Li essa semana um delicioso post no blog do Ricardo Freire, onde ele ressucitou um texto antigo sobre o Rio para gringos. Lembrei que uma vez também escrevi para gringos sobre uma cidade brasileira, pra uma revista mexicana de turismo diferenciado. Era sobre Salvador no verão, especialmente no carnaval. A revista convocou não-jornalistas estrangeiros para falar do lugar em seu país que mais gosta de ir em férias. Escolhi Salvador. Procurei o texto e achei ele bem atual. Voilá:
SALVADOR DA BAHIA
Quem conhece o Brasil, sabe que estar na Bahia é diferente. O Brasil tem milhares de lugares lindos, mas a Bahia parece mais. O Brasil é todo muito musical, mas a Bahia é ainda mais. O carnaval é uma explosão de alegria em todos os cantos do Brasil. Na Bahia, é mais. O brasileiro em geral é muito acolhedor, muito simpático, muito receptivo. Mas o baiano é especial. Estar na Bahia é diferente. O tempo é mais calmo, o vento é mais fresco, os olhares são mais penetrantes, os sabores são mais intensos, os sorrisos são mais fortes. O baiano se esparrama, se espalha, se sobra. A Bahia é generosa. O baiano retribui. Nenhum estado do Brasil e talvez nenhum lugar do mundo produz tantos artistas empenhados em reverenciar sua terra. Na música, na literatura, na pintura, na fotografia, no cinema. O baiano se retrata, se cultua, se cultiva. O baiano se adora. E contagia o resto do mundo. Nós, não-baianos, temos orgulho do orgulho que o baiano tem de si.
Os prazeres do verão
A temperatura em Salvador, mesmo no mais rigoroso inverno, nunca desce abaixo do ameno. Mas quando o verão começa a se aproximar a temperatura externa aos corpos começa a atingir níveis perigosos. Então acontece a mágica – a temperatura interna explode, a cidade inteira começa a entrar numa espécie de transe coletivo que só vai arrefecer lá para março, quando o calor começa a querer voltar para perto daquele ameno que na verdade ainda é quente, muito quente. Pode-se dizer que Salvador é quente o ano todo. Em todos os sentidos. Mas é no verão que qualquer amarra que ainda poderia existir some num piscar de olhos. É impossível não se entregar à festa, à alegria e à sensualidade de Salvador no verão. Não se assuste se aquele seu amigo mais calmo, mais tranquilo, mais tímido, de repente entre num estado de excitação nunca antes experimentado. Acontece em Salvador. Quando nos damos conta já fomos atingidos, já estamos contaminados, já somos alegres, felizes e, sobretudo, dispostos. É uma alegria descobrir que sim, nossa energia é suficiente para acompanhar tamanha festa.
Saber onde ir também não é problema. A rede de informações que se forma em Salvador no verão é muito eficiente. Não apenas governo e prefeitura se esforçam ao máximo para que todo mundo encontre seu programa, sua turma, sua tribo, mas também o boca a boca corre solto: quando a festa está terminando aqui, já está começando ali – e todo mundo sabe, todo mundo vai, todo mundo cabe. Esta é uma das características mais simpáticas de Salvador, a capacidade que a cidade tem de nos absorver. É muito comum ver alguém sair do hotel de manhã para dar uma voltinha rápida antes do almoço e só voltar na manhã do dia seguinte. Em Salvador uma coisa puxa a outra, uma festa se encaixa na outra, um programa é continuação de outro. E o melhor de tudo é deixar-se levar. Afinal, estamos em férias. É muito bom entregar-se a Salvador e sentir que a cidade sempre responde, sempre acolhe.
Os prazeres da música
Sempre tem um tambor batendo em Salvador, inclusive quando a gente quer dormir. Mas isso não é problema, porque uma das primeiras e principais decisões que se dever tomar em Salvador é justamente a de dormir quando der. Faz barulho em Salvador no verão. É uma enorme profusão de ritmos, de vozes, de cantos. No carnaval todos os sons se misturam, quase não dá para ver de onde vem cada um. Mas se você prestar atenção vai descobrir que os sons são diferentes. Tem o axé-music, que é o que toca na maioria dos trio elétricos do carnaval. Tem os tambores dos blocos afro, que batem tão forte que parece que ressoam dentro de nós. Impossível permanecer parado. Tem o samba de roda, que é bem baiano, dançado principalmente nos terreiros de candomblé em homenagem aos orixás. É lindo de ver, gostoso de participar, agradável de se escutar. Tem um sem-número de shows de cantores populares brasileiros pelos quatro cantos da cidade. Tem de tudo. Na Bahia tem música para todo lado, o tempo todo.
Os prazeres do olhar
A vista mais linda é quando você desce a Avenida do Contorno em direção à Cidade Baixa e de repente… uau… aquela visão da Bahia de Todos os Santos, da Cidade Baixa, o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo, as marinas, a ilha de Itaparica, tudo assim tão arrumadinho no seu campo de visão que parece que alguém passou antes para colocar tudo no lugar. Dá vontade de descer do carro e ficar ali admirando a generosidade com que aquele pedaço do mundo foi concebido e com que delicadeza os homens se aproveitaram do bom humor do criador. É de onde melhor se percebe que Salvador é uma cidade de dois andares, a Cidade Alta e a Cidade Baixa.
Na Cidade Alta está o centro histórico, o Pelourinho, bairro colonial recuperado que foi declarado pela UNESCO patrimônio histórico e artístico da humanidade e é muito charmoso, muito agradável, além de concentrar toda a sorte de bares, restaurantes, lojas de artesanato, apresentações de dança, capoeira, música, etc. O Pelourinho ficou tão perfeito com a recuperação que às vezes parece de mentira. Dessa nova ordem foram expulsos todos os ex-moradores do local, que concentrava pobres, prostitutas e bêbados em seus casarões históricos transformados em cortiços. Dizem que algo de seu charme se perdeu. Pode ser. Mas outros de seus charmes tomaram conta desse que hoje é o maior cartão postal da Bahia. É realmente um presente para os olhos ter acesso ao Pelourinho recuperado. Mas se sua curiosidade pedir, dê uma passeada pela parte não restaurada do Pelourinho. É preciso um pouco de cuidado e atenção, mas é onde está a outra Bahia, aquela que desde sempre é responsável por alimentar o imaginário popular e a mente de escritores, músicos, pintores e tantos artistas que fazem com que a Bahia tenha a fama que tem pelo mundo. A mistura de magia, sensualidade e calor tropical sustenta e dá fundamento a essa fama.
Na Cidade Baixa e na orca tem o Farol da Barra, a ponta de Mont Serrat, os Fortes, as igrejas do Bonfim e de São Francisco, o Rio Vermelho, o Solar do Unhão, o Mercado Modelo, as praias de mar aberto, o Elevador Lacerda. Tudo é muito bonito e vale, no mínimo, uma passada. Mas melhor mesmo é escolher o lugar que você mais gostou, dispensar o táxi e começar dali sua jornada pessoal, entrando no ritmo da cidade que acaba sempre levando você aos lugares que sempre quis ir, embora talvez ainda não tivesse se dado conta.
Os prazeres do mar
Se o assunto é mar, você já deve ter ouvido falar do mar da Bahia. Cantado em inúmeras músicas, personagem de muitos livros, o mar da Bahia tem uma mística que corre o mundo. É fácil tirar a prova. Vá ao bairro do Rio Vermelho e pare em frente ao largo de Santana. Sente em frente à praia de onde saem os pescadores que se concentram ali. Sinta a maresia, observe o movimento dos barcos e das ondas quebrando nas pedras. Sinta, cheire, escute, veja. Entenda a Bahia a partir de seu mar.
(Se este programa lhe parecer demasiado melancólico para quem está em pleno carnaval, atravesse a rua, busque uma mesinha no largo e observe o mar enquanto desfruta dos prazeres do acarajé e da cerveja gelada que é programa obrigatório, animadíssimo e ainda por cima tem vista para justamente este pedaço do mar).
Outro programa delicioso é bom como puro prazer ou como cura-ressaca depois de pular o carnaval. A praia do Porto da Barra propicia um excelente banho noturno, com águas calmas, mornas e limpas. A praia é iluminada e segura, e o banho de mar é realmente um agrado para o corpo e um carinho para a alma. É a melhor pedida entre a farra e a cama.
Os prazeres mundanos e profanos – o Carnaval
No Brasil o carnaval vai de sábado à terça feira, dura oficialmente 4 dias. Em Salvador começa na quinta feira, portanto oficialmente de lá tem duração de 6 dias. Oficialmente. Mas em Salvador nada é assim tão oficial. Uns acham que o carnaval começa já em dezembro, junto com o verão. Outros, mais conservadores, acham que o carnaval começa no sábado anterior à quinta feira do começo oficial. Mas a briga boa mesmo é determinar quando termina o carnaval. Sabe-se que na quarta feira de cinzas já deveria ter terminado tudo. A igreja pede que os foliões se recolham, se acalmem e comecem a se dedicar à quaresma. Nada mais de carnaval. Chega de folia. Mas quarta feira que horas? Cada ano estica-se um pouquinho mais o final do carnaval. Os foliões parecem criança em dia de Natal que às vezes não quer dormir para ver se a alegria dura mais, dura para sempre. Em Salvador a noite de terça feira não termina nunca. A quarta feira amanhece, as pessoas fingem que não percebem e continuam pulando. Anos atrás a farra terminava lá pelas 8 horas da manhã, depois começou a ir até às 10, depois meio dia. Hoje em dia ninguém vai para casa antes das 2 da tarde. O bispo reclama, os padres ficam bravos, todo ano a mesma coisa. Mas o pessoal continua achando que se ainda não dormiu é porque ainda não é amanhã. E se ainda não é quarta feira de cinzas, então ainda não acabou o carnaval. E se não acabou, não é pecado.


