Textos categorizados 'roteiro'

Robert McKee no Brasil! Who wants to be a millionaire, oops, sorry, a scriptwriter?

Você viu “Adaptação”, certo? Filme escrito pelo Charlie Kaufman e dirigido por Spike Jonze, mesma dupla de “Quero ser John Malkovich”, filme que revelou ao mundo a turma de cinema mais legal da atualidade. Uma gente que se espalha e se reveza nas fichas técnicas dos filmes que de fato trouxeram uma lufada de ar fresco ao cinema contemporâneo. No espetacular roteiro de “Adaptação”, o personagem que é um roterista genial (o próprio Kaufman) está em crise com o roteiro que está escrevendo e recorre ao irmão gêmeo que é roteirista amador (personagem fictício) e segue os preceitos do professor de roteiros Robert McKee, que o irmão roteirista genial em crise classifica como fórmula e sucessão de clichês. Mas no final ele mesmo recorre a McKee e o filme reforçou em mim a crença de que é ótimo e necessário tentar ser original e genial, mas é bem proveitoso conhecer os preciosos ensinamentos de McKee, mesmo que seja pra depois esquecê-los e virar de fato um gênio original, mas um gênio original com base.
Bem, Robert Mckee está no Brasil com seu Story, seminário de quatro dias em que ele fala pelos cotovelos, não deixa ninguém dar um pio e cobra multas de dez dolares do dono de cada celular que tocar no meio da aula. E, naturalmente, nenhum celular toca. O homem é um show-man, tem uma voz encantadora e consegue manter uma platéia absolutamente atenta ao seu charme por quatro dias seguidos, por dez horas ininterruptas a cada dia. Bem, não sou exatamente uma roteirista, mal saí das fraldas nesse sentido, mas posso dizer com a certeza dos inocentes: o curso é ótimo. Fiz esse Story workshop do McKee em São Francisco/California dois anos atrás e posso garantir que vale muito a pena.
McKee se gaba de ensinar sobre forma, não sobre fórmulas. De fato, é o que ele faz ao passar os olhos por mais de 100 filmes de diferentes gêneros, épocas e estilos. Mas, no final, querendo ou não, isso tudo colocado em linha, em forma de seminário, livro ou audiobook, acaba realmente fazendo o papel de fórmula – e você se lembra disso cada vez que abre o utilíssimo livro dele pra lembrar em que página mesmo deve acabar o primeiro ato ou quantos minutos o filme ainda pode ter depois do clímax do terceiro ato. Mas isso, longe de ser um problema, é uma benção. Sempre achei que pra se destacar em qualquer coisa é preciso primeiro conhecer muito bem o que já se sabe por aí, pra então dar o seu pulo do gato e tentar superar o que já foi feito. Existem naturamente gênios brutos, que se alimentam exclusivamente de sua mente, sem influências externas nem conhecimento histórico. Gente cuja mínima manisfestação de genialidade revoluciona o mundo até então conhecido. Claro que existe, mas são poucos e raros. Me parece muito mais provável que um novo talento se disponha a estudar o que já se conhece e, em cima disso, seu gênio arrebente a portinha da gaiola e esparrame seu talento pelo mundo.

Especialmente bom no curso é o ultimo dia, quando McKee projeta e disseca cada pedacinho de Casablanca, cena por cena. E não há como não se encantar por aquilo, aquele filme, aqueles atores, aquele roteiro incrível e aquele homem charmoso demonstrando beat por beat todos os pontos e argumentos que ele levantou durante os quatro dias de curso. E na saída, pra vender, está o roteiro de Adaptação com comentário de Robert McKee. O roteiro é praticamente a antítese de Casablanca, assim como Charlie Kaufman é praticamente a antítese de Robert McKee. Adaptação é um filme tão dúbio que ao mesmo tempo tira um sarro e presta uma homenagem a esse estudioso que é o avesso da moeda de Charlie Kaufman, o gênio que arrebentou a portinha da gaiola. Entre o sarro e a homenagem, McKee escolheu ficar com a homenagem… Muito propriamente.

Mais informações sobre o workshop de McKee no Brasil aqui.

E a entrevista que ele mesmo usa no site de divulgação do seminário, bem ilustrativa:

Jonas e a Baleia – terceiro tratamento do roteiro

Terminei o terceiro tratamento do roteiro de Jonas e a Baleia. Queria diminuir (em relação ao segundo, feito pelo meu parceiro Élcio Verçosa) o número de páginas e tempo da ação. Quanto ao número de páginas, recebi com 153 e estou entregando com 129. Ainda acho grande, mas desconfio que seja porque ainda é muito descritivo, literário. Fico na dúvida de tirar completamente essas descrições, que fazem entender o universo dos personagens e a natureza das relações entre eles. Esse é um filme de emoções intensas que levam a um desfecho trágico. Se quem lê não entende o que em outro caso seriam as entrelinhas do roteiro, não entenderá o que leva ao desfecho do filme. A ação é desencadeada por um acidente ambíguo que se desdobra numa tragédia de erros. Como se restringir a descrever uma ação fria num filme que fala de confiança e traição, amor e ilusão, da dor de uma criança que trai o irmão pra protegê-lo, de uma adolescente inteligente e bem formada que se expõe ao perigo pra preencher o vazio de sua vida e, principalmente, de um garoto cuja beleza e carisma fazem dele um príncipe deslocado em seu mundo, mas não lhe dá acesso ao mundo com o qual ele sonha? Enfim, sofri com esse dilema nas últimas 2 semanas, debruçada sobre o roteiro dia e noite. Resolvi manter as descrições emocionais e psicológicas, mas economizar nas descrições de ação propriamente dita, agora mais enxutas e objetivas. Acho que o resultado está ficando bem bom. Mas ainda gostaria de diminuir mais algumas páginas, pra que seja mais fácil de ler o roteiro. Missão essa que devolvo agora pro meu parceiro Élcio, que revisará o terceiro tratamento ou fará o que espero que seja o quarto e último, dessa fase. Os próximos passos agora são terminar o orçamento a partir da análise técnica que foi feita já com o segundo tratamento, colocar na lei, nos editais, captar, polir o roteiro e filmar. Hahaha. Assim fácil.

roteiro dividido por dias da semana no tempo da ação

roteiro dividido por dias da semana no tempo da ação

Sala de Roteiro para Jonas e a Baleia

Jonas e a Baleia ganhou uma sala de roteiro na Maria Bonita. Acabamos de passar por uma fase de discussões intensas sobre cada cena, o encadeamento e a real necessidade de cada uma delas. Resolvemos então pendurar na parede todo o roteiro dividido por cenas, além fazer um board com quadradinhos contendo o resumo de cada uma e um outro com a ação dividida por dia da semana, dentro do tempo físico em que se desenvolve a nossa história (o filme se passa em 11 dias). Com isso ganhamos um espaço que permite o silêncio necessário pra quem escreve e a privacidade necessária pra quem discute. Nesses dias tenho sido a única ocupante da sala, já que a bola nesse momento está comigo. Recebi do Élcio (Verçosa Filho) o segundo tratamento do roteiro, fiz um revisão cuidadosa e discuti com ele cada cena. Agora está na minha mão a difícil missão de reescrever o texto e cortar uns 20% da ação e, no mínimo, umas 30 páginas. O segundo tratamento veio com 153 páginas, na revisão eu já tirei 11 e nesse terceiro tratamento pretendo diminuir mais 20, pelo menos. Difícil missão… Tentarei ser menos literária que o Élcio, que escreve imensamente bem e usa esse talento pra descrever, misturado à ação, as sensações, sentimentos e emoções de personagens que falam pouco mas sentem muito. Sinto que esse trabalho, nessa fase, serviu mais a nós, roteiristas, e a mim, diretora, do que ao roteiro propriamente – pra que entendamos exatamente o universo dos personagens e do filme que estamos desenvolvendo. Agora que demos essa volta, tão proveitosa pras nossas funções, vou tentar restringir ao roteiro o que é do roteiro.

quadradinhos no board

quadradinhos no board


o roteiro todo do outro lado

o roteiro todo do outro lado


sozinha

sozinha


com o Élcio

com o Élcio

Jonas e a Baleia – Rumo ao segundo tratamento

O primeiro tratamento do roteiro de Jonas e a Baleia ficou bom. Ainda falta muito, mas ficou bom. A conclusão que chegamos é que a estrutura está toda pronta, a ação determinada. Com essa cama pronta, falta agora aprofundar o filme, ganhar musculatura espiritual, como diz o Elcio, ou qualidade emocional, como digo eu. De qualquer jeito faltam os silêncios, os espaços, o desenvolvimento e aprofundamento da relação entre os personagens. A sintonia fina dos sentimentos.
Era esse mesmo o plano – ter um desenho da ação bem determinado, sólido, pra que a gente não duvide da história, do estabelecimento, e acredite naquela situação. Agora, próximo passo, é fazer com que a gente acredite naqueles personagens que estão naquela situação. Durante o mês de agosto o Elcio fica exclusivamente dedicado ao roteiro. Eu vou lendo e comentando conforme ele for escrevendo, pra que os comentários sejam incorporados ao roteiro antes dele ser fechado.
Quando cada cena, ou sequência, ou ato, estiverem prontos, ponho eu mesma a mão na massa pra transformar aquelas palavras em palavras mais precisas pra o filme que eu quero filmar. Me parece um bom método. Vamos vendo.

Jonas e a Baleia – Momentos que antecedem a leitura do primeiro tratamento

Acabo de receber o primeiro tratamento de Jonas e Baleia, escrito pelo Elcio Verçosa. Até agora vínhamos trabalhando em cima de uma sequência de escaletas, já quase realmente um roteiro, apenas sem os diálogos. A última escaleta já tinha quase 100 páginas. Agora, enquanto escrevo, escuto a impressora se esforçar pra imprimir 144 páginas. 

Fizemos inúmeras reuniões que duravam, cada uma, cerca de inacreditáveis 8 horas seguidas, pra meu desespero, que sofro de rodinhas nos pés. Mas a cada versão da escaleta chegávamos mais perto do que é o filme que pretendo fazer. 

É preciso ter fé e resistência pra ver um roteirista convidado desenvolver a sua história, pro filme que você vai dirigir. Ainda mais quando o argumento é original e saiu das suas entranhas e pelas suas mãozinhas. É um tremendo exercício de desprendimento, cada reunião esgota tanto que parece uma luta. Mas é a maior delícia do mundo perceber que alguém incorporou a sua história. E desenvolveu.  E melhorou. 

Nas nossas reuniões tínhamos que defender à exaustão nossos pontos de vista, nossas idéias, nossa visão do filme. Foi dificílimo pra mim, a história nasceu e se desenvolveu na minha cabeça, era muito difícil acreditar que alguém, ainda por cima tão diferente de mim, pudesse compreender aquele universo tão específico que é um filme imaginado dentro da nossa cabeça. 

Mas fomos em frente, com todos os riscos que sabíamos estar correndo.

Chegou a primeira escaleta. Era um excelente filme. Mas não o meu filme. Não o filme que eu queria fazer.

Lemos juntos, discutimos, quase brigamos. Mas chegamos, depois de sangue, suor e lágrimas, num lugar comum. Se o processo não teve literalmente esses três elementos,  era exatamente sobre o significado deles no nosso filme que discutíamos exaustivamente. Não poderia ser  fácil…

Veio a segunda escaleta. Dormiu no meu criado mudo por dias, antes que eu tivesse coragem de ler.  Tinha certeza que não gostaria. Ou pior, que gostaria do roteiro porque o Elcio escreve inacreditavelmente bem, mas que não seria o roteiro do filme que eu gostaria de fazer. Como dizer isso a ele, depois de tanto trabalho? 

Um dia tomei coragem e li… Adorei. No final nossas diferenças serviram pra enriquecer a história, tornar os personagens mais interessantes, profundos, ricos. Ainda divergimos em alguns pontos, mas foi com um prazer enorme que eu cedi em várias das minhas crenças e ele reviu grande parte das dele. Somos os dois teimosos e alguns pontos ainda serão um embate, mas desconfio que isso seja uma estratégia involuntária dos dois pra manter  a tensão de um roteiro em desenvolvimento, melhorando a cada versão.

Bem, já está impresso o primeiro tratamento que acabo de receber, feito em cima  da escaleta sobre a qual estamos concordes. Dessa vez não dormirá um dia sequer sobre meu criado mudo.


Lô Politi

Blog pra falar (originalmente) de cinema, tv e publicidade. Mas agora tem também crônicas, viagens e aleatórios...

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