Tênue a linha que divide a inspiração da referência ou da cópia. A publicidade vive de referências. Além do quê, o publicitário é auto-referente, se alimenta principalmente de publicidade – sites, revistas, anuários, festivais, prêmios, a maior fonte de inspiração dos publicitários, infelizmente, é a própria publicidade. Incluo na categoria, além dos criativos, os diretores, fotógrafos, designers, enfim, todo mundo que pensa criativamente dentro da publicidade. Daí que a possibilidade de se “criar” algo em cima de uma referência que ele viu é enorme, mesmo que eventualmente ele mesmo não se dê conta. Nosso cérebro guarda e processa informações que um dia voltam ao mundo de algum jeito. Às vezes em forma de uma lembrança, realmente. Outras, levemente modificadas, como um pensamento inédito, uma idéia. Mas muitas vezes não são. Difícil julgar a idoneidade de alguém que apresenta uma idéia muito parecida com outra, se foi coincidência, se foi uma fatalidade ou se foi mau-caratismo mesmo…
O fato é que a semelhança de uma peça com outra pode se dar por 3 vias: Inspiração, referência ou cópia.
A inspiração é altamente saudável. Vemos algo que nos fascina, não necessariamente da nossa área de atuação, e nos deixamos influenciar por aquela experiência. Pode ser um filme, um quadro, uma música, um dia bonito, um sorriso.
Aquilo acaba fazendo parte da nossa formação, da nossa constituição, diz algo de quem somos, da razão pela qual estamos nesse mundo. E, como faz parte da gente, faz parte do que em nós cria o que criamos. Inspiração.
A refererência é parte da dor e delícia de viver num mundo globalizado. Temos acesso a tudo. Tudo! Sempre existe algo que se assemelha ao que queremos mostrar ou dizer. E a publicidade se apropriou desse expediente de forma irreversível. Como todo o processo envolve muito dinheiro, não se pode errar. A combinação entre as partes (principalmente com os clientes) do que vai ser feito tem que ser muito precisa, pra que não se arrisque o investimento. Como ilustrar e exemplificar o que vai ser feito de forma precisa se ainda não fizemos o trabalho? Ora, usando o trabalho dos outros. Assim simples. Vamos ao cliente com um monte de referências, usando o trabalho dos outros pra tentar fazer com que ele entenda o que nós queremos fazer. Pronto, está sacramentada a contaminação. Todos ali se alimentam daquilo. Por mais que se tente, não conseguimos mais nos descontaminar. Nem no trabalho que estamos fazendo naquele momento, nem nos posteriores. Vemos tanto aquela referência, falamos tanto sobre ela, discutimos tanto, que pra sempre ela fica impregnada na nossa mente. E, se está impregnada, acaba vazando no nosso trabalho. Mesmo sem que a gente queira, mesmo quando não nos damos conta.
A cópia se dá em várias situações, inclusive nessa citada acima, a apresentação de referências. Às vezes o cliente pede que façamos exatamente como a referência, pois ele já viu e já gostou daquilo, não quer arriscar que se mude o que ele já aprovou. Mesmo sendo uma peça que já existe, e que não é dele. Cria-se uma saia justa difícil de se resolver. E muitas vezes resolve-se pela cópia, mesmo, ainda que tente se dar o nome de referência. Não é. É cópia. E, pior, às vezes nem é o cliente que pede, é o realizador ou o criador mesmo que não consegue usar a referência pelo seu lado bom, a inspiração, e só consegue usá-la pelo seu lado ruim, a cópia.
Precisamos ampliar nossas referências, pra que elas sirvam como inspirações. Sair do universo em que atuamos e buscar alimento em universos mais amplos. Quanto mais aberta nossa mente ao novo, ao diferente, ao diverso, mais ela se amplia e mais espaço haverá para que as informações se processem e, ao se trasformarem dentro da nossa mente, consigam voltar ao mundo em forma de algo que seja de fato nosso, com a nossa marca, com a nossa mão, com a nossa alma.