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Crônica da Sexta – Castanhas portuguesas pra madrinha cronista.

Vou aproveitar que hoje é sexta e eu tenho que colocar uma crônica aqui no blog, pra me exibir e desfilar de mãos dadas com minha madrinha Nina Horta, cronista da Folha das quintas-feiras, dona da melhor, mais saborosa e mais comovente coluna de jornal de todos os tempos. A crônica dela de ontem fala das castanhas portuguesas que colhi da árvore que plantei há anos, esperançosa de um quintal como o do meu desenho de criança, aquele que tem a montanha, o sol, a casinha e a árvore. A árvore do meu desenho de criança, descobri mais tarde, era uma castanheira.

Sempre fui louca pela castanheira, pela forma da castanheira. Sonhei a vida toda com esse quintal com uma única árvore em destaque, imperiosa e imponente, com uma sombra generosa que protegeria toalhas abertas de piquenique, raízes transformadas em bancos pra conversas lentas, redes amarradas em galhos grossos, enfim, uma árvore. A minha árvore.

Decidi que esse quintal seria o gramado do meu sítio (que já vem com montanha e sol), bem em frente à casa, para que eu pudesse olhar minha árvore todas as manhãs quando abrisse a porta.
Plantei várias, sucessivas e péssimas mudas. Entristeci todas as muitíssimas vezes que elas morreram até que uma delas, única, forte, linda, persistente, começou a se avolumar sobre o meu jardim, resultando na imensa castanheira que ano a ano vem superando qualquer expectativa que um dia eu tive em termos de árvore pra caber no meu desenhinho de criança. E as castanhas começaram a vir. No começo eram pequenas, murchas, feinhas mesmo. Mas tudo bem, eu queria era a árvore, né? Mas outro dia, depois de uma ausência de muitas semanas, cheguei ao sítio à noite. Ao abrir a porta de manhã, não pude acreditar no que vi. O chão em volta da árvore estava coberto de um imenso tapete de castanhas portuguesas. Grandes, parrudas, impressionantes.
Com o cesto da primeira colheita em minhas mãos me dei conta de algo que nunca tinha me ocorrido antes. Não gosto de castanhas. Gosto imensamente da castanheira, mas não gosto de castanhas. Em nenhuma forma, nem mesmo marron glacé.
E agora? Quem saberá apreciar verdadeiramente aquelas lindas castanhas, aquelas senhoras castanhas portuguesas, grandes e brilhantes? Quem nesse mundo terá a sensibilidade de olhar pra elas e sentir a importância de ter nas mãos frutos tão especiais, tão esperados, colhidos de uma árvore cultivada por anos e anos por conta da sua semelhança com um desenhinho de criança?

Tia Nina, que bom que não deixei que trocassem a minha madrinha. Sou eu mesma madrinha trocada de um menino que eu amo muito e adoro que ele tenha permitido (ou aceitado) a troca. Mas detestaria ler suas crônicas todas as quintas no jornal e pensar que aquelas palavras tão bem acomodadinhas no papel são escritas por alguém que poderia ser minha madrinha mas eu deixei que não fosse mais. Penso agora que cultivei tanto tempo essa castanheira, sem gostar propriamente de castanhas, provavelmente pra poder um dia entregá-las a você. E ler, nas suas palavras, histórias que dizem a mim quem eu sou.

(E não sei o que em mim me leva quase às lagrimas todas as vezes que eu leio em suas crônicas alguma menção à sua mãe ou ao se irmão. Dona Dulce tinha cabelos azuis e óculos amarelos e eu nunca, nunca esquecerei da figura elegantérrima e cultíssima que me salvou da ignorância e ainda me fez acreditar que eu mesma tinha alguma inteligência. Arthur um dia afastou os cabelos da minha cara adolescente, abriu bem meu rosto escondido, tímido, envergonhado, e me fez acreditar que ali tinha alguma beleza. Veja, a depender dos seus, seria um poço de segurança e bem estar. Linda e inteligente. Quem dera. De qualquer jeito, pra sempre em minha vida, quando estiver meio assim, meio insegura, terei sempre o recurso de evocar em minha mente qualquer um dos seus Guimarães)

Leia crônicas anteriores sobre minha madrinha aqui e meu afilhados aqui.

E a da minha madrinha, de ontem (clique sobre o texto pra ampliar):

ou no link pra quem tem UOL aqui.

Crônica da Sexta – Aos 13 anos – Bandeira Branca, amor…

Ele era meu sonho. Bonito, muito parecido com o John Travolta da época, aquele de Saturday Night Fever. Ia beijá-lo naquele dia, tinha certeza. Era Carnaval, festa no clube, a única noite do ano em que nos era permitido ficar numa festa até de manhã, com café da manhã incluído na programação. Aos 13 anos, isso significa muito. Eu fiquei a noite toda meio por perto, meio de olho, meio esperando. Primeiro ele dançou brevemente com minha melhor amiga, despertando em mim o primeiro rasgo do que mais tarde eu saberia se tratar de ciúme amoroso, o pior dos sentimentos. Mas depois ele dispersou e dançou com uma, dançou com outra, até que finalmente veio em minha direção. Puxou meu braço, me conduziu ao meio da pista, dançamos, dançamos. De repente, a marchinha de carnaval animada que nos fazia pular unidos apenas pelos olhos deu lugar a um breve silêncio. A orquestra em suspenção esperou que a cantora virasse a cabeça dramaticamente na nossa direção e entoasse, à capela, os verso que dali pra frente seriam mágica aos meus ouvidos: Bandeira Branca , amor… Não posso mais… Pela saudade que me invade eu peço paz… Laralaralaralarááá…. Ele aproximou seu corpo do meu, seus olhos dos meus, sua boca da minha. E nos beijamos. Uma, duas, muitas vezes. A noite inteira.
Muitas marchinhas de carnaval depois, o dia raiou e a magia estremeceu. Todos na beira da piscina, se empurrando alegremente pra água, transformando em coletivo aquela que foi minha primeira noite a dois. Ele se deixou levar, soltando minha mão pro que seria o resto das nossas vidas. Disso eu ainda não sabia. Mas temia. E, de fato, deu-se. Passei semanas, meses, embalando meus sonhos com os versos de Bandeira Branca, esperando ele voltar de umas férias na praia que nunca terminariam.

Trinta anos depois, eu disse TRINTA anos depois, recebo um telefonema daquela minha melhor amiga da infância, que dançou com ele rapidamente antes de mim e que, em seguida, foi testemunha dos meus intermináveis suspiros que duraram o tempo que deve durar a primeira decepção amorosa. Tinha recebido um email de alguém que ela não via havia muito tempo, não se lembrava direito, mas sobre quem tinha uma única certeza: Nunca foi seu namorado. O email dizia: Minha primeira namorada, nunca esqueci aquele Carnaval…

Ok, foi mais importante pra mim do que pra ele. Mas puxa, não saber direito qual das duas amigas ele pegou? Francamente. Deve ter se separado e, numa reação típica e previsível, buscou o caderno de ex-namoradas e começou pela primeira da lista. No caso eu, essa eu que tanto faz se era ela ou eu. Bem, o John Travolta era mesmo meio cafona…

Crônica da Sexta – Aos 12 anos

Sonia, Sonia! Soniaaaaa! Que foi, mãe? Tô no banho! Vem ver o que sua madrinha aprontou! Corre! Puxa, minha madrinha! Uau! O que é isso tão dourado? O porta-malas do carro estava aberto e lá dentro uma massa dourada refletia a luz do sol e ofuscava os olhos de quem saía pra rua. Pega você, disse o tio Silvio, meu padrinho, que aparecia de tempos em tempos com uma surpresinha mandada pela minha madrinha… O negócio era enorme, redondo e dourado. Mas é pesado? Será que eu aguento? Ah, não se preocupa, é oco por dentro… Oco por dentro? O que é isso, meu Deus. Comecei a puxar aquela monstruosidade de dentro do carro, não era muito pesado, mas era enorme, redondo e sem alças, difícil de tirar do porta-malas. Minha mãe estava agitadíssima. Acabou se atirando na frente e, não se contendo, puxou pra fora aquela bola de fogo com tamanha ansiedade que tio Silvio foi obrigado a se jogar na frente. É frágil, Cecília, cuidado, não pode cair no chão que quebra. Quebra? Oco por dentro… frágil… dourado… redondo… peraí. Não é exatamente redondo… é oval… nooooossa, parece um ovo de páscoa gigante! Ei… isso É um ovo de páscoa! Gigante! Minha mãe: o que é isso Silvio, a Nina enlouqueceu? Ah, Cecília, você conhece a Nina. Disse que tinha certeza que a menina não tinha ganhado nenhum ovo de páscoa e que tava na hora dela ser recompensada por muitos anos sem ganhar ovo de páscoa da madrinha! Mas Silvio, estamos em julho! Pois é , coisas da Nina…
Minha madrinha Nina é assim. Desaparece por meses, às vezes anos, esquece de aniversário, não tá nem aí pro Natal, que dirá a páscoa! Mas, subitamente, ela se lembra de mim. E lembra que me adora, que me acha assim especial. Lembra que adora ser minha madrinha e que madrinha tem que ter um papel especial na vida da afilhada. Daí ela me manda um dos incríveis presentes que eu ganhei dela ao longo da vida. NUNCA na data certa (pelo menos essa data “certa” das pessoas comuns…), mas sempre um presente diferente, inesquecível, que só eu tinha, que só eu ganhava, e realmente ela conseguia o que tinha planejado: fazer com que eu me sentisse especial, única, privilegiada. Bom, pelo menos em termos de madrinha, não tinha pra ninguém, realmente. Os presentes, então…
Aos oito anos recebi dela um feijão de prata da Tiffany. Pra que serviria o feijão eu não sei, mas veio acompanhado de uma carta tão espirituosa, tão bem escrita, tão amorosa e divertida que eu passei pelo menos 1 mês carregando o feijão pra todo lado e mostrando pros amiguinhos como quem compartilha um tesouro.
Aos onze eu ia pra um acampamento tristíssima porque meus irmãos iam fazer uma viagem com meus pais para a qual eu era muito pequena. Segundos antes de eu partir lá vem meu bravo tio Silvio trazendo nas mãos o que uma menina precisa pra se diferenciar num acampamento para o qual ela não quer ir: uma lanterna profissional enorme e um par de patins americanos. No acampamento, só eu tinha uma lanterna profissional e, principalmente, só eu tinha um par de patins americanos. Brancos, de couro, cano alto, aqueles que a gente ia cruzando o cordão, amarrando até quase o joelho, e com gloriosas rodas vermelhas de poliuretano. Ninguém tinha patins como aqueles no acampamento, acho que nem no Brasil, talvez nem no mundo!
Um dia muito depois do Natal chegou um visualizador de slides, uma espécie de televisãozinha onde você colocava um slide e ele aparecia iluminado, grandão, na tela. Junto, um carretel com 30 slides contando a história mais triste que eu já vi na vida, “A menina dos fósforos”, que até hoje enche meus olhos de lágrimas cada vez que algo me faz lembrar a dor e a tristeza daquela menina solitária na véspera de Natal. Aliás, minha madrinha me escreveu um dia que leu em algum lugar que a história de infância que a gente mais lembra acaba sendo o script da nossa vida… Não foi, não tem sido, no meu caso, mas toda vez que eu quero filmar ou escrever algo que emocione, eu me lembro daqueles slides…
Às quartas-feiras, na casa dela, tinha uma profusão de pastéis de queijo que eu sim podia rechear na mesa com o arroz e feijão do meu prato.
Na véspera de eu viajar sozinha pela primeira vez, pra Nova York, ela me mandou um caderninho, tipo um moleskine, todo escrito a mão, com dicas pessoais, esmiuçadas, detalhadíssimas, da cidade que ela conhece tão bem. Tenho até hoje esse caderninho e li e lerei todas as vezes que eu voltei ou voltar a NY na minha vida.
Pra completar as lembranças, um dia eu iria finalmente à Itália, viagem dos meus sonhos, estudar em Florença. Em casa chegou uma caixa de livros sobre Florença e, pra escala em Roma, um livro de fotos que me seria imprescindível: Os pintos de Roma. Pinto. Pênis. De todos os tipos, cores e tamanhos, que decoram as estátuas e fontes de Roma. Pra eu ir me acostumando com o clima.
Hoje em dia, e desde que sou realmente adulta, nos correspondemos por cartas ou email, com a mesma constância dos presentes da minha infãncia. Sem nenhuma freqüência ou motivo definido, de vez em quando lembramos uma da outra e nos damos conta de quanto nos gostamos e de quanto nos identificamos. E temos em comum o gosto por ler e escrever, o que nos torna cúmplices e confidentes bissextas, conforme vaza o nosso coração, com lembranças de um amor que sempre foi exatamente como é a minha madrinha, distante e intenso.
Nina cozinha e escreve deliciosamente. Hoje percebo que além da minha atividade principal que é dirigir filmes, o que mais gosto de fazer na vida é escrever e cozinhar. Nina vive disso, com uma coluna saborosíssima na Folha de São Paulo onde ela emociona uma multidão de leitores todas as quintas-feiras, e com um buffet que alimenta e alegra as festas de pessoas que sabem comer e viver com qualidade. Eu vivo de fazer filmes, mas na minha rotina as atividades da Nina tem crescido assustadoramente nos últimos anos. Nunca tinha me dado conta, mas seguro que é a vida dela se espalhando na minha. À distância e intensamente.

Cuba! – Crônica da Sexta

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Quando comecei a dizer por aí que iria à Cuba, as pessoas reagiam de duas maneiras: ou me perguntavam o que eu iria fazer em Cuba ou me perguntavam para qual dos dois lugares eu iria, Varadero ou Cayo Largo. Aos primeiros eu respondia que iria passear, conhecer, viajar, essas coisas. É incrível como ir à Cuba pode parecer excêntrico para alguns. À turma de Varadero eu respodia que queria mesmo era conhecer Havana, Santiago de Cuba, Trinidad, cidades mais ligadas à cultura cubana do que Varadero e Cayo Largo que, na verdade, poderiam estar em qualquer lugar do Caribe, o fato de estarem em Cuba não faz a menor diferença. É um pecado ir à Ilha de Cuba sem passar por Cuba propriamente dito. Dá até para agregar ao roteiro mais cubano um pouco de praia e aí sim juntam-se todos os motivos do mundo para correr para lá. Vou até facilitar um pouco e listar alguns: Salsa. Cidades históricas. Fidel Castro. Mojitos. Buena Vista Social Club. Che Guevara. Caribe. Daiquiri. Elián. Mais? A hospitalidade. As pessoas. A música. A dança. A alegria. A beleza. Ainda mais? O tempo que parece parado em 1959. Os carros americanos antigos. A arquitetura intacta. Só um pouquinho mais: A curiosidade histórica. O testemunho. Uma ilha comunista perdida no meio do Caribe. O único país comunista do ocidente. Se você não se convenceu, o.k., parta imediatamente para Cancún. Mas se você se interessou, corra, porque essa mistura de ilha caribenha com socialismo soviético, que faz de Cuba um lugar tão especial nesse mundo, está com seus dias contados. Duas ameaças vêm crescendo: o turismo internacional e a implacável finitude humana, que um dia chegará também a Fidel Castro, ainda que muitos por ali desconfiem disso.

A ainda recente abertura de Cuba para o turismo vem conseguindo tirar o país da miséria absoluta em que havia se transformado a vida dos cubanos com a queda da União Soviética, em 1991. A boa notícia para nós é que agora existe uma estrutura para o turismo cada vez melhor, com hotéis espetaculares dos anos 40 e 50 completamente restaurados, carros em bom estado e de todos os tipos para alugar, taxis, restaurantes, uma ou outra lojinha, coisas que, até então, nem pensar. A má notícia é que, como em tantos lugares do mundo, o turismo massificado descaracteriza os lugares mais pitorescos, as cadeias internacionais erguem hotéis imensos sem nenhuma preocupação com a interferência na harmonia da arquitetura local, e a voracidade em relação aos dólares estraga um pouco o contato humano – coisas que, no caso de Cuba, podem fazer muita diferença. Por isso é preciso correr. Cuba não vai acabar, mas com certeza vai mudar muito. E algo de seu charme deve se perder.

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Música e dança

Algum cubano vai lhe tirar para dançar em alguma ocasião. Disso não se tem dúvida. A dúvida é se você vai fazer charminho, ficar com vergonha ou dizer que não sabe dançar. Não faça isso. A dança e a música em Cuba são a base da comunicação. Todo mundo dança, todo mundo canta, quase todo mundo toca algum instrumento. Não é uma ofensa recusar-se a dançar, mas é um desperdício. Aquele povo é animado, se você está dançando bem ou mal é o que menos importa. Importante é que é através da música que a gente se joga de verdade na cultura cubana. Ouve-se música o tempo todo, de ótima qualidade, em qualquer buraco, nos lugares próprios para show, nas casas de música, nas ruas, nos restaurantes, em qualquer lugar. E onde tem música tem gente dançando, até nos espaços mais exíguos, mesmo quando não há espaço algum, os cubanos sempre acham um jeito de dançar. E com a moda do Buena Vista Social Club ficou ainda melhor, porque resgatou-se em Cuba o “son”, ritmo tradicional cubano que deu origem, por exemplo, à salsa e à rumba. É muito gostoso de dançar, de olhar, de escutar a música. E no final das contas uma coisa sempre leva a outra e quando se vê já temos novos amigos, já experimentamos o mojitos, o daiquiri, já estamos integrados, já somos praticamente cubanos. E felizes.

A revolução

Que atire a primeira pedra quem nunca se emocionou com aquela foto histórica de Che Guevara mirando o infinito revolucionário. Quem nunca teve uma boina com estrelinha. Quem nunca se deixou seduzir, ao menos um pouquinho, seja pelo carisma de Fidel, seja pelos ideais de Che Guevara. Ou no mínimo pela beleza daqueles homens quase adolescentes tão idealistas que, como todos nós, um dia sonharam com uma sociedade mais justa. A diferença é que nós seguimos pela vida real. Eles fizeram a revolução.

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A revolução está por todo lado. São cartazes pelas ruas com palavras de ordem ou citações, outdoors nas estradas com fotos enormes de heróis da revolução, Fidel falando na TV sem parar, jornais totalmente tendenciosos, um verdadeiro bombardeio diário que tenta manter nos cubanos o espírito revolucionário. O que não tem sido fácil para eles, governo ou povo. Mas para nós, turistas, é muito curioso. Não há como não se envolver com aquilo, quando a gente se dá conta já conhece detalhes da revolução, já se apaixonou por um tal de Camilo Cienfuegos (herói revolucionário muito popular em Cuba e injustiçado pela história no resto do mundo), já está se programando para subir a Sierra Maestra a pé, só para saber como se sentiram os companheiros Che, Fidel, Camilo, Arturo… Isso sem falar no massacre interrogativo a que submetemos qualquer cubano que chega perto de nós. Como se vive com 4 dólares por mês? Você concorda com o sistema? Esse táxi é seu? Você não tem vontade de sair? Como é a escola, a feira, o Natal, o comércio, o cinema, sua vida, seu bairro, seu lazer, a cor da sua casa, o nome da sua filha. O cubano, embora um pouco tonto com tanta pergunta, responde com alegria, gentileza e, muitas vezes, orgulho. Quando a gente acha que está começando a entender, um Elián sorridente beija Fidel Castro enquanto outro Elián desesperado morre afogado numa dessas balsinhas primitivas tentando chegar à Flórida. Não adianta. É um outro mundo, difícil de entender se não pertencemos a ele, se nunca vivemos algo sequer parecido. Mais difícil ainda de julgar. Mas, na verdade, não precisa. Para eles é bom que o planeta tenha mais curiosidade sobre Cuba. Para nós, mesmo sem entender, tentar já é um prazer.

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Os Cubanos

Tia Blanquita ligava para nosso hotel dia sim dia não para saber se estávamos bem, se precisávamos de alguma coisa, se estávamos gostando de Havana e se realmente não queríamos tomar um café em sua casa. Não, não iríamos porque sabemos das dificuldades das famílias cubanas, não queríamos dar trabalho e muito menos despesa. Tia Blanquita quase chorou. Fomos. Demos trabalho e despesa. Comemos, bebemos, rimos, dançamos, tiramos fotos, passamos horas com aquela família, teve lágrima na despedida, foi uma farra. Você me pergunta: afinal, quem é essa tia Blanquita? Vou dizer: A irmã da mãe do marido de uma amiga de uma aluna de uma das pessoas que viajava conosco e que levou lembranças do Brasil para a distante tia Blanquita e sua família, que nos recebeu a todos como príncipes. Assim são os cubanos.

( A parte chata da simpatia cubana é lidar com o pessoal que quer te vender charuto falsificado ou prestar serviços sexuais. Outros querem mesmo é casar com você, para poder sair legalmente do país. Da primeira turma é fácil de se livrar com uma negativa firme e educada. Do pessoal mais casadoiro dá para passar da primeira etapa deixando claro que você não está a fim, ele vai relaxar e você pode partir para a segunda etapa: você já tem um amigo cubano, agora saia para se divertir! )

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Havana

Tem muita gente que acha Havana parecida com Salvador, na Bahia, ou pelo menos com o Pelourinho. Pode ser, especialmente Havana Velha que, como o Pelourinho, tem uma pequena parte restaurada e o resto caindo aos pedaços. A grande diferença é que a parte não restaurada de Havana está exatamente como estava antes da revolução, em 1959. Nenhuma mão de tinta passou por ali nos últimos 42 anos, nenhuma casa foi demolida para dar lugar à uma mais nova, nada saiu do lugar. E esse é o grande charme de Havana. Em qualquer lugar que se ande, descobre-se construções maravilhosas, dos anos 50, do começo do século, do século passado. O fato de estar caindo aos pedaços dá um ar de cidade fantasma parada no tempo que, em contraponto ao tanto de vida que tem em Havana, faz da cidade algo único no mundo. Passear pelas ruas, deixar-se perder pela cidade e entregar-se de corpo e alma aos prazeres e às belezas que a cidade esconde é a única maneira de gostar de Havana. Se você não se deixar envolver, vai achar que Havana é uma cidade pobre e detonada, apenas. Mas se você se deixar levar, vai descobrir uma cidade nem tão pobre, nem tão detonada e muito, mas muito especial.

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Outras Paradas

Do outro lado da Ilha, rodeada pela Sierra Maestra e debruçada sobre o Mar do Caribe, está Santiago de Cuba, berço da revolução e da música. Sentiu? É obrigatório. É uma cidade pequena, autêntica, acolhedora, onde se faz amigos em mais ou menos 1 minuto e meio. No dia seguinte você encontra seus amigos pela rua, sem querer. Já são quase parentes. Tem muita música, muito passeio para fazer e uma geografia bastante generosa. Além da linda Sierra Maestra, onde pode-se optar por um turismo ecológico ou histórico. Ou os dois ao mesmo tempo, como por exemplo subindo à pé as trilhas abertas pelos combatentes revolucionários.

Trinidad é uma cidade colonial muitíssimo bem preservada, declarada pela UNESCO patrimônio histórico da humanidade, um lugar lindo. Diferente de outras cidades históricas no mundo, Trinidad não tem lojinhas, não tem cartazinhos de publicidade, quase nào há descaracterizações de seu projeto original, o que por si só já é uma raridade e uma razão forte para se visitar a cidade. Como bônus, você pode ficar hospedada numa praia à 12 km da cidade, com total infra-estrutura para esportes aquáticos, mergulho, vela, etc. É a península de Alcón, marzinho azul, areia bem branquinha, uma autêntica praia caribenha, próxima de um autêntico centro histórico. O que mais se pode querer?

De carro, partindo de Havana para o leste, dá para se divertir bastante. Têm as praias do Leste, muito boas para passar o dia, a vinte minutos de Havana. Um pouco mais adiante está Varadero, se você realmente fizer questão… Para o oeste, perto de Pinãr del Río, está Viñales, na Serra dos Órgãos. Uma região agrícola linda de morrer onde se cultiva o tabaco, cheia de pequenas vilas muito charmosas e com um clima serrano agradabilíssimo. Se quiser saber mais sobre charutos, existem por ali fábricas e plantações de tabaco abertas à visitação.

“Aos 10 anos” – Crônica da Sexta

Aquela figura alta, longilínea, abrindo a porta do carro – que carro era aquele, por que meninas têm essa dificuldade? Seria tão certo lembrar que o nome do carro era  aero willis ou maverick – vai minha filha, entra logo, ainda temos que buscar Alice… Alice era minha amiga mais linda, não muito íntima, mas era a única que tinha restado como eu na cidade, em pleno feriado onde todas as amigas – as íntimas – estavam veraneando pelas casas de praia ou fazenda que nós nunca tivemos, mas tanta gente tinha que quase que nós não precisávamos ter. Quase. Meu pai havia escolhido Pirapora do Bom Jesus seu destino e de duas meninas não muito amigas mas fortemente ligadas pelo mesmo sentimento de abandono num domingo quente, dia feriado, numa época em que a cidade ficava realmente vazia num domingo de feriado, e assim vazia parecia ainda mais quente, mais abandonada, e nós nos sentíamos parte daquele abandono, porque não estávamos na praia nem na fazenda, não éramos proprietárias nem convidadas, a nós restou a cidade quente e vazia, num domingo feriado. Quem é Alice, perguntou meu pai, no sábado de planos, depois de uma sexta-feira  de aflição. A Alice do clube, sabe, irmã do Tarcísio, ela também não viajou. Ele sabia, gostava da Alice, aquela menina do clube, irmã do Tarcísio, tão linda, ele dizia. Vamos a Pirapora, proclamou meu pai. De carro. O carro dele. Só nós, mais a Alice. Alice encarou com normalidade o fato de que não iríamos para a praia nem para a fazenda. Nosso destino era Pirapora, e Alice também parecia confiar no homem alto e longilíneo.  Do caminho quase não lembro. Lembro da parte de dentro do carro. Eu e Alice no banco de trás, de couro claro, dependuradas no banco da frente. Onde é Pirapora? Quanto tempo falta? Vai ter lanche? O que tem em Pirapora? Quantas vezes podemos ir ao teleférico? Visto assim de trás e de baixo, meu pai era ainda mais alto e longilíneo. Cheirava à loção pós-barba, vestia indefectíveis camisas brancas, sorria com os olhos refletidos no retrovisor. Alice falava puxa como seu pai é legal. Eu pensava puxa como a Alice é legal. Em Pirapora tinha igreja e teleférico. Não era praia nem fazenda.


Lô Politi

Blog pra falar (originalmente) de cinema, tv e publicidade. Mas agora tem também crônicas, viagens e aleatórios...

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