabalho da faculdade (nos ultra-românticos jardins da Fundação Maria Luiza e Oscar Americano… hummm…) e os dois se conheceram e se apaixonaram. Desde então tenho sido coadjuvante no roteiro de um filme de ação que não para nunca. Beatriz acabou mudando do jornalismo pra moda e hoje é Bibi Barcellos, estilista das mais sofisticadas, graças a Deus. Pelo menos alguém tem parada nessa família. Porque antes de conhecer o Caco, ela já tinha me envolvido em programas bem tranquilos do tipo investigar e perseguir pelas ruas uma quadrilha que criava vira-latas sarnentos pra abater e vender a carne (!!!), ou ir pro instituto médico legal analizar provas de um crime horrendo, ou percorrer delegacias em busca de alguém que ela suspeitava poder ajudá-la em alguma investigação. Programa bom de fazer com uma amiga quando você quer apenas tomar um café com ela pra matar as saudades… Enfim, era claro e óbvio que Bibi deveria casar com Caco, como também era claro e óbvio que um dia um dos dois deveria mudar de vida e, graças a Deus, Beatriz sossegou o facho e passou a lidar com agulhas, rendas e tecidos. Ufa. Eu agradeço. Os dois filhos deles também. As noivas do país inteiro que tem seus vestidos preciosamente confeccionados por ela também.

Mas outro tipo de desassossego passou a nos perturbar. Onde está seu marido agora? Bom, 99% das minhas amigas responderiam: no trabalho, no futebol, no bar com os amigos. Não Beatriz. As respostas dela são do seguinte naipe: Incomunicável na Amazônia. Acampado na Cracolândia há 3 dias. Na guerra do Golfo. Sequestrado na floresta da Colômbia. Não sei dele há 5 dias, desde que embarcou num monomotor a procura de traficantes na Bolívia… Meu Deus! Não é exagero. Na verdade é muito pior, porque além de tudo Caco escreveu alguns livros que são um tremendo sucesso mas que algumas pessoas não muito amigáveis acharam meio ruim e isso deixa nosso herói em permanente estado de vigilância. Mas Bibi, que se apavorava no começo, hoje lida com isso com tremendo jogo de cintura. Confia no Caco, confia na vida dos dois, na história que eles fizeram. E também com o tempo ele tem sido um pouco, bem pouco, mais precavido. Ultimamente se dedica principalmente a dividir seu talento e seu conhecimento com uma nova geração de “Cacos” – que mostra toda terça-feira na TV seu talento descoberto pelo mestre, sinalizando que podem um dia, inclusive, superá-lo. Graças à rara generosidade do Caco, que levanta a bola pra que os pupilos cortem. E eles cortam. E muito bem. Juntos eles fazem o que é, na minha opinião, o melhor programa da televisão aberta dos últimos tempos.

Semana passada Caco fez 60 anos e se permitiu comemorar com os amigos de toda uma vida. Ocasião rara pra quem quase nunca tem a oportunidade de vê-lo relax, fora da exaustiva rotina de herói nacional que é o dia a dia dele, sem folga, sem final de semana, sem tempo pra nada. E estava ele lá, lindo como sempre, suave como sempre, sorridente e interessado nas pessoas como sempre. E deu a impressão que todos os jornalistas vivos estavam lá. Dos mais velhos, que todos se levantam pra receber, aos mais novos, colegas dele do programa atual, que dançaram até as 5 da manhã. Além dos filhos e os amigos dos filhos, dos amigos e os filhos dos amigos, editores, diretores, amigos do futebol, da TV, da vida. Caco fez 60 anos. Como muito propriamente alcunhou o Casseta: Gato Barcellos, do Bonitão Reporter. Macrobiótico, atleta, gente boa e coração grande, Caco será uma espécie de Niemeyer do jornalismo, tanto em longevidade quanto em relevãncia na profissão que o escolheu.

Caco é herói nacional e meu herói particular. Todas as vezes que sinto que algo está difícil no meu trabalho, ou que eu não tenho tempo pra alguma coisa importante, lembro do Caco e tomo vergonha na cara. Morro de orgulho dele. De ser amiga dele, quase cunhada. De ser madrinha de dois filhos dele. De ser fã, espectadora e leitora assídua de tudo que ele faz. De compartilhar a vida e a família com ele por tantos e deliciosos anos. De quase não vê-lo, porque ele está ocupado salvando e mudando o mundo. Se eu conheço alguém que ajuda a mudar esse mundo, esse cara é o Caco. Meu amigo Caco. Gato Barcellos.

Leia post anterior sobre Caco, Bibi e cia aqui.

Crônica da Sexta – Castanhas portuguesas pra madrinha cronista.

Vou aproveitar que hoje é sexta e eu tenho que colocar uma crônica aqui no blog, pra me exibir e desfilar de mãos dadas com minha madrinha Nina Horta, cronista da Folha das quintas-feiras, dona da melhor, mais saborosa e mais comovente coluna de jornal de todos os tempos. A crônica dela de ontem fala das castanhas portuguesas que colhi da árvore que plantei há anos, esperançosa de um quintal como o do meu desenho de criança, aquele que tem a montanha, o sol, a casinha e a árvore. A árvore do meu desenho de criança, descobri mais tarde, era uma castanheira.

Sempre fui louca pela castanheira, pela forma da castanheira. Sonhei a vida toda com esse quintal com uma única árvore em destaque, imperiosa e imponente, com uma sombra generosa que protegeria toalhas abertas de piquenique, raízes transformadas em bancos pra conversas lentas, redes amarradas em galhos grossos, enfim, uma árvore. A minha árvore.

Decidi que esse quintal seria o gramado do meu sítio (que já vem com montanha e sol), bem em frente à casa, para que eu pudesse olhar minha árvore todas as manhãs quando abrisse a porta.
Plantei várias, sucessivas e péssimas mudas. Entristeci todas as muitíssimas vezes que elas morreram até que uma delas, única, forte, linda, persistente, começou a se avolumar sobre o meu jardim, resultando na imensa castanheira que ano a ano vem superando qualquer expectativa que um dia eu tive em termos de árvore pra caber no meu desenhinho de criança. E as castanhas começaram a vir. No começo eram pequenas, murchas, feinhas mesmo. Mas tudo bem, eu queria era a árvore, né? Mas outro dia, depois de uma ausência de muitas semanas, cheguei ao sítio à noite. Ao abrir a porta de manhã, não pude acreditar no que vi. O chão em volta da árvore estava coberto de um imenso tapete de castanhas portuguesas. Grandes, parrudas, impressionantes.
Com o cesto da primeira colheita em minhas mãos me dei conta de algo que nunca tinha me ocorrido antes. Não gosto de castanhas. Gosto imensamente da castanheira, mas não gosto de castanhas. Em nenhuma forma, nem mesmo marron glacé.
E agora? Quem saberá apreciar verdadeiramente aquelas lindas castanhas, aquelas senhoras castanhas portuguesas, grandes e brilhantes? Quem nesse mundo terá a sensibilidade de olhar pra elas e sentir a importância de ter nas mãos frutos tão especiais, tão esperados, colhidos de uma árvore cultivada por anos e anos por conta da sua semelhança com um desenhinho de criança?

Tia Nina, que bom que não deixei que trocassem a minha madrinha. Sou eu mesma madrinha trocada de um menino que eu amo muito e adoro que ele tenha permitido (ou aceitado) a troca. Mas detestaria ler suas crônicas todas as quintas no jornal e pensar que aquelas palavras tão bem acomodadinhas no papel são escritas por alguém que poderia ser minha madrinha mas eu deixei que não fosse mais. Penso agora que cultivei tanto tempo essa castanheira, sem gostar propriamente de castanhas, provavelmente pra poder um dia entregá-las a você. E ler, nas suas palavras, histórias que dizem a mim quem eu sou.

(E não sei o que em mim me leva quase às lagrimas todas as vezes que eu leio em suas crônicas alguma menção à sua mãe ou ao se irmão. Dona Dulce tinha cabelos azuis e óculos amarelos e eu nunca, nunca esquecerei da figura elegantérrima e cultíssima que me salvou da ignorância e ainda me fez acreditar que eu mesma tinha alguma inteligência. Arthur um dia afastou os cabelos da minha cara adolescente, abriu bem meu rosto escondido, tímido, envergonhado, e me fez acreditar que ali tinha alguma beleza. Veja, a depender dos seus, seria um poço de segurança e bem estar. Linda e inteligente. Quem dera. De qualquer jeito, pra sempre em minha vida, quando estiver meio assim, meio insegura, terei sempre o recurso de evocar em minha mente qualquer um dos seus Guimarães)

Leia crônicas anteriores sobre minha madrinha aqui e meu afilhados aqui.

E a da minha madrinha, de ontem (clique sobre o texto pra ampliar):

ou no link pra quem tem UOL aqui.

Crônica da Sexta – Finalizando Marrocos

Meu anfitrião em Marrakesh, Antoine Gély, mandou esse trecho do filme “O Homem que Sabia Demais”, de Alfred Hitchcock. Vendo o filme, um dos que eu mais gosto do Hitchcock, me deu a sensação de que, por mais percalços que se possa passar num país de cultura tão diferente da nossa, é muito enriquecedor estar aberto a novos estímulos. Vendo agora, já com uma certa distância, chego a conclusão que o Marrocos é um país imperdível e que Marrakesh é uma das cidades mais interessantes que já visitei na vida. Agora, esquecendo um ou outro aborrecimento, o que ficou realmente grudado na minha mente foi a sensação de estar num lugar único no mundo – a praça Jemâa el Fna, o souk, os aromas, os Hammans, as ruelas da Medina, os restaurantes e Riads inacreditáveis escondidos dentro dos muros, a confusão árabe-africana que dá um verdadeiro nó na nossa mente ocidental.
Veja que delícia a cena do filme… pena que James Stewart e Doris Day fizeram tudo em estúdio nesse Chroma-Key meio podre que tenta, em vão, convencer a gente que eles estão lá em Marrakesh. Pena pra eles… perderam!

Veja posts anteriores sobre o Marrocos aqui e aqui.

Crônica da Sexta – Aos 13 anos – Bandeira Branca, amor…

Ele era meu sonho. Bonito, muito parecido com o John Travolta da época, aquele de Saturday Night Fever. Ia beijá-lo naquele dia, tinha certeza. Era Carnaval, festa no clube, a única noite do ano em que nos era permitido ficar numa festa até de manhã, com café da manhã incluído na programação. Aos 13 anos, isso significa muito. Eu fiquei a noite toda meio por perto, meio de olho, meio esperando. Primeiro ele dançou brevemente com minha melhor amiga, despertando em mim o primeiro rasgo do que mais tarde eu saberia se tratar de ciúme amoroso, o pior dos sentimentos. Mas depois ele dispersou e dançou com uma, dançou com outra, até que finalmente veio em minha direção. Puxou meu braço, me conduziu ao meio da pista, dançamos, dançamos. De repente, a marchinha de carnaval animada que nos fazia pular unidos apenas pelos olhos deu lugar a um breve silêncio. A orquestra em suspenção esperou que a cantora virasse a cabeça dramaticamente na nossa direção e entoasse, à capela, os verso que dali pra frente seriam mágica aos meus ouvidos: Bandeira Branca , amor… Não posso mais… Pela saudade que me invade eu peço paz… Laralaralaralarááá…. Ele aproximou seu corpo do meu, seus olhos dos meus, sua boca da minha. E nos beijamos. Uma, duas, muitas vezes. A noite inteira.
Muitas marchinhas de carnaval depois, o dia raiou e a magia estremeceu. Todos na beira da piscina, se empurrando alegremente pra água, transformando em coletivo aquela que foi minha primeira noite a dois. Ele se deixou levar, soltando minha mão pro que seria o resto das nossas vidas. Disso eu ainda não sabia. Mas temia. E, de fato, deu-se. Passei semanas, meses, embalando meus sonhos com os versos de Bandeira Branca, esperando ele voltar de umas férias na praia que nunca terminariam.

Trinta anos depois, eu disse TRINTA anos depois, recebo um telefonema daquela minha melhor amiga da infância, que dançou com ele rapidamente antes de mim e que, em seguida, foi testemunha dos meus intermináveis suspiros que duraram o tempo que deve durar a primeira decepção amorosa. Tinha recebido um email de alguém que ela não via havia muito tempo, não se lembrava direito, mas sobre quem tinha uma única certeza: Nunca foi seu namorado. O email dizia: Minha primeira namorada, nunca esqueci aquele Carnaval…

Ok, foi mais importante pra mim do que pra ele. Mas puxa, não saber direito qual das duas amigas ele pegou? Francamente. Deve ter se separado e, numa reação típica e previsível, buscou o caderno de ex-namoradas e começou pela primeira da lista. No caso eu, essa eu que tanto faz se era ela ou eu. Bem, o John Travolta era mesmo meio cafona…

Crônica da Sexta – Marrocos, parte 2 – o tapete, o berbere e a otária

Quanto vale esse tapete?

Tudo no Marrocos é bem barato. Menos o meu tapete. Participei de uma negociação ferrenha, desumana, da qual saí exausta, como se tivesse negociado minha própria alma para salvar a vida da minha mãe, por exemplo. Ou quem sabe mesmo a vida do Brad Pitt, figura que não me saiu da memória desde que cruzei as ruelas da vilazinha onde filmaram Babel, no meio do deserto. Enfim, voltando, mamãe e Brad passam bem, mas eu realmente quase desfaleci na frente do cidadão berbere que tentava me vender o tapete mais lindo que meus olhos já viram. Numa cidadela escondida pela poeira do deserto, no meio do mais completo nada, numa casa sem placas, com segurança na entrada, onde te servem até almoço – já contando com a fortuna que a pessoa, despreparada e deslumbrada, deixará nas mãos negras do árabe mais sedutor que eu já conheci. Testemunhas relatam que eu fui brava, firme, sóbria. Eu mesma me senti uma escolhida de Alá para cuidar pra sempre daquela peça de rara beleza que o mundo árabe me oferecia. No auge da negociação o sujeito manda todo mundo sair, fecha a porta, tranca, e me encara. Let’s talk seriously. Uau. Caneta e papel na mão. Como deve ser. Como deve ter sido nos velhos tempos, em todos os tempos, seja no deserto, nas Arábias, em Constantinopla, nas ruas de Nova York, na feirinha da Liberdade, ou onde quer que seja que os bravos vem negociando nos últimos milênios. Desistir é para os fracos. Não para mim e o imenso negro árabe que se avolumava na minha frente a cada lance do lápis desapontado sobre o papel de pão. E eu negociei. E argumentei. E barganhei. E suei. E me descabelei. E quase chorei. Mas comprei. Por 40% do preço inicial. Sorrimos um para o outro, eu e aquele inacreditável Morgan Freeman do deserto. Eu, cúmplice, inspirada, arrematei: Me ensine a enrolar esse pano na minha cabeça que eu lhe respeitarei pelo resto dos meus dias. Ça serait un grand plaisir, madame. Agora somos irmãos.

Dias depois, em Marrakesh, entro na mais cara loja de tapetes que encontro. Na mesmíssima mis-en-scene (fecha a porta, tranca, “let’s talk seriously”, pega o lápis e o papel de pão e negocia) um tapete quase exatamente igual ao que eu comprei já começou a ser negociado pela metade do preço. A metade dos 40%, o preço a que eu cheguei depois de viver uma vida de lágrimas, suor e sangue dentro daquela “casas fortaleza” árabe com aquela Whoopi Goldberg subsaariana. Devia estar com um olhar tão triste ao me despedir do vendedor que ele nem tentou levar aquela negociação em frente.
Ao chegar em casa e abrir o tapete, percebo um emboladinho numa das pontas. Tipo um nó de lã embaraçada. Tento arrumar. O nó se desfaz. A lã também. E assim vai se desfazendo cada um dos pontos daquele tapete, pontos dados pelos ancestrais daquele Luiz Melodia de turbante, que me enganou no meio do deserto, mesmo sobre a alma de minha mãe e de Brad Pitt. E ainda dividimos o mesmo pano enrolado sobre nossa cabeças. Ali, sobre o tapete em decomposição, finalmente sentei e quase chorei. Quase, porque chorar é para os fracos.

Eu, me deixando seduzir por pouco, muito pouco:

Semana que vem: Marrocos, parte 3 – a última.

Leia também “Marrocos, parte 1 – gatos, camelos, mobiletes, dib dib rek aha…” aqui.

Crônica da Sexta – Marrocos, parte 1 – gatos, camelos, mobiletes, dib dib rek aha…

Dois dias até o deserto, saindo de Marrakesh. 4×4 alugado com motorista. Esquemão. Carro confortável, Youssef, o motorista, um gentleman. A cada 5 músicas, colocava a sua preferida: Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha – Ismaël Lô (um primo distante?) na caixa, música ótima – bom, pelo menos nas 15 primeiras vezes… Paisagem desertificada já no primeiro metro de estrada. Imediatamente entramos no Alto Atlas, deslumbrante, friozinho, pôr-do-sol. Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha. Delícia. Pernoite no caminho deslumbrante, oásis, vales verdinhos, palmeirais. Finalmente, o deserto. Ao longe, as dunas. Sol batendo deitado na areia, contra um céu azulzinho, uma cor indescritível. Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha.

Com Youssef a caminho do deserto

De repente, uma criança na beira da estrada se joga na pista com um animalzinho na mão. Que isso??? Um tigrinho? Um leãozinho? Um gatinho orelhudo? Sim, um gatinho orelhudo, o lemouche, gato selvagem do deserto. E o que ele quer? Vender! O que, o gatinho? Não, a olhada no gatinho? Hã? Você olha o gatinho e paga o menino. Ah…Dibi dibi rek aha…

Camelo, final da tarde, lua cheia nascendo nas dunas. Duas horas de camelada deserto adentro, chegamos nas prometidas “tendas berberes”, onde passaríamos a noite comendo, bebendo e ouvindo música do deserto… Hum… cara de roubada… bom, na chuva pra se queimar! A luz de velas não deixa que nos atenhamos aos detalhes, mas peraí, quantas cordas tem no violão do berbere cantor? Hã? Duas? E esse tapetes árabes, não estão meio parecendo colchão de espuma de vítimas de enchente? Bom, deixa eu usar a lanterninha do iphone pra ver a tenda-dormitório… ali, né? Ah… CCCCHHHHRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!! Nossa! Que isso??? Puxa você assustou os gatinhos! Dispersou o ninho que estava bem em cima do colchão de vítimas de desabamento que você ia dormir! Ah, puxa, que pena. Alguém topa voltar de camelo agora, super legal, duas da manhã, lua cheia no deserto…?

a cilada… descubra o gatinho restante…

Depois do Deserto, Essaouira. Linda medina sobre um mar selvagem, paisagem deslumbrante, sardinha recém-pescada grelhada no porto, um clima mediterrâneo no meio do atlântico, euro-árabe, um lugar especialérrimo. Riad de charme (Les Terráces de Essaouira, delicioso), café da manhã no terraço sobre a medina e o mar, uma coisa de louco. Quase se esquece que está no Marrocos, um país árabe (e pobre), onde todo mundo quer negociar tudo o tempo todo. Tudo tem um preço e tudo é negociável. Mesmo que você não queira, mesmo que você não tenha sequer olhado pro que a pessoa quer vender. Todo o tempo você tem a impressão de estar sendo enganado. E no final conclui que está, de fato.

Essaouira

Situação-emblema: Picada de inseto estranho, reação alérgica fortíssima. Procuro farmácia, não tem. Pergunto na rua, finalmente encontro alguém que cobra pra me indicar o local. Vira num beco, outro, outro, entra numa galeria, meio mercado, meio feira, ali junto com o açougue, atrás do boi pendurado, um balcão. Algumas caixas de remédio, escritas em árabe. Preciso de remédio pra alergia. O sujeito aponta uma caixa, cujo nome está meio apagado, mas mesmo que não estivesse de nada adiantaria. É árabe. E pra que é esse remédio? Pra você. Mas pra que serve? Pro que você tem. E o que eu tenho? Você que deve saber. Ok, obrigada, au revoir. Um momento! Quanto você quer pagar por ele? Amigo, deixa pra lá, já melhorei só de olhar pro remédio. Estou ótima.

Deixo pra comprar o remédio em Marrakesh.

Ah, Marrakesh. O melhor e o pior lugar do mundo. A praça mais incrível do planeta, um final de tarde memorável com o sol refletindo os picos nevados do Atlas e as luzes dos vendedores de comida se acendendo numa muvuca inacreditável onde se esbarram pessoas, carrinhos de mão, encantadores de serpente, vendedores de suco de laranja, tatuadoras de henna, charretes, turistas do mundo todo, crianças se ofereçendo de guia, gatos pra todo lado e muita, mas muita mobilete.
Nunca vi tanta mobilete.

Marrakesh

Jantar do outro lado da medina. Taxi. Mini-taxi, porque só os pegeouzinhos cabem nas vielas apertadíssimas da medina de Marrakesh. O motorista sai feito um louco, quase (quase é uma palavra que, nesse caso, não exprime o lapso mínimo de tempo pra se escapar de acidentes fatais ou quase-por-pouco-muito-pouco-meeeesmo fatais) atropelando um sem-número de crianças, velhos, gatos, galinhas, burricos, mobiletes, motos, bicicletas, enfim, tudo, todos, sem direção, sem mão, sem espaço. E o motorista lá, alucinado, como no videogame do seu sobrinho. Toca o celular. Onde está o celular? Ah, embaixo do tapete (?) que cobre o painel (???), mas precisa revirar tudo, né? Ah, e o óculos pra ler o numerinho do celular? Na bolsa embaixo do banco… Ah… Senhor, não é melhor parar o carro? Ele reage em árabe, misturado com duas ou três palavrinhas de francês, como se isso de fato bastasse, e entedemos que ele precisa atender o celular e marcar algo num papelzinho que ele não acha enquanto quase mata a nós e aos desavisados das ruelas de Marrakech. Ok, senhor, tudo bem, mas olhe pra frente, por favor. Ele agora briga com o interlocutor, desliga o telefone muito bravo, guarda os óculos, busca os outros (pra ver de longe?), lembra de brigar mais um pouquinho, procura novamente o celular embaixo do tapete do painel (???????), troca de novo os óculos pra ler os numerinhos, briga mais um pouquinho, quase mata mais 17. Não falamos mais nada, porque assim, pelo menos, ele se mantém voltado pra frente.

Semana que vem conto mais. Uma negociação bérbere no meio do deserto, um hamman imperdível em Marrakesh, um jantar inesquecível em Essaouira e a descoberta de que o tapete mais especial, mais lindo, mais dos deuses do Marrocos (e portanto o mais caro…) se desfez na mala, dentro do avião, antes de chegar em casa…

Durante a espera, clique aqui e imagine-se cruzando o deserto do Saara, ouvindo Dibi Dibi Rek, com Ismaël Lô:

Crônica da Sexta – Resistiremos, ainda que pelas tampas.

Ontem fiquei presa no trânsito infernal do final da tarde, a cidade alagada, o caos instalado, todo mundo nervoso, irritado, chateado.
Estamos chegando realmente ao limite do insuportável, do insano, do humanamente inviável. As ruas estão emporcalhadas. Os bueiros estão entupidos de sujeira, de lixo. As enchentes do verão já começam na primavera e terminam no outono. O trânsito está mortal, não existe mais horário de pico, todos os horários são de pico e os que eram de pico agora são de morte. Morte por cansaço, por exaustão, por limite. Das janelas dos carros ou do ônibus parados no trânsito a gente vê essa cidade se acabando, se esgotando, se tornando inviável. Quem nunca pensou, parado no trânsito, que um dia a cidade inteira iria parar, que um congestionamento trancaria o outro, que todos ao carros parariam onde estivessem, porque não teriam por onde escapar. Não daria para ir em frente, nem dar marcha à ré, nem virar à esquerda, nem à direita. Estaríamos presos.
E o que é ainda pior, estaríamos presos em uma rua ou avenida como, por exemplo, a Santo Amaro, a Teodoro Sampaio, a Francisco Morato… a gente é obrigado a viver numa cidade tão feia, tão mal cuidada…

Somos uma cidade que já não acredita mais em melhoria. Para nós, paulistanos, progresso significa piora de qualidade de vida. O tempo pra gente é inexoravelmente cruel. A cada ano a cidade piora. Pioram o trânsito, os transportes, a moradia. A pobreza. A miséria. A gente sempre sabe que no ano que vem será pior, como uma diabólica e trágica sina da qual a gente não tem escapatória. E o pior é que a cidade se encarrega de nos demonstrar a cada instante que essa sentença é verdadeira. Quando a gente está preso no trânsito e sabe que amanhã vai ser pior. Quando uma favela surge de repente num lugar inesperado e a gente sabe que amanhã o provisório será definitivo e outra moradia provisória surgirá em outro lugar inesperado. Quando a gente vê uma pessoa viver de forma tão precária que a gente acha que dali não passa, que piorar não pode. Mas pode, sempre pode.

Sempre me espanta andar pelo mundo e ver que algumas cidades podem crescer e melhorar com o crescimento. Ou, pelo menos, não necessariamente piorar. Eu, acostumada com São Paulo, não consigo achar que isso seja possível. Assim me dou conta do estrago que todos esses anos de péssima administração, de corrupção avassaladora, de descaso, de ineficiência, fizeram em nossa auto-estima. Chegou num ponto em que a gente nem imagina mais como é viver bem, como é possível alguém gostar de morar em sua cidade, como pode o crescimento não destruir nossa paz.

Bom, desculpem o desabafo justo na véspera de Natal, quando deveríamos estar embuídos de um sentimento mais fofo do que esse que apresento aqui. Mas, por incrível que pareça, eu, apesar de tudo que disse agora, adoro final de ano, adoro o clima que se instala na cidade, adoro o frisson de véspera de festas, presentes, férias. Gosto até de festa de firma, amigo secreto, a loucurama dos eventos, as declarações de amor esquecidas durante o ano que nos apressamos em fazer antes que o ano acabe, como se não soubéssemos que ele recomeça daqui a pouco. Sou do tipo que acredita na mágica da virada de ano, que acha que dormimos exaustos e estressados no dia 31 de dezembro e acordamos decansados e renovados no dia 1 de janeiro. Por isso tudo é que me revolto mais ainda com o estado que as coisas chegaram em São Paulo, que salta aos nossos olhos em dezembro, que está cada ano pior. Porque esse pensamento quase que estraga a festa, quase que tira a graça das coisas. Quase. Mas ainda resistimos. Estamos pelas tampas, mas resistimos. Dia primeiro passa tudo.

Crônica da Sexta – Reflexões sobre cidadania, em 10 atos

1 – Corrupção

A gente sabe que um dinheirinho consegue liberar uma multa ou furar uma fila. Dar um jeitinho. Coisa pequena. Se o dinheirinho começa a ficar grande, vira milhões, envolve um político ou um juiz, aí a gente começa a chamar de corrupção. Qual será o limite entre jeitinho e corrupção? A gente conviveu tanto tempo com esse mar de lama que já nem sabe mais o que é certo e o que é errado, o que pode e o que não pode. A gente acaba achando que o jeitinho é normal. Não é.

2 – Desrespeito

Às vezes a gente quer pagar uma conta atrasada e pega uma fila enorme. Fica horas em pé e ainda é mal tratado pelos funcionários. Isso porque a gente quer pagar, imagina quando quer pedir alguma coisa… Outras vezes a gente quer trocar um produto que veio quebrado… A gente pagou, fez tudo certinho, a loja que estava errada e ainda trata a gente mal. Sem saber direito com quem reclamar, a gente acaba deixando pra lá, como se isso fosse assim mesmo. Não é.

3 – Descaso

Se aparece um buraco no meio da rua, a gente desvia. Cresce o mato na praça que a gente frequenta, a gente volta pra casa. O lixo toma a calçada que a gente passa todos os dias, a gente se arrisca pela rua. Passa um tempo e o que era provisório passa a ser definitivo, o que era exceção passa a ser regra. E a gente nem percebe. Quando a gente se dá conta já está vivendo no meio da bagunça e da sujeira, como se isso fosse normal. Não é.

4 – Indignidade

Um dia aparece uma casinha assim, no meio do nada, embaixo da ponte, na calçada. De repente aquilo vira uma favela enorme e a gente nem percebeu como ela foi crescendo. O mesmo aconteceu no prédio que virou cortiço, na praça que virou dormitório, na marquise que virou abrigo. Na hora a gente sente pena, sente medo, sente raiva. Depois chega em casa, se tranca e esquece o assunto. A gente acaba achando normal que as pessoas possam viver de forma tão precária. Não é.

5 – Sujeira

Às vezes a gente vê um monte de lixo acumulado em algum lugar e joga o nosso lixo em cima do que já está lá. Pode até ser no meio da rua, num córrego, num terreno baldio. A gente sabe que ali não era pra ser lixo, mas como já tem um monte, a gente acha que tudo bem jogar mais um pouquinho. Afinal, é melhor do que jogar onde ainda tá limpo, pelo menos a gente não tá sujando ainda mais a cidade. É como se lixo chamasse lixo. Como todo mundo faz isso, parece normal. Mas não é.

6 – Abandono

Claro que a gente sabe que a criança não nasce ruim, que se ela fica ruim é porque tá tudo errado, desde o começo. É o pai que tá desempregado, é a educação que é péssima, a saúde precária, os traficantes em cima, a polícia que não dá conta, enfim, tudo parece que conspira pra levar a criança pra delinquência. Mas quando a gente vê uma criança cometendo um crime, dá tanta raiva que a gente não quer nem saber como as coisas chegaram até aí, a gente só quer que ela pague por isso. Parece que a criança já nasceu assim e pronto, como se isso fosse natural. Não é.

7 – Humilhação

O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. Isso faz pouco mais de 100 anos. Pode parecer muito, mas historicamente não é nada. Ainda ontem os negros eram escravos. Todo mundo se emociona com os filmes, as novelas, os livros que contam essa história. Mas pouca gente se dá conta de que, hoje em dia, ainda tem muita gente que discrimina o preto, o pobre, o feio, o esquisito, o diferente… Muitas vezes a gente vê isso acontecer e não fala nada. E às vezes nem imagina que isso possa ser crime. Mas é.

8 – Violência

O vizinho bate no filho, o amigo bate na mulher. Às vezes até um parente nosso se envolve numa briga boba que termina mal… É difícil lidar com isso, a gente tem medo de denunciar, acaba não falando nada, não fazendo nada. Às vezes a gente até sente alívio porque dessa vez não foi tão grave, comparada com as outras… A gente acha menos grave porque é tão absurdo e violento o que se vê por aí que acaba achando quase normal uma pessoa bater em outra. Não é.

9 – Constrangimento

Sabe aquele cara que acha que pode mexer com a mulherada no ônibus? Ou o universitário que dá trote, a torcida organizada que faz barbaridades, o policial que abusa da autoridade, o filhinho de papai que queima o mendigo… Às vezes só quando alguém morre numa situação dessas é que a gente se dá conta do absurdo que é as pessoas agirem assim, como se fossem melhores que os outros… Parecem até donos do mundo. Mas não são.

10 – Intolerância

Tem gente que gosta de viver de uma maneira que a gente acha errada. Tem gente que acredita piamente em coisas que a gente acha um absurdo. Toda hora a gente tem que conviver com o que a gente não concorda. Difícil é a gente se dar conta de que o outro lado também sente a mesma coisa, também não concorda com a gente, também tem que fazer esforço pra entender e conviver com a gente. Também não deve ser fácil. O que não dá pra entender é a pessoa que parte pra ignorância, como se o seu modo de vida fosse o único certo. Não é.

Crônica da Sexta – Prazeres de Salvador

Li essa semana um delicioso post no blog do Ricardo Freire, onde ele ressucitou um texto antigo sobre o Rio para gringos. Lembrei que uma vez também escrevi para gringos sobre uma cidade brasileira, pra uma revista mexicana de turismo diferenciado. Era sobre Salvador no verão, especialmente no carnaval. A revista convocou não-jornalistas estrangeiros para falar do lugar em seu país que mais gosta de ir em férias. Escolhi Salvador. Procurei o texto e achei ele bem atual. Voilá:

foto Robério Braga

SALVADOR DA BAHIA

Quem conhece o Brasil, sabe que estar na Bahia é diferente. O Brasil tem milhares de lugares lindos, mas a Bahia parece mais. O Brasil é todo muito musical, mas a Bahia é ainda mais. O carnaval é uma explosão de alegria em todos os cantos do Brasil. Na Bahia, é mais. O brasileiro em geral é muito acolhedor, muito simpático, muito receptivo. Mas o baiano é especial. Estar na Bahia é diferente. O tempo é mais calmo, o vento é mais fresco, os olhares são mais penetrantes, os sabores são mais intensos, os sorrisos são mais fortes. O baiano se esparrama, se espalha, se sobra. A Bahia é generosa. O baiano retribui. Nenhum estado do Brasil e talvez nenhum lugar do mundo produz tantos artistas empenhados em reverenciar sua terra. Na música, na literatura, na pintura, na fotografia, no cinema. O baiano se retrata, se cultua, se cultiva. O baiano se adora. E contagia o resto do mundo. Nós, não-baianos, temos orgulho do orgulho que o baiano tem de si.

Os prazeres do verão

A temperatura em Salvador, mesmo no mais rigoroso inverno, nunca desce abaixo do ameno. Mas quando o verão começa a se aproximar a temperatura externa aos corpos começa a atingir níveis perigosos. Então acontece a mágica – a temperatura interna explode, a cidade inteira começa a entrar numa espécie de transe coletivo que só vai arrefecer lá para março, quando o calor começa a querer voltar para perto daquele ameno que na verdade ainda é quente, muito quente. Pode-se dizer que Salvador é quente o ano todo. Em todos os sentidos. Mas é no verão que qualquer amarra que ainda poderia existir some num piscar de olhos. É impossível não se entregar à festa, à alegria e à sensualidade de Salvador no verão. Não se assuste se aquele seu amigo mais calmo, mais tranquilo, mais tímido, de repente entre num estado de excitação nunca antes experimentado. Acontece em Salvador. Quando nos damos conta já fomos atingidos, já estamos contaminados, já somos alegres, felizes e, sobretudo, dispostos. É uma alegria descobrir que sim, nossa energia é suficiente para acompanhar tamanha festa.
Saber onde ir também não é problema. A rede de informações que se forma em Salvador no verão é muito eficiente. Não apenas governo e prefeitura se esforçam ao máximo para que todo mundo encontre seu programa, sua turma, sua tribo, mas também o boca a boca corre solto: quando a festa está terminando aqui, já está começando ali – e todo mundo sabe, todo mundo vai, todo mundo cabe. Esta é uma das características mais simpáticas de Salvador, a capacidade que a cidade tem de nos absorver. É muito comum ver alguém sair do hotel de manhã para dar uma voltinha rápida antes do almoço e só voltar na manhã do dia seguinte. Em Salvador uma coisa puxa a outra, uma festa se encaixa na outra, um programa é continuação de outro. E o melhor de tudo é deixar-se levar. Afinal, estamos em férias. É muito bom entregar-se a Salvador e sentir que a cidade sempre responde, sempre acolhe.

Os prazeres da música

Sempre tem um tambor batendo em Salvador, inclusive quando a gente quer dormir. Mas isso não é problema, porque uma das primeiras e principais decisões que se dever tomar em Salvador é justamente a de dormir quando der. Faz barulho em Salvador no verão. É uma enorme profusão de ritmos, de vozes, de cantos. No carnaval todos os sons se misturam, quase não dá para ver de onde vem cada um. Mas se você prestar atenção vai descobrir que os sons são diferentes. Tem o axé-music, que é o que toca na maioria dos trio elétricos do carnaval. Tem os tambores dos blocos afro, que batem tão forte que parece que ressoam dentro de nós. Impossível permanecer parado. Tem o samba de roda, que é bem baiano, dançado principalmente nos terreiros de candomblé em homenagem aos orixás. É lindo de ver, gostoso de participar, agradável de se escutar. Tem um sem-número de shows de cantores populares brasileiros pelos quatro cantos da cidade. Tem de tudo. Na Bahia tem música para todo lado, o tempo todo.

Os prazeres do olhar

A vista mais linda é quando você desce a Avenida do Contorno em direção à Cidade Baixa e de repente… uau… aquela visão da Bahia de Todos os Santos, da Cidade Baixa, o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo, as marinas, a ilha de Itaparica, tudo assim tão arrumadinho no seu campo de visão que parece que alguém passou antes para colocar tudo no lugar. Dá vontade de descer do carro e ficar ali admirando a generosidade com que aquele pedaço do mundo foi concebido e com que delicadeza os homens se aproveitaram do bom humor do criador. É de onde melhor se percebe que Salvador é uma cidade de dois andares, a Cidade Alta e a Cidade Baixa.
Na Cidade Alta está o centro histórico, o Pelourinho, bairro colonial recuperado que foi declarado pela UNESCO patrimônio histórico e artístico da humanidade e é muito charmoso, muito agradável, além de concentrar toda a sorte de bares, restaurantes, lojas de artesanato, apresentações de dança, capoeira, música, etc. O Pelourinho ficou tão perfeito com a recuperação que às vezes parece de mentira. Dessa nova ordem foram expulsos todos os ex-moradores do local, que concentrava pobres, prostitutas e bêbados em seus casarões históricos transformados em cortiços. Dizem que algo de seu charme se perdeu. Pode ser. Mas outros de seus charmes tomaram conta desse que hoje é o maior cartão postal da Bahia. É realmente um presente para os olhos ter acesso ao Pelourinho recuperado. Mas se sua curiosidade pedir, dê uma passeada pela parte não restaurada do Pelourinho. É preciso um pouco de cuidado e atenção, mas é onde está a outra Bahia, aquela que desde sempre é responsável por alimentar o imaginário popular e a mente de escritores, músicos, pintores e tantos artistas que fazem com que a Bahia tenha a fama que tem pelo mundo. A mistura de magia, sensualidade e calor tropical sustenta e dá fundamento a essa fama.
Na Cidade Baixa e na orca tem o Farol da Barra, a ponta de Mont Serrat, os Fortes, as igrejas do Bonfim e de São Francisco, o Rio Vermelho, o Solar do Unhão, o Mercado Modelo, as praias de mar aberto, o Elevador Lacerda. Tudo é muito bonito e vale, no mínimo, uma passada. Mas melhor mesmo é escolher o lugar que você mais gostou, dispensar o táxi e começar dali sua jornada pessoal, entrando no ritmo da cidade que acaba sempre levando você aos lugares que sempre quis ir, embora talvez ainda não tivesse se dado conta.

Os prazeres do mar

Se o assunto é mar, você já deve ter ouvido falar do mar da Bahia. Cantado em inúmeras músicas, personagem de muitos livros, o mar da Bahia tem uma mística que corre o mundo. É fácil tirar a prova. Vá ao bairro do Rio Vermelho e pare em frente ao largo de Santana. Sente em frente à praia de onde saem os pescadores que se concentram ali. Sinta a maresia, observe o movimento dos barcos e das ondas quebrando nas pedras. Sinta, cheire, escute, veja. Entenda a Bahia a partir de seu mar.
(Se este programa lhe parecer demasiado melancólico para quem está em pleno carnaval, atravesse a rua, busque uma mesinha no largo e observe o mar enquanto desfruta dos prazeres do acarajé e da cerveja gelada que é programa obrigatório, animadíssimo e ainda por cima tem vista para justamente este pedaço do mar).

Outro programa delicioso é bom como puro prazer ou como cura-ressaca depois de pular o carnaval. A praia do Porto da Barra propicia um excelente banho noturno, com águas calmas, mornas e limpas. A praia é iluminada e segura, e o banho de mar é realmente um agrado para o corpo e um carinho para a alma. É a melhor pedida entre a farra e a cama.

Os prazeres mundanos e profanos – o Carnaval

No Brasil o carnaval vai de sábado à terça feira, dura oficialmente 4 dias. Em Salvador começa na quinta feira, portanto oficialmente de lá tem duração de 6 dias. Oficialmente. Mas em Salvador nada é assim tão oficial. Uns acham que o carnaval começa já em dezembro, junto com o verão. Outros, mais conservadores, acham que o carnaval começa no sábado anterior à quinta feira do começo oficial. Mas a briga boa mesmo é determinar quando termina o carnaval. Sabe-se que na quarta feira de cinzas já deveria ter terminado tudo. A igreja pede que os foliões se recolham, se acalmem e comecem a se dedicar à quaresma. Nada mais de carnaval. Chega de folia. Mas quarta feira que horas? Cada ano estica-se um pouquinho mais o final do carnaval. Os foliões parecem criança em dia de Natal que às vezes não quer dormir para ver se a alegria dura mais, dura para sempre. Em Salvador a noite de terça feira não termina nunca. A quarta feira amanhece, as pessoas fingem que não percebem e continuam pulando. Anos atrás a farra terminava lá pelas 8 horas da manhã, depois começou a ir até às 10, depois meio dia. Hoje em dia ninguém vai para casa antes das 2 da tarde. O bispo reclama, os padres ficam bravos, todo ano a mesma coisa. Mas o pessoal continua achando que se ainda não dormiu é porque ainda não é amanhã. E se ainda não é quarta feira de cinzas, então ainda não acabou o carnaval. E se não acabou, não é pecado.

Crônica da Sexta – Afilhados

Na semana passada escrevi aqui sobre minha madrinha e sobre como um ovo de páscoa dourado e gigante dado por ela fora de época, marcou a minha vida. Nessa semana inevitavelmente meu pensamento vagou sobre meus afilhados. Tenho três. Um me chegou pelo caminho normal. O segundo por um caminho meio torto. O terceiro (terceira) por um caminho completamente torto. Daniel é meu querido e amado sobrinho. Meu irmão escolheu a mim como madrinha e a mulher dele escolheu o irmão como padrinho. Caminho normal. O segundo, Iuri, é filho da minha amiga da vida inteira, Beatriz. Mas ela escolheu outra amiga pra ser a madrinha. Fiquei meio bem chateada, mas aguentei firme, calada, estóica. Não sei exatamente que caminhos o destino encontrou pra consertar um erro ainda não sacramentado, mas um dia tudo mudou e Bibi me liga dizendo que eu tinha que providenciar um batizado urgente pro meu novo afilhado, que tinha 5 anos e já era um pequeno herege aos olhos de Deus. Quem, eu? Mas desde quando eu sou a madrinha? Desde hoje. Aliás, do próximo sábado em diante, quando batizaremos o Iuri na cachoeira do seu sítio, à nossa maneira (tradução: vamos improvisar!). Bem, quem sou eu pra contrariar a ordem divina. Vamos batizar o heregezinho… Batizamos Iuri na cerimônia mais hilária que eu já presenciei, com ele apavorado com aquele mundo de água lhe caindo na cabeça, e eu e o Guto, o padrinho (vias normais: irmão da Bibi), criando na hora um texto muito complexo que tentava juntar água, pedrinhas, lama, amor e destino num único e longo discurso, enquanto o ex-pequeno herege trincava de frio. Iuri vem guardando as pedrinhas símbólicas do “batizado” por quase 14 anos, mas nunca mais na vida quis voltar àquela cachoeira.
Alice nasceu também da Bibi e do Caco, 7 anos depois. Como já era de se esperar, não fui escolhida madrinha. Bibi resolveu invovar e escolheu duas amigas pra batizar Alice. Duas madrinhas, ao invés de uma madrinha e um padrinho. Daí pensei, bom, se tem duas, pode ter três! Mas você já é madrinha do Iuri. Mas foi torto! Agora você pode compensar! Mas as madrinhas não vão gostar! E não gostaram mesmo… Mas eu venho insistindo. Não perco uma única oportunidade de dizer que sou madrinha dos dois filhos de Beatriz. De tanto que repeti isso, todos foram aceitando aos poucos. Alice, claro, foi a primeira. É demais mesmo ter três madrinhas. As outras madrinhas odeiam, mas já se conformaram. Bibi, Caco e Iuri gostam, porque já gostavam mesmo, somos e seremos amigos por toda essa vida, então que que custa, né?

Tenho sido uma madrinha não muito atenta às datas, mas tento compensar com uma ou outra intervenção bombástica em momentos especiais, conforme aprendi com minha própria madrinha.
Esses dias Alice anda triste, triste, porque morreu sua cachorrinha, companheira de toda a sua vida. Acho que vou mandar um ovo de páscoa dourado e gigante pra ela.


Tentando capturar um menino apavorado pra “batizar” e convencer que pedrinhas são o símbolo máximo do compromisso entre padrinhos e afilhados. (clique para ampliar)

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Lô Politi

Blog pra falar (originalmente) de cinema, tv e publicidade. Mas agora tem também crônicas, viagens e aleatórios...

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