Acabo de receber o primeiro tratamento de Jonas e Baleia, escrito pelo Elcio Verçosa. Até agora vínhamos trabalhando em cima de uma sequência de escaletas, já quase realmente um roteiro, apenas sem os diálogos. A última escaleta já tinha quase 100 páginas. Agora, enquanto escrevo, escuto a impressora se esforçar pra imprimir 144 páginas.
Fizemos inúmeras reuniões que duravam, cada uma, cerca de inacreditáveis 8 horas seguidas, pra meu desespero, que sofro de rodinhas nos pés. Mas a cada versão da escaleta chegávamos mais perto do que é o filme que pretendo fazer.
É preciso ter fé e resistência pra ver um roteirista convidado desenvolver a sua história, pro filme que você vai dirigir. Ainda mais quando o argumento é original e saiu das suas entranhas e pelas suas mãozinhas. É um tremendo exercício de desprendimento, cada reunião esgota tanto que parece uma luta. Mas é a maior delícia do mundo perceber que alguém incorporou a sua história. E desenvolveu. E melhorou.
Nas nossas reuniões tínhamos que defender à exaustão nossos pontos de vista, nossas idéias, nossa visão do filme. Foi dificílimo pra mim, a história nasceu e se desenvolveu na minha cabeça, era muito difícil acreditar que alguém, ainda por cima tão diferente de mim, pudesse compreender aquele universo tão específico que é um filme imaginado dentro da nossa cabeça.
Mas fomos em frente, com todos os riscos que sabíamos estar correndo.
Chegou a primeira escaleta. Era um excelente filme. Mas não o meu filme. Não o filme que eu queria fazer.
Lemos juntos, discutimos, quase brigamos. Mas chegamos, depois de sangue, suor e lágrimas, num lugar comum. Se o processo não teve literalmente esses três elementos, era exatamente sobre o significado deles no nosso filme que discutíamos exaustivamente. Não poderia ser fácil…
Veio a segunda escaleta. Dormiu no meu criado mudo por dias, antes que eu tivesse coragem de ler. Tinha certeza que não gostaria. Ou pior, que gostaria do roteiro porque o Elcio escreve inacreditavelmente bem, mas que não seria o roteiro do filme que eu gostaria de fazer. Como dizer isso a ele, depois de tanto trabalho?
Um dia tomei coragem e li… Adorei. No final nossas diferenças serviram pra enriquecer a história, tornar os personagens mais interessantes, profundos, ricos. Ainda divergimos em alguns pontos, mas foi com um prazer enorme que eu cedi em várias das minhas crenças e ele reviu grande parte das dele. Somos os dois teimosos e alguns pontos ainda serão um embate, mas desconfio que isso seja uma estratégia involuntária dos dois pra manter a tensão de um roteiro em desenvolvimento, melhorando a cada versão.
Bem, já está impresso o primeiro tratamento que acabo de receber, feito em cima da escaleta sobre a qual estamos concordes. Dessa vez não dormirá um dia sequer sobre meu criado mudo.




