Trimmmmmmmmm. Lô? Humpf… Lô? Acorda! O Caco foi sequestrado pelas FARC! Hã? Tô indo praí. Trimmmmmmmmmmmmm. Lô? Hãããnnnmm. Acorda!!! Caco está jurado de morte! Se eu morrer, você cuida do meu filho? Quê? Trimmmmmmmmm. Lô? Bibi, não posso falar ag… Lô! Vem já pra cá, precisamos tirar o Caco do país agora! Você pega o Iuri em casa?

Minha vida com Beatriz tem sido assim nos últimos 20 e poucos anos, desde que ela se casou com o Caco. Minha melhor amiga de todos os tempos era ela mesma candidata a jornalista naquela época e dividia com todas as estudantes de jornalismo do Brasil uma paixão desenfreada pelo gatíssimo repórter da TV que, além de lindo, era destemido, corajoso, discreto, inteligente e muito, muito correto. Nunca conheci ninguém com um comportamento tão reto como o Caco. Nunca. A figura dele na TV transparece essa, sobre todas as suas inúmeras qualidades. Mas também transparece outras tantas. Bibi foi irreversivelmente fisgada pelas mais sedutoras delas e marcou de entrevistá-lo (ahã…) pra um trabalho da faculdade (nos ultra-românticos jardins da Fundação Maria Luiza e Oscar Americano… hummm…) e os dois se conheceram e se apaixonaram. Desde então tenho sido coadjuvante no roteiro de um filme de ação que não para nunca. Beatriz acabou mudando do jornalismo pra moda e hoje é Bibi Barcellos, estilista das mais sofisticadas, graças a Deus. Pelo menos alguém tem parada nessa família. Porque antes de conhecer o Caco, ela já tinha me envolvido em programas bem tranquilos do tipo investigar e perseguir pelas ruas uma quadrilha que criava vira-latas sarnentos pra abater e vender a carne (!!!), ou ir pro instituto médico legal analizar provas de um crime horrendo, ou percorrer delegacias em busca de alguém que ela suspeitava poder ajudá-la em alguma investigação. Programa bom de fazer com uma amiga quando você quer apenas tomar um café com ela pra matar as saudades… Enfim, era claro e óbvio que Bibi deveria casar com Caco, como também era claro e óbvio que um dia um dos dois deveria mudar de vida e, graças a Deus, Beatriz sossegou o facho e passou a lidar com agulhas, rendas e tecidos. Ufa. Eu agradeço. Os dois filhos deles também. As noivas do país inteiro que tem seus vestidos preciosamente confeccionados por ela também.

Mas outro tipo de desassossego passou a nos perturbar. Onde está seu marido agora? Bom, 99% das minhas amigas responderiam: no trabalho, no futebol, no bar com os amigos. Não Beatriz. As respostas dela são do seguinte naipe: Incomunicável na Amazônia. Acampado na Cracolândia há 3 dias. Na guerra do Golfo. Sequestrado na floresta da Colômbia. Não sei dele há 5 dias, desde que embarcou num monomotor a procura de traficantes na Bolívia… Meu Deus! Não é exagero. Na verdade é muito pior, porque além de tudo Caco escreveu alguns livros que são um tremendo sucesso mas que algumas pessoas não muito amigáveis acharam meio ruim e isso deixa nosso herói em permanente estado de vigilância. Mas Bibi, que se apavorava no começo, hoje lida com isso com tremendo jogo de cintura. Confia no Caco, confia na vida dos dois, na história que eles fizeram. E também com o tempo ele tem sido um pouco, bem pouco, mais precavido. Ultimamente se dedica principalmente a dividir seu talento e seu conhecimento com uma nova geração de “Cacos” – que mostra toda terça-feira na TV seu talento descoberto pelo mestre, sinalizando que podem um dia, inclusive, superá-lo. Graças à rara generosidade do Caco, que levanta a bola pra que os pupilos cortem. E eles cortam. E muito bem. Juntos eles fazem o que é, na minha opinião, o melhor programa da televisão aberta dos últimos tempos.

Semana passada Caco fez 60 anos e se permitiu comemorar com os amigos de toda uma vida. Ocasião rara pra quem quase nunca tem a oportunidade de vê-lo relax, fora da exaustiva rotina de herói nacional que é o dia a dia dele, sem folga, sem final de semana, sem tempo pra nada. E estava ele lá, lindo como sempre, suave como sempre, sorridente e interessado nas pessoas como sempre. E deu a impressão que todos os jornalistas vivos estavam lá. Dos mais velhos, que todos se levantam pra receber, aos mais novos, colegas dele do programa atual, que dançaram até as 5 da manhã. Além dos filhos e os amigos dos filhos, dos amigos e os filhos dos amigos, editores, diretores, amigos do futebol, da TV, da vida. Caco fez 60 anos. Como muito propriamente alcunhou o Casseta: Gato Barcellos, do Bonitão Reporter. Macrobiótico, atleta, gente boa e coração grande, Caco será uma espécie de Niemeyer do jornalismo, tanto em longevidade quanto em relevãncia na profissão que o escolheu.

Caco é herói nacional e meu herói particular. Todas as vezes que sinto que algo está difícil no meu trabalho, ou que eu não tenho tempo pra alguma coisa importante, lembro do Caco e tomo vergonha na cara. Morro de orgulho dele. De ser amiga dele, quase cunhada. De ser madrinha de dois filhos dele. De ser fã, espectadora e leitora assídua de tudo que ele faz. De compartilhar a vida e a família com ele por tantos e deliciosos anos. De quase não vê-lo, porque ele está ocupado salvando e mudando o mundo. Se eu conheço alguém que ajuda a mudar esse mundo, esse cara é o Caco. Meu amigo Caco. Gato Barcellos.
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