Meu anfitrião em Marrakesh, Antoine Gély, mandou esse trecho do filme “O Homem que Sabia Demais”, de Alfred Hitchcock. Vendo o filme, um dos que eu mais gosto do Hitchcock, me deu a sensação de que, por mais percalços que se possa passar num país de cultura tão diferente da nossa, é muito enriquecedor estar aberto a novos estímulos. Vendo agora, já com uma certa distância, chego a conclusão que o Marrocos é um país imperdível e que Marrakesh é uma das cidades mais interessantes que já visitei na vida. Agora, esquecendo um ou outro aborrecimento, o que ficou realmente grudado na minha mente foi a sensação de estar num lugar único no mundo – a praça Jemâa el Fna, o souk, os aromas, os Hammans, as ruelas da Medina, os restaurantes e Riads inacreditáveis escondidos dentro dos muros, a confusão árabe-africana que dá um verdadeiro nó na nossa mente ocidental.
Veja que delícia a cena do filme… pena que James Stewart e Doris Day fizeram tudo em estúdio nesse Chroma-Key meio podre que tenta, em vão, convencer a gente que eles estão lá em Marrakesh. Pena pra eles… perderam!
Arquivo para a categoria '6. viagem'
Crônica da Sexta – Finalizando Marrocos
Publicado 19/02/2010 r 5. crônica da sexta , 6. viagem 2 ComentáriosTags:Hitchcock, Marrakesh, Marrocos, viagem
Crônica da Sexta – Marrocos, parte 2 – o tapete, o berbere e a otária
Publicado 22/01/2010 r 5. crônica da sexta , 6. viagem 4 ComentáriosTags:deserto, Marrakech, Marrocos, Saara, viagem
Tudo no Marrocos é bem barato. Menos o meu tapete. Participei de uma negociação ferrenha, desumana, da qual saí exausta, como se tivesse negociado minha própria alma para salvar a vida da minha mãe, por exemplo. Ou quem sabe mesmo a vida do Brad Pitt, figura que não me saiu da memória desde que cruzei as ruelas da vilazinha onde filmaram Babel, no meio do deserto. Enfim, voltando, mamãe e Brad passam bem, mas eu realmente quase desfaleci na frente do cidadão berbere que tentava me vender o tapete mais lindo que meus olhos já viram. Numa cidadela escondida pela poeira do deserto, no meio do mais completo nada, numa casa sem placas, com segurança na entrada, onde te servem até almoço – já contando com a fortuna que a pessoa, despreparada e deslumbrada, deixará nas mãos negras do árabe mais sedutor que eu já conheci. Testemunhas relatam que eu fui brava, firme, sóbria. Eu mesma me senti uma escolhida de Alá para cuidar pra sempre daquela peça de rara beleza que o mundo árabe me oferecia. No auge da negociação o sujeito manda todo mundo sair, fecha a porta, tranca, e me encara. Let’s talk seriously. Uau. Caneta e papel na mão. Como deve ser. Como deve ter sido nos velhos tempos, em todos os tempos, seja no deserto, nas Arábias, em Constantinopla, nas ruas de Nova York, na feirinha da Liberdade, ou onde quer que seja que os bravos vem negociando nos últimos milênios. Desistir é para os fracos. Não para mim e o imenso negro árabe que se avolumava na minha frente a cada lance do lápis desapontado sobre o papel de pão. E eu negociei. E argumentei. E barganhei. E suei. E me descabelei. E quase chorei. Mas comprei. Por 40% do preço inicial. Sorrimos um para o outro, eu e aquele inacreditável Morgan Freeman do deserto. Eu, cúmplice, inspirada, arrematei: Me ensine a enrolar esse pano na minha cabeça que eu lhe respeitarei pelo resto dos meus dias. Ça serait un grand plaisir, madame. Agora somos irmãos.
Dias depois, em Marrakesh, entro na mais cara loja de tapetes que encontro. Na mesmíssima mis-en-scene (fecha a porta, tranca, “let’s talk seriously”, pega o lápis e o papel de pão e negocia) um tapete quase exatamente igual ao que eu comprei já começou a ser negociado pela metade do preço. A metade dos 40%, o preço a que eu cheguei depois de viver uma vida de lágrimas, suor e sangue dentro daquela “casas fortaleza” árabe com aquela Whoopi Goldberg subsaariana. Devia estar com um olhar tão triste ao me despedir do vendedor que ele nem tentou levar aquela negociação em frente.
Ao chegar em casa e abrir o tapete, percebo um emboladinho numa das pontas. Tipo um nó de lã embaraçada. Tento arrumar. O nó se desfaz. A lã também. E assim vai se desfazendo cada um dos pontos daquele tapete, pontos dados pelos ancestrais daquele Luiz Melodia de turbante, que me enganou no meio do deserto, mesmo sobre a alma de minha mãe e de Brad Pitt. E ainda dividimos o mesmo pano enrolado sobre nossa cabeças. Ali, sobre o tapete em decomposição, finalmente sentei e quase chorei. Quase, porque chorar é para os fracos.
Eu, me deixando seduzir por pouco, muito pouco:




Semana que vem: Marrocos, parte 3 – a última.
Leia também “Marrocos, parte 1 – gatos, camelos, mobiletes, dib dib rek aha…” aqui.
Crônica da Sexta – Marrocos, parte 1 – gatos, camelos, mobiletes, dib dib rek aha…
Publicado 15/01/2010 r 5. crônica da sexta , 6. viagem 8 ComentáriosTags:deserto, Essaouira, Marrakesh, Marrocos, Saara, viagem
Dois dias até o deserto, saindo de Marrakesh. 4×4 alugado com motorista. Esquemão. Carro confortável, Youssef, o motorista, um gentleman. A cada 5 músicas, colocava a sua preferida: Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha – Ismaël Lô (um primo distante?) na caixa, música ótima – bom, pelo menos nas 15 primeiras vezes… Paisagem desertificada já no primeiro metro de estrada. Imediatamente entramos no Alto Atlas, deslumbrante, friozinho, pôr-do-sol. Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha. Delícia. Pernoite no caminho deslumbrante, oásis, vales verdinhos, palmeirais. Finalmente, o deserto. Ao longe, as dunas. Sol batendo deitado na areia, contra um céu azulzinho, uma cor indescritível. Dibi dibi rek, aha, dibi dibi rek aha.
De repente, uma criança na beira da estrada se joga na pista com um animalzinho na mão. Que isso??? Um tigrinho? Um leãozinho? Um gatinho orelhudo? Sim, um gatinho orelhudo, o lemouche, gato selvagem do deserto. E o que ele quer? Vender! O que, o gatinho? Não, a olhada no gatinho? Hã? Você olha o gatinho e paga o menino. Ah…Dibi dibi rek aha…
Camelo, final da tarde, lua cheia nascendo nas dunas. Duas horas de camelada deserto adentro, chegamos nas prometidas “tendas berberes”, onde passaríamos a noite comendo, bebendo e ouvindo música do deserto… Hum… cara de roubada… bom, na chuva pra se queimar! A luz de velas não deixa que nos atenhamos aos detalhes, mas peraí, quantas cordas tem no violão do berbere cantor? Hã? Duas? E esse tapetes árabes, não estão meio parecendo colchão de espuma de vítimas de enchente? Bom, deixa eu usar a lanterninha do iphone pra ver a tenda-dormitório… ali, né? Ah… CCCCHHHHRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!! Nossa! Que isso??? Puxa você assustou os gatinhos! Dispersou o ninho que estava bem em cima do colchão de vítimas de desabamento que você ia dormir! Ah, puxa, que pena. Alguém topa voltar de camelo agora, super legal, duas da manhã, lua cheia no deserto…?
a cilada… descubra o gatinho restante…




Depois do Deserto, Essaouira. Linda medina sobre um mar selvagem, paisagem deslumbrante, sardinha recém-pescada grelhada no porto, um clima mediterrâneo no meio do atlântico, euro-árabe, um lugar especialérrimo. Riad de charme (Les Terráces de Essaouira, delicioso), café da manhã no terraço sobre a medina e o mar, uma coisa de louco. Quase se esquece que está no Marrocos, um país árabe (e pobre), onde todo mundo quer negociar tudo o tempo todo. Tudo tem um preço e tudo é negociável. Mesmo que você não queira, mesmo que você não tenha sequer olhado pro que a pessoa quer vender. Todo o tempo você tem a impressão de estar sendo enganado. E no final conclui que está, de fato.
Situação-emblema: Picada de inseto estranho, reação alérgica fortíssima. Procuro farmácia, não tem. Pergunto na rua, finalmente encontro alguém que cobra pra me indicar o local. Vira num beco, outro, outro, entra numa galeria, meio mercado, meio feira, ali junto com o açougue, atrás do boi pendurado, um balcão. Algumas caixas de remédio, escritas em árabe. Preciso de remédio pra alergia. O sujeito aponta uma caixa, cujo nome está meio apagado, mas mesmo que não estivesse de nada adiantaria. É árabe. E pra que é esse remédio? Pra você. Mas pra que serve? Pro que você tem. E o que eu tenho? Você que deve saber. Ok, obrigada, au revoir. Um momento! Quanto você quer pagar por ele? Amigo, deixa pra lá, já melhorei só de olhar pro remédio. Estou ótima.
Deixo pra comprar o remédio em Marrakesh.
Ah, Marrakesh. O melhor e o pior lugar do mundo. A praça mais incrível do planeta, um final de tarde memorável com o sol refletindo os picos nevados do Atlas e as luzes dos vendedores de comida se acendendo numa muvuca inacreditável onde se esbarram pessoas, carrinhos de mão, encantadores de serpente, vendedores de suco de laranja, tatuadoras de henna, charretes, turistas do mundo todo, crianças se ofereçendo de guia, gatos pra todo lado e muita, mas muita mobilete.
Nunca vi tanta mobilete.
Jantar do outro lado da medina. Taxi. Mini-taxi, porque só os pegeouzinhos cabem nas vielas apertadíssimas da medina de Marrakesh. O motorista sai feito um louco, quase (quase é uma palavra que, nesse caso, não exprime o lapso mínimo de tempo pra se escapar de acidentes fatais ou quase-por-pouco-muito-pouco-meeeesmo fatais) atropelando um sem-número de crianças, velhos, gatos, galinhas, burricos, mobiletes, motos, bicicletas, enfim, tudo, todos, sem direção, sem mão, sem espaço. E o motorista lá, alucinado, como no videogame do seu sobrinho. Toca o celular. Onde está o celular? Ah, embaixo do tapete (?) que cobre o painel (???), mas precisa revirar tudo, né? Ah, e o óculos pra ler o numerinho do celular? Na bolsa embaixo do banco… Ah… Senhor, não é melhor parar o carro? Ele reage em árabe, misturado com duas ou três palavrinhas de francês, como se isso de fato bastasse, e entedemos que ele precisa atender o celular e marcar algo num papelzinho que ele não acha enquanto quase mata a nós e aos desavisados das ruelas de Marrakech. Ok, senhor, tudo bem, mas olhe pra frente, por favor. Ele agora briga com o interlocutor, desliga o telefone muito bravo, guarda os óculos, busca os outros (pra ver de longe?), lembra de brigar mais um pouquinho, procura novamente o celular embaixo do tapete do painel (???????), troca de novo os óculos pra ler os numerinhos, briga mais um pouquinho, quase mata mais 17. Não falamos mais nada, porque assim, pelo menos, ele se mantém voltado pra frente.
Semana que vem conto mais. Uma negociação bérbere no meio do deserto, um hamman imperdível em Marrakesh, um jantar inesquecível em Essaouira e a descoberta de que o tapete mais especial, mais lindo, mais dos deuses do Marrocos (e portanto o mais caro…) se desfez na mala, dentro do avião, antes de chegar em casa…
Durante a espera, clique aqui e imagine-se cruzando o deserto do Saara, ouvindo Dibi Dibi Rek, com Ismaël Lô:
Crônica da Sexta – Prazeres de Salvador
Publicado 04/12/2009 r 5. crônica da sexta , 6. viagem Deixar um ComentárioTags:Bahia, carnaval, Salvador, viagem
Li essa semana um delicioso post no blog do Ricardo Freire, onde ele ressucitou um texto antigo sobre o Rio para gringos. Lembrei que uma vez também escrevi para gringos sobre uma cidade brasileira, pra uma revista mexicana de turismo diferenciado. Era sobre Salvador no verão, especialmente no carnaval. A revista convocou não-jornalistas estrangeiros para falar do lugar em seu país que mais gosta de ir em férias. Escolhi Salvador. Procurei o texto e achei ele bem atual. Voilá:
SALVADOR DA BAHIA
Quem conhece o Brasil, sabe que estar na Bahia é diferente. O Brasil tem milhares de lugares lindos, mas a Bahia parece mais. O Brasil é todo muito musical, mas a Bahia é ainda mais. O carnaval é uma explosão de alegria em todos os cantos do Brasil. Na Bahia, é mais. O brasileiro em geral é muito acolhedor, muito simpático, muito receptivo. Mas o baiano é especial. Estar na Bahia é diferente. O tempo é mais calmo, o vento é mais fresco, os olhares são mais penetrantes, os sabores são mais intensos, os sorrisos são mais fortes. O baiano se esparrama, se espalha, se sobra. A Bahia é generosa. O baiano retribui. Nenhum estado do Brasil e talvez nenhum lugar do mundo produz tantos artistas empenhados em reverenciar sua terra. Na música, na literatura, na pintura, na fotografia, no cinema. O baiano se retrata, se cultua, se cultiva. O baiano se adora. E contagia o resto do mundo. Nós, não-baianos, temos orgulho do orgulho que o baiano tem de si.
Os prazeres do verão
A temperatura em Salvador, mesmo no mais rigoroso inverno, nunca desce abaixo do ameno. Mas quando o verão começa a se aproximar a temperatura externa aos corpos começa a atingir níveis perigosos. Então acontece a mágica – a temperatura interna explode, a cidade inteira começa a entrar numa espécie de transe coletivo que só vai arrefecer lá para março, quando o calor começa a querer voltar para perto daquele ameno que na verdade ainda é quente, muito quente. Pode-se dizer que Salvador é quente o ano todo. Em todos os sentidos. Mas é no verão que qualquer amarra que ainda poderia existir some num piscar de olhos. É impossível não se entregar à festa, à alegria e à sensualidade de Salvador no verão. Não se assuste se aquele seu amigo mais calmo, mais tranquilo, mais tímido, de repente entre num estado de excitação nunca antes experimentado. Acontece em Salvador. Quando nos damos conta já fomos atingidos, já estamos contaminados, já somos alegres, felizes e, sobretudo, dispostos. É uma alegria descobrir que sim, nossa energia é suficiente para acompanhar tamanha festa.
Saber onde ir também não é problema. A rede de informações que se forma em Salvador no verão é muito eficiente. Não apenas governo e prefeitura se esforçam ao máximo para que todo mundo encontre seu programa, sua turma, sua tribo, mas também o boca a boca corre solto: quando a festa está terminando aqui, já está começando ali – e todo mundo sabe, todo mundo vai, todo mundo cabe. Esta é uma das características mais simpáticas de Salvador, a capacidade que a cidade tem de nos absorver. É muito comum ver alguém sair do hotel de manhã para dar uma voltinha rápida antes do almoço e só voltar na manhã do dia seguinte. Em Salvador uma coisa puxa a outra, uma festa se encaixa na outra, um programa é continuação de outro. E o melhor de tudo é deixar-se levar. Afinal, estamos em férias. É muito bom entregar-se a Salvador e sentir que a cidade sempre responde, sempre acolhe.
Os prazeres da música
Sempre tem um tambor batendo em Salvador, inclusive quando a gente quer dormir. Mas isso não é problema, porque uma das primeiras e principais decisões que se dever tomar em Salvador é justamente a de dormir quando der. Faz barulho em Salvador no verão. É uma enorme profusão de ritmos, de vozes, de cantos. No carnaval todos os sons se misturam, quase não dá para ver de onde vem cada um. Mas se você prestar atenção vai descobrir que os sons são diferentes. Tem o axé-music, que é o que toca na maioria dos trio elétricos do carnaval. Tem os tambores dos blocos afro, que batem tão forte que parece que ressoam dentro de nós. Impossível permanecer parado. Tem o samba de roda, que é bem baiano, dançado principalmente nos terreiros de candomblé em homenagem aos orixás. É lindo de ver, gostoso de participar, agradável de se escutar. Tem um sem-número de shows de cantores populares brasileiros pelos quatro cantos da cidade. Tem de tudo. Na Bahia tem música para todo lado, o tempo todo.
Os prazeres do olhar
A vista mais linda é quando você desce a Avenida do Contorno em direção à Cidade Baixa e de repente… uau… aquela visão da Bahia de Todos os Santos, da Cidade Baixa, o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo, as marinas, a ilha de Itaparica, tudo assim tão arrumadinho no seu campo de visão que parece que alguém passou antes para colocar tudo no lugar. Dá vontade de descer do carro e ficar ali admirando a generosidade com que aquele pedaço do mundo foi concebido e com que delicadeza os homens se aproveitaram do bom humor do criador. É de onde melhor se percebe que Salvador é uma cidade de dois andares, a Cidade Alta e a Cidade Baixa.
Na Cidade Alta está o centro histórico, o Pelourinho, bairro colonial recuperado que foi declarado pela UNESCO patrimônio histórico e artístico da humanidade e é muito charmoso, muito agradável, além de concentrar toda a sorte de bares, restaurantes, lojas de artesanato, apresentações de dança, capoeira, música, etc. O Pelourinho ficou tão perfeito com a recuperação que às vezes parece de mentira. Dessa nova ordem foram expulsos todos os ex-moradores do local, que concentrava pobres, prostitutas e bêbados em seus casarões históricos transformados em cortiços. Dizem que algo de seu charme se perdeu. Pode ser. Mas outros de seus charmes tomaram conta desse que hoje é o maior cartão postal da Bahia. É realmente um presente para os olhos ter acesso ao Pelourinho recuperado. Mas se sua curiosidade pedir, dê uma passeada pela parte não restaurada do Pelourinho. É preciso um pouco de cuidado e atenção, mas é onde está a outra Bahia, aquela que desde sempre é responsável por alimentar o imaginário popular e a mente de escritores, músicos, pintores e tantos artistas que fazem com que a Bahia tenha a fama que tem pelo mundo. A mistura de magia, sensualidade e calor tropical sustenta e dá fundamento a essa fama.
Na Cidade Baixa e na orca tem o Farol da Barra, a ponta de Mont Serrat, os Fortes, as igrejas do Bonfim e de São Francisco, o Rio Vermelho, o Solar do Unhão, o Mercado Modelo, as praias de mar aberto, o Elevador Lacerda. Tudo é muito bonito e vale, no mínimo, uma passada. Mas melhor mesmo é escolher o lugar que você mais gostou, dispensar o táxi e começar dali sua jornada pessoal, entrando no ritmo da cidade que acaba sempre levando você aos lugares que sempre quis ir, embora talvez ainda não tivesse se dado conta.
Os prazeres do mar
Se o assunto é mar, você já deve ter ouvido falar do mar da Bahia. Cantado em inúmeras músicas, personagem de muitos livros, o mar da Bahia tem uma mística que corre o mundo. É fácil tirar a prova. Vá ao bairro do Rio Vermelho e pare em frente ao largo de Santana. Sente em frente à praia de onde saem os pescadores que se concentram ali. Sinta a maresia, observe o movimento dos barcos e das ondas quebrando nas pedras. Sinta, cheire, escute, veja. Entenda a Bahia a partir de seu mar.
(Se este programa lhe parecer demasiado melancólico para quem está em pleno carnaval, atravesse a rua, busque uma mesinha no largo e observe o mar enquanto desfruta dos prazeres do acarajé e da cerveja gelada que é programa obrigatório, animadíssimo e ainda por cima tem vista para justamente este pedaço do mar).
Outro programa delicioso é bom como puro prazer ou como cura-ressaca depois de pular o carnaval. A praia do Porto da Barra propicia um excelente banho noturno, com águas calmas, mornas e limpas. A praia é iluminada e segura, e o banho de mar é realmente um agrado para o corpo e um carinho para a alma. É a melhor pedida entre a farra e a cama.
Os prazeres mundanos e profanos – o Carnaval
No Brasil o carnaval vai de sábado à terça feira, dura oficialmente 4 dias. Em Salvador começa na quinta feira, portanto oficialmente de lá tem duração de 6 dias. Oficialmente. Mas em Salvador nada é assim tão oficial. Uns acham que o carnaval começa já em dezembro, junto com o verão. Outros, mais conservadores, acham que o carnaval começa no sábado anterior à quinta feira do começo oficial. Mas a briga boa mesmo é determinar quando termina o carnaval. Sabe-se que na quarta feira de cinzas já deveria ter terminado tudo. A igreja pede que os foliões se recolham, se acalmem e comecem a se dedicar à quaresma. Nada mais de carnaval. Chega de folia. Mas quarta feira que horas? Cada ano estica-se um pouquinho mais o final do carnaval. Os foliões parecem criança em dia de Natal que às vezes não quer dormir para ver se a alegria dura mais, dura para sempre. Em Salvador a noite de terça feira não termina nunca. A quarta feira amanhece, as pessoas fingem que não percebem e continuam pulando. Anos atrás a farra terminava lá pelas 8 horas da manhã, depois começou a ir até às 10, depois meio dia. Hoje em dia ninguém vai para casa antes das 2 da tarde. O bispo reclama, os padres ficam bravos, todo ano a mesma coisa. Mas o pessoal continua achando que se ainda não dormiu é porque ainda não é amanhã. E se ainda não é quarta feira de cinzas, então ainda não acabou o carnaval. E se não acabou, não é pecado.
Cuba! – Crônica da Sexta
Publicado 13/11/2009 r 5. crônica da sexta , 6. viagem 4 ComentáriosTags:crônica, Cuba, viagem

Quando comecei a dizer por aí que iria à Cuba, as pessoas reagiam de duas maneiras: ou me perguntavam o que eu iria fazer em Cuba ou me perguntavam para qual dos dois lugares eu iria, Varadero ou Cayo Largo. Aos primeiros eu respondia que iria passear, conhecer, viajar, essas coisas. É incrível como ir à Cuba pode parecer excêntrico para alguns. À turma de Varadero eu respodia que queria mesmo era conhecer Havana, Santiago de Cuba, Trinidad, cidades mais ligadas à cultura cubana do que Varadero e Cayo Largo que, na verdade, poderiam estar em qualquer lugar do Caribe, o fato de estarem em Cuba não faz a menor diferença. É um pecado ir à Ilha de Cuba sem passar por Cuba propriamente dito. Dá até para agregar ao roteiro mais cubano um pouco de praia e aí sim juntam-se todos os motivos do mundo para correr para lá. Vou até facilitar um pouco e listar alguns: Salsa. Cidades históricas. Fidel Castro. Mojitos. Buena Vista Social Club. Che Guevara. Caribe. Daiquiri. Elián. Mais? A hospitalidade. As pessoas. A música. A dança. A alegria. A beleza. Ainda mais? O tempo que parece parado em 1959. Os carros americanos antigos. A arquitetura intacta. Só um pouquinho mais: A curiosidade histórica. O testemunho. Uma ilha comunista perdida no meio do Caribe. O único país comunista do ocidente. Se você não se convenceu, o.k., parta imediatamente para Cancún. Mas se você se interessou, corra, porque essa mistura de ilha caribenha com socialismo soviético, que faz de Cuba um lugar tão especial nesse mundo, está com seus dias contados. Duas ameaças vêm crescendo: o turismo internacional e a implacável finitude humana, que um dia chegará também a Fidel Castro, ainda que muitos por ali desconfiem disso.
A ainda recente abertura de Cuba para o turismo vem conseguindo tirar o país da miséria absoluta em que havia se transformado a vida dos cubanos com a queda da União Soviética, em 1991. A boa notícia para nós é que agora existe uma estrutura para o turismo cada vez melhor, com hotéis espetaculares dos anos 40 e 50 completamente restaurados, carros em bom estado e de todos os tipos para alugar, taxis, restaurantes, uma ou outra lojinha, coisas que, até então, nem pensar. A má notícia é que, como em tantos lugares do mundo, o turismo massificado descaracteriza os lugares mais pitorescos, as cadeias internacionais erguem hotéis imensos sem nenhuma preocupação com a interferência na harmonia da arquitetura local, e a voracidade em relação aos dólares estraga um pouco o contato humano – coisas que, no caso de Cuba, podem fazer muita diferença. Por isso é preciso correr. Cuba não vai acabar, mas com certeza vai mudar muito. E algo de seu charme deve se perder.

Música e dança
Algum cubano vai lhe tirar para dançar em alguma ocasião. Disso não se tem dúvida. A dúvida é se você vai fazer charminho, ficar com vergonha ou dizer que não sabe dançar. Não faça isso. A dança e a música em Cuba são a base da comunicação. Todo mundo dança, todo mundo canta, quase todo mundo toca algum instrumento. Não é uma ofensa recusar-se a dançar, mas é um desperdício. Aquele povo é animado, se você está dançando bem ou mal é o que menos importa. Importante é que é através da música que a gente se joga de verdade na cultura cubana. Ouve-se música o tempo todo, de ótima qualidade, em qualquer buraco, nos lugares próprios para show, nas casas de música, nas ruas, nos restaurantes, em qualquer lugar. E onde tem música tem gente dançando, até nos espaços mais exíguos, mesmo quando não há espaço algum, os cubanos sempre acham um jeito de dançar. E com a moda do Buena Vista Social Club ficou ainda melhor, porque resgatou-se em Cuba o “son”, ritmo tradicional cubano que deu origem, por exemplo, à salsa e à rumba. É muito gostoso de dançar, de olhar, de escutar a música. E no final das contas uma coisa sempre leva a outra e quando se vê já temos novos amigos, já experimentamos o mojitos, o daiquiri, já estamos integrados, já somos praticamente cubanos. E felizes.
A revolução
Que atire a primeira pedra quem nunca se emocionou com aquela foto histórica de Che Guevara mirando o infinito revolucionário. Quem nunca teve uma boina com estrelinha. Quem nunca se deixou seduzir, ao menos um pouquinho, seja pelo carisma de Fidel, seja pelos ideais de Che Guevara. Ou no mínimo pela beleza daqueles homens quase adolescentes tão idealistas que, como todos nós, um dia sonharam com uma sociedade mais justa. A diferença é que nós seguimos pela vida real. Eles fizeram a revolução.

A revolução está por todo lado. São cartazes pelas ruas com palavras de ordem ou citações, outdoors nas estradas com fotos enormes de heróis da revolução, Fidel falando na TV sem parar, jornais totalmente tendenciosos, um verdadeiro bombardeio diário que tenta manter nos cubanos o espírito revolucionário. O que não tem sido fácil para eles, governo ou povo. Mas para nós, turistas, é muito curioso. Não há como não se envolver com aquilo, quando a gente se dá conta já conhece detalhes da revolução, já se apaixonou por um tal de Camilo Cienfuegos (herói revolucionário muito popular em Cuba e injustiçado pela história no resto do mundo), já está se programando para subir a Sierra Maestra a pé, só para saber como se sentiram os companheiros Che, Fidel, Camilo, Arturo… Isso sem falar no massacre interrogativo a que submetemos qualquer cubano que chega perto de nós. Como se vive com 4 dólares por mês? Você concorda com o sistema? Esse táxi é seu? Você não tem vontade de sair? Como é a escola, a feira, o Natal, o comércio, o cinema, sua vida, seu bairro, seu lazer, a cor da sua casa, o nome da sua filha. O cubano, embora um pouco tonto com tanta pergunta, responde com alegria, gentileza e, muitas vezes, orgulho. Quando a gente acha que está começando a entender, um Elián sorridente beija Fidel Castro enquanto outro Elián desesperado morre afogado numa dessas balsinhas primitivas tentando chegar à Flórida. Não adianta. É um outro mundo, difícil de entender se não pertencemos a ele, se nunca vivemos algo sequer parecido. Mais difícil ainda de julgar. Mas, na verdade, não precisa. Para eles é bom que o planeta tenha mais curiosidade sobre Cuba. Para nós, mesmo sem entender, tentar já é um prazer.

Os Cubanos
Tia Blanquita ligava para nosso hotel dia sim dia não para saber se estávamos bem, se precisávamos de alguma coisa, se estávamos gostando de Havana e se realmente não queríamos tomar um café em sua casa. Não, não iríamos porque sabemos das dificuldades das famílias cubanas, não queríamos dar trabalho e muito menos despesa. Tia Blanquita quase chorou. Fomos. Demos trabalho e despesa. Comemos, bebemos, rimos, dançamos, tiramos fotos, passamos horas com aquela família, teve lágrima na despedida, foi uma farra. Você me pergunta: afinal, quem é essa tia Blanquita? Vou dizer: A irmã da mãe do marido de uma amiga de uma aluna de uma das pessoas que viajava conosco e que levou lembranças do Brasil para a distante tia Blanquita e sua família, que nos recebeu a todos como príncipes. Assim são os cubanos.
( A parte chata da simpatia cubana é lidar com o pessoal que quer te vender charuto falsificado ou prestar serviços sexuais. Outros querem mesmo é casar com você, para poder sair legalmente do país. Da primeira turma é fácil de se livrar com uma negativa firme e educada. Do pessoal mais casadoiro dá para passar da primeira etapa deixando claro que você não está a fim, ele vai relaxar e você pode partir para a segunda etapa: você já tem um amigo cubano, agora saia para se divertir! )

Havana
Tem muita gente que acha Havana parecida com Salvador, na Bahia, ou pelo menos com o Pelourinho. Pode ser, especialmente Havana Velha que, como o Pelourinho, tem uma pequena parte restaurada e o resto caindo aos pedaços. A grande diferença é que a parte não restaurada de Havana está exatamente como estava antes da revolução, em 1959. Nenhuma mão de tinta passou por ali nos últimos 42 anos, nenhuma casa foi demolida para dar lugar à uma mais nova, nada saiu do lugar. E esse é o grande charme de Havana. Em qualquer lugar que se ande, descobre-se construções maravilhosas, dos anos 50, do começo do século, do século passado. O fato de estar caindo aos pedaços dá um ar de cidade fantasma parada no tempo que, em contraponto ao tanto de vida que tem em Havana, faz da cidade algo único no mundo. Passear pelas ruas, deixar-se perder pela cidade e entregar-se de corpo e alma aos prazeres e às belezas que a cidade esconde é a única maneira de gostar de Havana. Se você não se deixar envolver, vai achar que Havana é uma cidade pobre e detonada, apenas. Mas se você se deixar levar, vai descobrir uma cidade nem tão pobre, nem tão detonada e muito, mas muito especial.

Outras Paradas
Do outro lado da Ilha, rodeada pela Sierra Maestra e debruçada sobre o Mar do Caribe, está Santiago de Cuba, berço da revolução e da música. Sentiu? É obrigatório. É uma cidade pequena, autêntica, acolhedora, onde se faz amigos em mais ou menos 1 minuto e meio. No dia seguinte você encontra seus amigos pela rua, sem querer. Já são quase parentes. Tem muita música, muito passeio para fazer e uma geografia bastante generosa. Além da linda Sierra Maestra, onde pode-se optar por um turismo ecológico ou histórico. Ou os dois ao mesmo tempo, como por exemplo subindo à pé as trilhas abertas pelos combatentes revolucionários.
Trinidad é uma cidade colonial muitíssimo bem preservada, declarada pela UNESCO patrimônio histórico da humanidade, um lugar lindo. Diferente de outras cidades históricas no mundo, Trinidad não tem lojinhas, não tem cartazinhos de publicidade, quase nào há descaracterizações de seu projeto original, o que por si só já é uma raridade e uma razão forte para se visitar a cidade. Como bônus, você pode ficar hospedada numa praia à 12 km da cidade, com total infra-estrutura para esportes aquáticos, mergulho, vela, etc. É a península de Alcón, marzinho azul, areia bem branquinha, uma autêntica praia caribenha, próxima de um autêntico centro histórico. O que mais se pode querer?
De carro, partindo de Havana para o leste, dá para se divertir bastante. Têm as praias do Leste, muito boas para passar o dia, a vinte minutos de Havana. Um pouco mais adiante está Varadero, se você realmente fizer questão… Para o oeste, perto de Pinãr del Río, está Viñales, na Serra dos Órgãos. Uma região agrícola linda de morrer onde se cultiva o tabaco, cheia de pequenas vilas muito charmosas e com um clima serrano agradabilíssimo. Se quiser saber mais sobre charutos, existem por ali fábricas e plantações de tabaco abertas à visitação.
Uma semana fora e nenhum post! Mas estive a metros de Brad Pitt e Tarantino…
Publicado 22/09/2009 r 2. cinema e TV , 6. viagem , 7. aleatórios 3 ComentáriosTags:brad pitt, cinema, festival de cinema, tarantino
Passei uma semana desfrutando de um final de verão chuvoso na Espanha e na França. O mais próximo que cheguei de pensar em trabalho, cinema, filmagens e tal, foi ter sido obrigada a parar meu carrinho no meio da rua em San Sebastian para dar passagem ao carrão que trazia Brad Pitt do aeroporto ao Hotel Maria Cristina – onde Tarantino já o esperava pra coletiva de “Inglorious Bastards”, que passaria naquela noite no Festival de Cinema de San Sebastian. Achei que isso já estava bom pra mim em termos de cinema, festival e tal, e segui reto pra desfrutar do verão chuvoso em Biarritz que, embora pareça uma cidade eternamente em festival de cinema, não havia nada que me lembrasse trabalho. A não ser uma ressaca fabulosa no mar feroz que fez de Biarritz, pra mim, uma das cidades mais cinematográficas que eu já visitei na vida.
Bom, tudo isso pra tentar amenizar o fato de que estava de férias e não postei nada no blog durante esses dias. Prometo compensar.



Biarritz cinematográfica 1

Biarritz cinematográfica 2






