
Quando comecei a dizer por aí que iria à Cuba, as pessoas reagiam de duas maneiras: ou me perguntavam o que eu iria fazer em Cuba ou me perguntavam para qual dos dois lugares eu iria, Varadero ou Cayo Largo. Aos primeiros eu respondia que iria passear, conhecer, viajar, essas coisas. É incrível como ir à Cuba pode parecer excêntrico para alguns. À turma de Varadero eu respodia que queria mesmo era conhecer Havana, Santiago de Cuba, Trinidad, cidades mais ligadas à cultura cubana do que Varadero e Cayo Largo que, na verdade, poderiam estar em qualquer lugar do Caribe, o fato de estarem em Cuba não faz a menor diferença. É um pecado ir à Ilha de Cuba sem passar por Cuba propriamente dito. Dá até para agregar ao roteiro mais cubano um pouco de praia e aí sim juntam-se todos os motivos do mundo para correr para lá. Vou até facilitar um pouco e listar alguns: Salsa. Cidades históricas. Fidel Castro. Mojitos. Buena Vista Social Club. Che Guevara. Caribe. Daiquiri. Elián. Mais? A hospitalidade. As pessoas. A música. A dança. A alegria. A beleza. Ainda mais? O tempo que parece parado em 1959. Os carros americanos antigos. A arquitetura intacta. Só um pouquinho mais: A curiosidade histórica. O testemunho. Uma ilha comunista perdida no meio do Caribe. O único país comunista do ocidente. Se você não se convenceu, o.k., parta imediatamente para Cancún. Mas se você se interessou, corra, porque essa mistura de ilha caribenha com socialismo soviético, que faz de Cuba um lugar tão especial nesse mundo, está com seus dias contados. Duas ameaças vêm crescendo: o turismo internacional e a implacável finitude humana, que um dia chegará também a Fidel Castro, ainda que muitos por ali desconfiem disso.
A ainda recente abertura de Cuba para o turismo vem conseguindo tirar o país da miséria absoluta em que havia se transformado a vida dos cubanos com a queda da União Soviética, em 1991. A boa notícia para nós é que agora existe uma estrutura para o turismo cada vez melhor, com hotéis espetaculares dos anos 40 e 50 completamente restaurados, carros em bom estado e de todos os tipos para alugar, taxis, restaurantes, uma ou outra lojinha, coisas que, até então, nem pensar. A má notícia é que, como em tantos lugares do mundo, o turismo massificado descaracteriza os lugares mais pitorescos, as cadeias internacionais erguem hotéis imensos sem nenhuma preocupação com a interferência na harmonia da arquitetura local, e a voracidade em relação aos dólares estraga um pouco o contato humano – coisas que, no caso de Cuba, podem fazer muita diferença. Por isso é preciso correr. Cuba não vai acabar, mas com certeza vai mudar muito. E algo de seu charme deve se perder.

Música e dança
Algum cubano vai lhe tirar para dançar em alguma ocasião. Disso não se tem dúvida. A dúvida é se você vai fazer charminho, ficar com vergonha ou dizer que não sabe dançar. Não faça isso. A dança e a música em Cuba são a base da comunicação. Todo mundo dança, todo mundo canta, quase todo mundo toca algum instrumento. Não é uma ofensa recusar-se a dançar, mas é um desperdício. Aquele povo é animado, se você está dançando bem ou mal é o que menos importa. Importante é que é através da música que a gente se joga de verdade na cultura cubana. Ouve-se música o tempo todo, de ótima qualidade, em qualquer buraco, nos lugares próprios para show, nas casas de música, nas ruas, nos restaurantes, em qualquer lugar. E onde tem música tem gente dançando, até nos espaços mais exíguos, mesmo quando não há espaço algum, os cubanos sempre acham um jeito de dançar. E com a moda do Buena Vista Social Club ficou ainda melhor, porque resgatou-se em Cuba o “son”, ritmo tradicional cubano que deu origem, por exemplo, à salsa e à rumba. É muito gostoso de dançar, de olhar, de escutar a música. E no final das contas uma coisa sempre leva a outra e quando se vê já temos novos amigos, já experimentamos o mojitos, o daiquiri, já estamos integrados, já somos praticamente cubanos. E felizes.
A revolução
Que atire a primeira pedra quem nunca se emocionou com aquela foto histórica de Che Guevara mirando o infinito revolucionário. Quem nunca teve uma boina com estrelinha. Quem nunca se deixou seduzir, ao menos um pouquinho, seja pelo carisma de Fidel, seja pelos ideais de Che Guevara. Ou no mínimo pela beleza daqueles homens quase adolescentes tão idealistas que, como todos nós, um dia sonharam com uma sociedade mais justa. A diferença é que nós seguimos pela vida real. Eles fizeram a revolução.

A revolução está por todo lado. São cartazes pelas ruas com palavras de ordem ou citações, outdoors nas estradas com fotos enormes de heróis da revolução, Fidel falando na TV sem parar, jornais totalmente tendenciosos, um verdadeiro bombardeio diário que tenta manter nos cubanos o espírito revolucionário. O que não tem sido fácil para eles, governo ou povo. Mas para nós, turistas, é muito curioso. Não há como não se envolver com aquilo, quando a gente se dá conta já conhece detalhes da revolução, já se apaixonou por um tal de Camilo Cienfuegos (herói revolucionário muito popular em Cuba e injustiçado pela história no resto do mundo), já está se programando para subir a Sierra Maestra a pé, só para saber como se sentiram os companheiros Che, Fidel, Camilo, Arturo… Isso sem falar no massacre interrogativo a que submetemos qualquer cubano que chega perto de nós. Como se vive com 4 dólares por mês? Você concorda com o sistema? Esse táxi é seu? Você não tem vontade de sair? Como é a escola, a feira, o Natal, o comércio, o cinema, sua vida, seu bairro, seu lazer, a cor da sua casa, o nome da sua filha. O cubano, embora um pouco tonto com tanta pergunta, responde com alegria, gentileza e, muitas vezes, orgulho. Quando a gente acha que está começando a entender, um Elián sorridente beija Fidel Castro enquanto outro Elián desesperado morre afogado numa dessas balsinhas primitivas tentando chegar à Flórida. Não adianta. É um outro mundo, difícil de entender se não pertencemos a ele, se nunca vivemos algo sequer parecido. Mais difícil ainda de julgar. Mas, na verdade, não precisa. Para eles é bom que o planeta tenha mais curiosidade sobre Cuba. Para nós, mesmo sem entender, tentar já é um prazer.

Os Cubanos
Tia Blanquita ligava para nosso hotel dia sim dia não para saber se estávamos bem, se precisávamos de alguma coisa, se estávamos gostando de Havana e se realmente não queríamos tomar um café em sua casa. Não, não iríamos porque sabemos das dificuldades das famílias cubanas, não queríamos dar trabalho e muito menos despesa. Tia Blanquita quase chorou. Fomos. Demos trabalho e despesa. Comemos, bebemos, rimos, dançamos, tiramos fotos, passamos horas com aquela família, teve lágrima na despedida, foi uma farra. Você me pergunta: afinal, quem é essa tia Blanquita? Vou dizer: A irmã da mãe do marido de uma amiga de uma aluna de uma das pessoas que viajava conosco e que levou lembranças do Brasil para a distante tia Blanquita e sua família, que nos recebeu a todos como príncipes. Assim são os cubanos.
( A parte chata da simpatia cubana é lidar com o pessoal que quer te vender charuto falsificado ou prestar serviços sexuais. Outros querem mesmo é casar com você, para poder sair legalmente do país. Da primeira turma é fácil de se livrar com uma negativa firme e educada. Do pessoal mais casadoiro dá para passar da primeira etapa deixando claro que você não está a fim, ele vai relaxar e você pode partir para a segunda etapa: você já tem um amigo cubano, agora saia para se divertir! )

Havana
Tem muita gente que acha Havana parecida com Salvador, na Bahia, ou pelo menos com o Pelourinho. Pode ser, especialmente Havana Velha que, como o Pelourinho, tem uma pequena parte restaurada e o resto caindo aos pedaços. A grande diferença é que a parte não restaurada de Havana está exatamente como estava antes da revolução, em 1959. Nenhuma mão de tinta passou por ali nos últimos 42 anos, nenhuma casa foi demolida para dar lugar à uma mais nova, nada saiu do lugar. E esse é o grande charme de Havana. Em qualquer lugar que se ande, descobre-se construções maravilhosas, dos anos 50, do começo do século, do século passado. O fato de estar caindo aos pedaços dá um ar de cidade fantasma parada no tempo que, em contraponto ao tanto de vida que tem em Havana, faz da cidade algo único no mundo. Passear pelas ruas, deixar-se perder pela cidade e entregar-se de corpo e alma aos prazeres e às belezas que a cidade esconde é a única maneira de gostar de Havana. Se você não se deixar envolver, vai achar que Havana é uma cidade pobre e detonada, apenas. Mas se você se deixar levar, vai descobrir uma cidade nem tão pobre, nem tão detonada e muito, mas muito especial.

Outras Paradas
Do outro lado da Ilha, rodeada pela Sierra Maestra e debruçada sobre o Mar do Caribe, está Santiago de Cuba, berço da revolução e da música. Sentiu? É obrigatório. É uma cidade pequena, autêntica, acolhedora, onde se faz amigos em mais ou menos 1 minuto e meio. No dia seguinte você encontra seus amigos pela rua, sem querer. Já são quase parentes. Tem muita música, muito passeio para fazer e uma geografia bastante generosa. Além da linda Sierra Maestra, onde pode-se optar por um turismo ecológico ou histórico. Ou os dois ao mesmo tempo, como por exemplo subindo à pé as trilhas abertas pelos combatentes revolucionários.
Trinidad é uma cidade colonial muitíssimo bem preservada, declarada pela UNESCO patrimônio histórico da humanidade, um lugar lindo. Diferente de outras cidades históricas no mundo, Trinidad não tem lojinhas, não tem cartazinhos de publicidade, quase nào há descaracterizações de seu projeto original, o que por si só já é uma raridade e uma razão forte para se visitar a cidade. Como bônus, você pode ficar hospedada numa praia à 12 km da cidade, com total infra-estrutura para esportes aquáticos, mergulho, vela, etc. É a península de Alcón, marzinho azul, areia bem branquinha, uma autêntica praia caribenha, próxima de um autêntico centro histórico. O que mais se pode querer?
De carro, partindo de Havana para o leste, dá para se divertir bastante. Têm as praias do Leste, muito boas para passar o dia, a vinte minutos de Havana. Um pouco mais adiante está Varadero, se você realmente fizer questão… Para o oeste, perto de Pinãr del Río, está Viñales, na Serra dos Órgãos. Uma região agrícola linda de morrer onde se cultiva o tabaco, cheia de pequenas vilas muito charmosas e com um clima serrano agradabilíssimo. Se quiser saber mais sobre charutos, existem por ali fábricas e plantações de tabaco abertas à visitação.